Revelação de Deus Pai a Santa Catarina de Sena ( LIVRO O DIÁLOGO ) - Parte 14
 
 
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Livro Aberto
Coloco nesta catogira livros inteiros sobre nossa fé católica, que serão inseridos por partes.




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14 . DEUS FALA SOBRE OS PECADORES

 

14 . DEUS FALA SOBRE OS PECADORES


14.1 - Os que vão pelo rio do pecado

Após falar com o coração aberto sobre a misericórdia divina, aquela serva esperava humildemente que se realizasse a promessa feita antes (12.1;2.6). Deus Pai retomou então a palavra e disse:

- Filha muito querida, discorreste diante de mim sobre a misericórdia, porque eu te fiz compreender a profundidade daquela afirmação: "Estes (os pecadores) são as pessoas por quem peço que rezeis". Mas procura entender que minha misericórdia é infinitamente maior do que pensas. Tua capacidade é imperfeita, limitada, ao passo que perfeito e infinito é o meu perdão. Impossível fazer comparações, senão aquela da finitude com o Infinito. Quis que experimentasses o que é tal misericórdia, bem como qual seja a dignidade do homem, revelada a ti antes (1.1). Quero que entendas melhor a maldade e crueldade dos pecadores, que vão pelo rio do pecado. Começam por conceber o mal no próprio íntimo, enfermando-se; depois o praticam exteriormente 38 e perdem a graça.

 

 

Afogados no rio do falso amor mundano, eles morrem para a graça. Assemelham-se ao cadáver, privado de sensações, que já não se move a não ser carregado por outros. Nos pecadores, assim "mortos", a memória já não retém a recordação da minha misericórdia, a inteligência não compreende minha verdade, preocupada que está com a própria sensualidade e pessoa, a vontade permanece insensível à minha vontade e apega-se às realidades mortas. Com a morte destas três faculdades 39, toda a atividade interna e externa do pecador se esvazia quanto à graça. O pecador já não consegue defender-se dos inimigos 40, já não reage sem meu auxílio. Sempre é verdade, porém, que este "morto" possui o livre arbítrio durante esta vida mortal no corpo e, ao implorar socorro, sempre o terá de mim. Mas, sozinho, nada fará. O pecador é insuportável a si mesmo; pretendendo ser o dono do mundo, deixa-se dominar pelo nada, o pecado. Sim, o pecado é um nada...., e tais pessoas são seus escravos!

38 - Catarina distingue dois momentos na gênese do pecado: o "mental", no íntimo do coração, o "atual" pela prática do mal contra o próximo. O mesmo se deve dizer da origem das virtudes. Veja 2.5.

39 - A função destas faculdades no processo da vida espiritual será explicado no 16.1.

40 - Trata-se do mundo, do demônio e da sensualidade ou carne.

 

14.2 - Seus principais defeitos

Os pecadores haviam recebido a graça no santo batismo; deles eu fizera árvores de amor. Transformaram-se em árvores de morte, pois estão mortos, como disse antes. Sabes onde nascem suas raízes? No solo do orgulho. Sua seiva é o egoísmo; medula, a impaciência; rebento, a falta de discernimento. São esses os quatro vícios principais do homem que se tornou árvore de morte com a perda da graça. No seu íntimo vive o verdadeiro remorso, mas é pouco sentida a sua presença devido à cegueira do egoísmo.

Como o alimento desta árvore brota do orgulho, a pobre alma vive cheia de ingratidão, que dá origem a todos os males. Se o pecador tivesse gratidão pelos benefícios recebidos, conhecer-me-ia, conheceria a si mesmo em mim 41, amar-me-ia. Mas ele é um cego que vai tateando pelo rio do pecado, inconsciente de que as águas não o esperam.

 

 

Os frutos mortais desta árvore são tão numerosos quanto os tipos de pecado.

Uns são alimentos de animais para os que vivem na imundície, revolvendo o corpo e o espírito na lama da carne, à semelhança do porco no chiqueiro. Ó homem embrutecido! Onde deixaste a tua dignidade? Eras irmão dos anjos e agora não passas de um feio animal!... Tais pessoas vivem em tal baixeza, que não somente eu, suma pureza, apenas consigo tolerá-los; até os demônios dos quais se fizeram amigos e escravos, não aguentam diante de pecados tão imundos 42. Nenhum pecado é abominável como este, nem há outro que tanto escureça a inteligência humana. Os filósofos (pagãos), que não possuíam a luz da fé, compreenderam isso através da natureza; para melhor estudar, guardavam a continência 43. Também afastavam de si as riquezas, a fim de que sua preocupação não lhes envolvesse o coração. Não age assim o falso cristão; cheio de maldade, por própria culpa perde a graça.

Outros pecados ficam nos bens materiais, como nos avarentos e gananciosos. Estes fazem como as toupeiras, que se alimentam de terra até a morte. Só que estes pecadores, ao chegar o dia da morte, já não têm mais cura. Gananciosos, eles negociam o tempo 44 são usurários, cruéis, ladrões. Sua memória se esquece dos meus benefícios. Em caso contrário, deixariam de ser cruéis consigo mesmos e com os outros. De si mesmos teriam pena, praticando as virtudes; dos outros, pelo serviço da caridade. E como são numerosos os males provenientes deste maldito vício! Quantos homicídios, furtos, rapinas, lucros ilícitos, ruindade de coração, injustiças! Ele mata a alma, torna-a escrava dos bens materiais, negligente em observar os meus mandamentos.

 

 

 

O ganancioso-avarento não ama ninguém, a não ser por interesse pessoal. A ganância nasce do orgulho e alimenta o orgulho. Um procede do outro, já que ambos a tudo antepõem a fama pessoal. De um mal passa a outro, indo sempre para o pior. O orgulho do homem cheio de si é um fogo: produz a fumaça da vanglória e a vaidade do coração, gloria-se de coisas que nem lhe pertencem! O orgulho é a raiz de todos os vícios. O principal deles é a procura de boa fama; seguem o desejo de suplantar os demais, o fingimento interior, interesseiro e egoísta, a dupla face. Enquanto a boca diz uma coisa, o coração pensa outra; oculta-se a verdade, mente-se para tirar proveito. O orgulho produz ainda a inveja, verme que corrói o homem interiormente e não o deixa ser feliz com o verdadeiro bem pessoal e alheio. Em estado tão infeliz, como poderão estes tais auxiliar os necessitados, se vivem a desfrutar dos outros? Como podem afastar sua alma da lama, quando mais e mais a afundam? Algumas vezes ficam tão embrutecidos, que perdem o respeito pelas próprias filhas e parentes, cometendo com elas muitas ações más. Tolero-os apenas para que se corrijam, sem ordenar à terra que os engula. Como poderiam eles dar a vida pela salvação alheia, quando recusam distribuir os bens materiais? Como poderiam dar amor, se a inveja os martiriza? Ó vícios miseráveis, que materializam o "céu", que é a alma! Chamo a alma de céu, porque a havia mudado em lugar onde habitava a graça; nela me escondia; pelo amor a transformara em minha mansão. Qual mulher adúltera, ela me abandonou. Mais que a mim, ama a si mesma, as pessoas e coisas. Faz de si mesma seu deus e agora me ofende com numerosos e diferentes pecados. Tudo, porque não pensa nos favores do sangue derramado num grande incêndio de amor.

A terceira categoria de vícios é a daqueles que se pavoneiam no poder, tendo como insígnia a injustiça contra Deus 45, contra o próximo, contra si mesmos. Contra si mesmos, porque não cumprem o dever de serem virtuosos; contra mim, por faltarem à obrigação da honra, da glória e do louvor. São ladrões que usurpam o que me pertence, para dá-lo à sensualidade. Desse modo são injustos para comigo. Relativamente a si mesmos, são cegos e maus, não reconhecem minha presença. Tudo por causa do egoísmo. Agem como os judeus e doutores da Lei, os quais, por inveja e egoísmo, nada viam ou entendiam sobre a Verdade, meu Filho. Não reconheceram a vida eterna que estava entre eles. Jesus lhes dizia: "O reino de Deus está no meio de vós" (Lc 17,21). Eles não entendiam. Por que? Por terem perdido a luz da razão. Devido a isso não me honravam, não me glorificavam; nem a meu Filho. Este o motivo pelo qual, como cegos, foram injustos, perseguindo-o com mil afrontas, até mata-lo na cruz. Além de serem injustos para consigo mesmos e para comigo, estes pecadores o são também para com os outros: vendem a carne dos próprios súditos 46 e de todos os que lhe caiam nas mãos.


41 - Temos aqui uma aplicação concreta da famosa doutrina catariniana da "cela interior" ou autoconhecimento. Veja-se 2.2 e 18.3.
42 - Mais adiante Catarina conta uma visão que teve a respeito deste assunto (28.6).
43 - Os filósofos pagãos são elogiados também no Diálogo por sua pobreza voluntária.
44 - "Negociar o tempo" é exigir lucros proporcionais ao espaço de tempo estipulado nos empréstimos.
46 - A tradução é literal! Os poderosos injustos são apresentados como mercadores de carne humana.

 


14.3 - Julgamento falso e repreensões divinas

Por causa desses e de outros vícios, os pecadores pronunciam um falso julgamento, como passo a explicar-te. Embora sejam retas as minhas ações e praticadas com amor e justiça, eles continuamente se opõem a elas. Foi com semelhante falso juízo, envenenado ainda pela inveja e orgulho, que (os judeus) injustamente condenaram a atividade de meu Filho. Mentindo, eles diziam: "Ele age na força de Belzebu" (Mt 12,24). Hoje, comportam-se da mesma maneira os pecadores, cheios de egoísmo, impureza, orgulho, ganância e inveja. Baseados em interpretações falsas, impacientes e por outros defeitos, em tudo se opõem a mim e a meus servidores, que chamam fingidos. Donos de um coração corrompido e de uma viciada interpretação dos fatos, julgam más as coisas boas e vice-versa.

Ó cegueira humana que nem respeitas a própria dignidade! Sendo grande, fazes-te pequena; de senhora, tu fazes-te escrava do mais vil patrão, o pecado. Tornas-te semelhante aquele a quem serves e como o pecado é nada, a nada te reduzes. Perdeste a vida, encontraste a morte.

 

 

O Verbo encarnado, meu Filho único e ponte de glória, deu aos homens vida e grandeza. Eram escravos do demônio e ele os libertou. Para que cumprisse tal missão, tornei-o servo; para cobrir a desobediência de Adão, exigi que obedecesse; para confundir o orgulho, humilhou-se até a morte na cruz. Por sua morte, destruiu o pecado; já ninguém pode dizer: "Restou este ou aquele vício, que não foi remido com seus sofrimentos". No intuito de livrar a humanidade da morte eterna, fez do seu corpo uma bigorna - como já disse antes (12.2) - e usou todos os remédios. No entanto, os pecadores desprezam o seu sangue, pisoteiam-no com um amor desordenado.

Esta é a injustiça, este o julgamento falso a respeito do qual o mundo é e será repreendido até o dia do juízo final. A esse respeito, dizia meu Filho: "Mandarei o Paráclito; ele repreenderá o mundo da injustiça e do julgamento falso"(Jo 16,8). Tal repreensão começou quando enviei o Espírito Santo sobre os apóstolos. São três as repreensões:

 

14.3.1 - A voz da Igreja

A primeira repreensão iniciou, como acabei de dizer, com a vinda do Espírito Santo sobre os discípulos. Fortalecidos pelo meu poder, iluminados pela sabedoria do amado Filho, receberam a plenitude do Espírito Santo. Este, que é uma só coisa comigo e com meu Filho, repreendeu então o mundo pela boca dos apóstolos através da mensagem de Cristo. Por tal forma eles, e os sucessores que ouviram a Verdade, repreendem o mundo. É a mesma perene repreensão, sempre feita ao mundo pelas Escrituras Sagradas e pelos meus servidores. Coloco o Espírito em seus lábios e eles dizem a verdade, da mesma forma como o demônio se põe na boca dos seus asseclas, que pecaminosamente vão pelo rio do pecado. É a mesma doce e contínua repreensão realizada por mim com imenso amor pela salvação humana. Não se pode dizer: "Ninguém me chamou a atenção"! A todos foi mostrada a verdade sobre o vício e a virtude, sobre os frutos da virtude e as consequências do pecado. Para que odiassem o mal e amassem o bem, a todos foi oferecido o amor e o santo temor. Nem foi um anjo a lhes revelar a mensagem da Verdade, de modo que pudessem escusar-se dizendo: "O anjo é um espírito feliz, não padece, não sente as fraquezas da carne como nós ou o peso do corpo". Não, não podem falar assim, pois enviei-lhes o Filho, homem mortal como vós.

 

 

E os demais seguidores do meu Filho, como eram? Criaturas mortais e passíveis como vós, sujeitos às lutas da carne contra o espírito. Assim aconteceu com o glorioso apóstoo Paulo, assim com os outros santos. Cada um deles, a seu modo, sofreu as tentações da sensibilidade. Permiti e ainda permito essas dificuldades para o crescimento da graça e das virtudes nas almas. Como vós, os santos nasceram no pecado, nutriram-se do mesmo alimento (eucarístico). Também eu sou o mesmo Deus daquelas épocas; meu poder não diminuiu. Posso, quero e sei socorrer a quem deseja ser por mim socorrido. Assim os pecadores abandonam o rio do pecado e vão pela ponte, vivendo a mensagem de meu Filho.

 

14.3.2 - O juízo particular

Os pecadores não podem desculpar-se. Continuamente são por mim convidados ao conhecimento da Verdade. Não se corrigindo enquanto podem fazê-lo, uma segunda repreensão os condenará. Ela acontece no último instante da vida, quando meu Filho chamar: "Surgite mortui, venite ad judicium" (Levantai-vos, ó mortos, vinde para o julgamento)! Tu que morreste para a graça e morto chegas ao fim da vida terrena, levanta-te, aproxima-te do supremo Juiz. Aproxima-te com tua maldade, com teus julgamentos falsos, com a lâmpada da fé apagada. No santo batismo, ela foi-te entregue acesa; tu a apagaste com o sopro do orgulho e da vaidade do coração, usados como velas enfunadas às ventanias contrárias à salvação. O amor da fama soprava teu amor-próprio (egoísmo) e tu corrias alegre pelo rio dos prazeres mundanos; seguias a frágil carne, as incitações do demônio, as tentações. Tua vontade era um pano retesado e o diabo te conduziu pela estrada do mal, junto com ele, para a eterna condenação.

Filha muito querida, esta segunda repreensão se dá no fim da vida, quando não há mais remédio. Ao chegar o instante da morte, o homem sente remorso. Já afirmei que ele é um verme cego por causa do egoísmo. No instante final, quando a pessoa compreende que não pode fugir das minhas mãos, esse verme recupera a visão e atormenta interiormente a pessoa, fazendo ver que por própria culpa chegou a tão triste situação. Se o pecador se deixar iluminar e se arrepender - não por medo dos castigos infernais, mas por ter ofendido a suma e eterna bondade - ainda será perdoado. Mas se ultrapassar o momento da morte nas trevas, no remorso, sem esperança no sangue ou, então, lamentando-se apenas pela infelicidade em que se acha - e não por ter me ofendido - irá para a perdição. Sobrevirá, pois, a repreensão pela injustiça e falso julgamento.

Em primeiro lugar, a repreensão da injustiça e do julgamento falso em geral, praticados no conjunto de suas ações; depois, em particular, do último instante, quando o pecador considera seu pecado maior que minha misericórdia. Este (Mt 12,32) é o pecado que não será perdoado, nem aqui nem no além. O desprezo voluntário da minha misericórdia constitui pecado mais grave que todos os anteriores. Neste sentido, o desespero de Judas desagradou-me e foi mais grave que a sua traição. Também para meu Filho! É por causa deste (último) julgamento falso que o pecador sofre a repreensão, ou seja, porque acha que sua falta é maior que meu perdão. Este é o motivo da punição, indo sofrer eternamente com os demônios.

A repreensão da injustiça acontece porque os pecadores sentem mais tristeza pelos próprios danos que por me terem ofendido. São injustos, no sentido de que não atribuem a mim o que me pertence e a si o que é deles. A mim deveriam oferecer o amor, a tristeza e contrição dos pecados cometidos. Mas agem no sentido oposto, só demonstrando autocompaixão e angústia pelo castigo que lhe merecem seus pecados. Como vês, são injustos. E por tal motivo são punidos por uma e por outra coisa.. Já que desprezaram meu perdão, com justiça mando-os ao castigo (Mt 25,41), juntamente com a escrava sensualidade e o tirano demônio, a quem na sensualidade serviam. Já que solidariamente me ofenderam, juntos serão punidos e atormentados. Os próprios demônios, encarregados por mim de cumprir a sentença de justiça, atormentá-los-ão.

Filha, a tua linguagem é incapaz de descrever os sofrimentos destes infelizes. Sendo três os seus vícios principais - egoísmo, medo de perder a boa fama e orgulho - aos quais se acrescentam a injustiça, a maldade e vergonhosos pecados, no inferno os pecadores padecem quatro tormentos principais.

Primeiro tormento é a ausência da minha visão. Um sofrimento tão grande que os condenados, se fosse possível, prefeririam sofrer o fogo vendo-me, que ficar fora dele sem me ver.

Segundo tormento, como consequência, é o remorso que corrói interiormente o pecador privado de mim, longe da conversação dos anjos, a conviver com os demônios.

Aliás, a visão do diabo constitui o terceiro tormento. Ao vê-lo, duplica-se o sofrer. No céu, os bem-aventurados exultam com minha visão e sentem rejuvenescer o prêmio recebido pelas fadigas amorosamente suportadas (no mundo); da mesma forma, mas em sentido contrário, os infelizes danados vêem crescer seus padecimentos ao verem os demônios. Nestes, eles se conhecem melhor, entendendo que por sua própria culpa mereceram o castigo. Assim o remorso os martiriza e jamais cessará porque o diabo é visto no próprio ser; tão horrível é a sua fealdade, que a mente humana não consegue imaginar. Se ainda o recordas, já te mostrei o demônio uma vez assim como ele é; foi por um átimo de tempo. Quando retornaste aos sentidos, preferias caminhar por uma estrada de fogo até o juízo final que tornar a vê-lo. No entanto, apesar do que viste, ignoras sua fealdade. Especialmente porque, segundo a justiça divina, ele é visto mais ou menos horrível pelos condenados, segundo a gravidade das culpas.

Quarto tormento é o fogo. Um fogo que arde sem consumir, sem destruir o ser humano. É algo de imaterial, que não destrói a alma incorpórea. Na minha justiça permito que tal fogo queime, que faça padecer, aflija; mas não destrua. É ardente e fere de modo crudelíssimo em muitas maneiras, conforme a diversidade das culpas. A uns mais, a outros menos, segundo a gravidade dos pecados.

Destes quatro tormentos derivam os demais: o frio, o calor, o ranger de dentes (Mt 22,13). Como vês, repreendo os pecadores nesta vida por seus julgamentos falsos e injustiças; se não se corrigem, faço-lhes uma segunda repreensão na hora da morte; pela ausência de esperança e arrependimento, sobrevem-lhes a morte eterna em indizível infelicidade.

Falta-me discorrer sobre a terceira repreensão: o juízo final. Já falei das duas primeiras repreensões; passo a tratar do julgamento geral, quando a alma do condenado sentirá renovar-se o seu tormento, e mesmo aumentar, com a recuperação do corpo. Será um padecimento intolerável, acompanhado de muita confusão e vergonha. Quero que entendas quanto se enganam os pecadores (neste mundo).

Por ocasião do juízo final, o Verbo encarnado virá com divina majestade repreender o mundo. Não mais se apresentará pobrezinho, na forma como nasceu da Virgem numa estrebaria, entre animais, para morrer depois no meio de ladrões. Naquela ocasião, ocultei nele o meu poder e permiti que suportasse penas e dores como homem. A natureza divina se unira à humana e foi enquanto homem que sofreu para reparar vossas culpas. No juízo final, não será assim, pois virá com poder a fim de julgar. As criaturas humanas estremecerão e ele a cada um dará a sentença conforme o merecimento. Tua língua não consegue exprimir o que sucederá aos condenados. Para os bons, Jesus será motivo de temor santo e alegria imensa.

Em si mesmo, meu Filho não terá diferenças, pois sendo Deus é imutável. Ele é uma só coisa comigo. Pela glória da ressurreição, até sua natureza humana não padece mudanças. Mas os condenados não o verão assim. Olhá-lo-ão com vista obscurecida e horrível, como lhes é próprio. O olho doentio, mesmo diante do sol, somente vê escuridão, ao passo que o olho sadio vê apenas luz. Não que o sol, em sua luz, transforme-se diante do cego ou daquele que possui bons olhos. O defeito está na cegueira. O mesmo acontece com os condenados. Verão o ressuscitado em escuridão, na confusão, no ódio. Repito: não por imperfeição da majestade divina, que virá julgar o mundo, mas por causa da própria cegueira.

Grande é o ódio dos condenados, pois já não amam o bem. Blasfemam continuamente contra mim! Queres saber porque já não podem desejar o bem? É porque, no fim desta vida, vincula-se o livre arbítrio. Com o cessar do tempo, já não se merece mais. Quem termina esta existência no pecado mortal, por direito divino fica para sempre apegado ao ódio, obstinado no mal, a roer-se interiormente. Seus sofrimentos irão aumentando sempre, especialmente por causa das demais pessoas que por sua causa irão para a condenação.

Tendes a respeito disto o exemplo do rico epulário (Lc 16,27), que suplicava a Lázaro para que fosse até seus irmãos, no mundo, a fim de adverti-los sobre os futuros castigos. Ele não agia assim por amor e compaixão deles. Não tinha mais a virtude da caridade, nem poderia desejar-lhes o bem, seja querendo honrar-me ou salvar os irmãos. Já te disse (14.3.3) que os condenados ao inferno não podem fazer o bem; eles só blasfemam contra mim, uma vez que suas vidas acabaram no ódio a todo bem. Por que então o rico epulário fala daquela maneira? Porque fora o mais velho dos irmãos e dera-lhes maus exemplos durante a vida; pessoalmente era causa de condenação eterna para eles. Se viessem para sua companhia, teria seus próprios sofrimentos aumentados.

 

14.4 - A felicidade dos santos

Também o homem justo, ao encerrar sua vida terrena no amor, já não poderá progredir na virtude. Para sempre continuará a amar no grau de caridade que atingiu até chegar até mim. Também será julgado na proporção do amor. Continuamente me deseja, continuamente me possui; suas aspirações não caem no vazio. Ao desejar, será saciado; ao saciar-se, sentirá ainda fome; distanciando-se, assim, do fastio da saciedade e do sofrimento da fome. Os bem-aventurados gozam da minha eterna visão. Cada um no seu grau, de acordo com a capacidade em que vieram participar de tudo o que possuo. Por terem vivido no meu amor e no amor dos homens; por terem praticado a caridade em geral e em particular, qual fruto de um único amor desfrutam - na alegria e gozo - dos bens pessoais e comuns que mereceram. Colocados entre os anjos e santos, com eles se rejubilam na proporção do bem praticado na terra. Entre si congraçados na caridade, os bem-aventurados de modo especial comunicam com aqueles que amaram no mundo. Realizam-no naquele mesmo amor que os fez crescer na graça e nas virtudes. Na terra, ajudavam-se uns aos outros; tal amor continua na eternidade. Conservam-no, partilham-no profundamente entre si; com maior intensidade até, associando-se à felicidade geral.

Não penses que a felicidade celeste seja apenas individual. Não! Ela é participada por todos os cidadãos da pátria, homens e anjos. Quando chega alguém à vida eterna, todos sentem a sua felicidade, da mesma forma como ele participa do prazer de todos. Não no sentido que os bem-aventurados progridam ou se enriqueçam, pois todos são perfeitos e não precisam de acréscimos. É uma felicidade, um prazer, um júbilo, uma alegria que se renova interiormente, ao tomarem eles conhecimento da riqueza espiritual do recém-chegado. Todos compreendem que ele foi elevado da terra à plenitude da graça por minha misericórdia; naquele que chegou todos se alegram, gratos pelos dons de mim recebidos. O novo eleito, igualmente, sente-se feliz em mim e nos bem-aventurados, neles contemplando a doçura do meu amor.

Em seus anseios, os eleitos clamam continuamente diante de mim em favor do mundo inteiro. Suas vidas haviam terminado no amor fraterno; continuam no mesmo amor. Aliás, foi exatamente por tal caridade que passaram pela porta, que é meu Filho, conforme explicarei em seguida. Os bem-aventurados continuam no céu, aquele mesmo amor com que encerraram a vida terrena. Conformam-se inteiramente à minha vontade, só desejam o que eu desejo. Chegando ao momento da morte me estado de graça, seu livre arbítrio fixa-se no amor e eles não pecam mais. Suas vontades identificam-se com a minha. Se um pai, uma mãe vêem ou, em sentido contrário, se um filho vê os pais no inferno, não se perturbam. Até se alegram por ver tal pessoa punida, como se fosse inimigo seu. Os bem-aventurados em nada se distanciam de mim. Seus desejos estão saciados. Anseiam em ver-me glorificado por vós, viandantes e peregrinos que sois em direção à morte. Aspirando por minha honra, querem vossa salvação e sempre rogam por vós. Da minha parte, escuto seus pedidos naquilo em que vós, por maldade, não opondes resistência à minha bondade.

Os bem-aventurados desejam recuperar seus corpos; todavia não sofrem por sua ausência. Até se alegram, na certeza de que tal aspiração será realizada. A ausência do corpo não lhes diminui o prazer, não é angustiante, não faz sofrer. Nem julgues que a satisfação de ter o corpo após a ressurreição lhes traga maior bem-aventurança. Se isso fosse verdade, seria sinal de que a felicidade anterior era imperfeita enquanto não o reouvessem, e isto não pode ser. De fato, nenhuma perfeição lhes falta. Não é o corpo que faz feliz a alma, mas o contrário. Quando esta recupera o corpo no dia do juízo, participará ele da plenitude e da perfeição da alma. Naquele dia, ela se fixará para sempre em mim, e o corpo - em tal união - ficará imortal, sutil, leve. Deves saber que o corpo ressuscitado pode atravessar uma parede, que o fogo e a água não o ofendem. Tal propriedade lhe advém, não de uma virtude própria, mas por uma força que gratuitamente concedo à alma, que foi criada à minha imagem e semelhança num inefável ato de amor.

Tua inteligência não dispõe da capacidade necessária para entender, nem os ouvidos para escutar, a língua para narrar e o coração para sentir qual é a felicidade dos santos. Que prazer sentem na minha visão, que satisfação ao recuperar o corpo glorificado! Até o juízo final não o possuem, mas sem sofrimento; suas almas já são perfeitas e o corpo apenas virá participar dessa plenitude.

Estava eu falando da perfeição que o corpo ressuscitado receberá da humanidade glorificada de Jesus, a qual vos dá a certeza da ressurreição! No seu corpo brilham as chagas, sempre vivas; conservam-se as cicatrizes a implorar continuamente perdão para vós a mim, Pai eterno. Os bem-aventurados assemelhar-se-ão a Cristo na alegria e no prazer: os olhos dos santos serão como os do Ressuscitado, as mãos como suas mãos, todo o corpo igual ao seu. Unidos a mim estarão unidos a ele, que é uma só coisa comigo.

Serão felizes os vossos olhos ao ver o corpo ressuscitado de meu Filho. Por quê? Porque a vida dos santos ao encerrar-se no amor, não muda mais; como não podem praticar um bem ulterior, gozam daquilo que trouxeram. Já não fazendo obras meritórias - somente nesta vida é possível merecer ou pecar, segundo o livre parecer da vontade - aguardam o juízo final sem temor. Mas também com alegria. Desse modo, a face de Cristo não lhe será um rosto severo e irado. Morreram no meu amor e no amor do próximo. Quando Cristo vier julgar com majestade divina, não o verão com severidade; tal acontecerá com os que serão condenados. Estes verão o Ressuscitado com rosto severo e justo. Para os santos sua face mostrar-se-á amorosa e cheia de misericórdia.

 

14.5 - A condenação eterna

Ocupei-me da felicidade dos santos, para que entendesses melhor a infelicidade dos condenados ao inferno. Aliás, outro tormento destes últimos é ver quanto os bem-aventurados são felizes. Tal conhecimento acrescenta-lhes a pena, da mesma forma como a condenação dos maus leva os justos a glorificar minha bondade. A luz é mais evidente na escuridão, e a escuridão na luz. Conhecer a alegria dos santos é dor para os réus do inferno.

Os condenados aguardam com temor o dia do juízo final. Sabem que então seus sofrimentos aumentarão. Ao escutar o terrível convite: "Surgite, mortui, venite ad juicium", a alma retornará ao corpo. Para os bem-aventurados será um corpo de glória; para os réus, um corpo para sempre obscurecido. Diante do meu Filho, sentirão grande vergonha. Também diante dos santos. O remorso martirizará a profundidade do seu ser, quero dizer, a alma; mas também o corpo. Acusá-los-ão: o sangue de Cristo, por eles derramado; as obras de misericórdia, espirituais e corporais, do meu Filho; o bem que eles mesmos deveriam ter praticado em benefício dos outros, segundo o evangelho. Terá seu castigo a maldade com que trataram os irmãos, pois eu mesmo, compassivo, perdoara-lhes (Mt 18,33). Serão repreendidos pelo orgulho, egoísmo, impureza, ganância; e tudo isso reavivará seus padecimentos.

No instante da morte, somente a alma é repreendida; no juízo final também o corpo, por ter sido instrumento da alma na prática do bem ou do mal conforme a orientação da vontade. Todo bem e todo mal é feito através do corpo. Por esse motivo, minha filha, os justos terão no corpo glorificado uma luz e um amor infinitos; já os réus do inferno sofrerão pena eterna em seus corpos, usados para o pecado. Ao recuperar o corpo diante de Jesus ressuscitado, os réus sentirão tormento renovado e acrescido: a sensualidade sofrerá na sua impureza vendo a natureza humana unida à divindade, contemplando este barro adâmico - vossa natureza - colocada acima de todos os coros angélicos, enquanto eles, os maus, estarão no mais profundo abismo.

Os condenados verão brilhar sobre os eleitos a liberalidade e a misericórdia, quais frutos do sangue de Cristo; saberão das dificuldades suportadas pelos bons e que agora se mostram em seus corpos como frisos de adorno para as vestes. O valor de tais sofrimentos físicos, não provém do corpo, mas da riqueza da alma; e ela que dá ao corpo o merecimento da luta, como a companheira na prática das virtudes. Tal exteriorização se verifica porque o corpo manifesta o resultado das batalhas da alma, como o espelho reflete a face do homem.

Ao se verem privados de tamanha beleza, os habitantes das trevas verão surgir em seus próprios corpos os sinais dos pecados e terão maiores tormentos e confusão. E ao soar aquela terrível sentença: "Ide, malditos, para o fogo eterno" (Mt 26,41), suas almas e corpos encaminhar-se-ão para a companhia dos demônios, sem mais remédio nem esperança. Cada um a seu modo, se envolverá na podridão em que viveu na terra, de acordo com as ações que praticou: o avarento arderá na sua ganância dos bens que desordenadamente amou; o maldoso, na sua ruindade; o impuro, na imunda e infeliz concupiscência; o injusto, nas suas iniquidades; o rancoroso, no seu ódio pelos outros. Quanto ao egoísmo, fonte de todos os males, arderá como princípio causador de tudo, em sofrimentos insuportáveis. O orgulho terá igual sorte. Assim, corpo e alma serão punidos em todos os vícios.

 

14.6 - Sumário e exortação

É desse modo que chegam ao próprio fim os homens que vão pela estrada inferior, no rio do pecado, sem refletir e reconhecer as próprias culpas, sem implorar o perdão. Nas pegadas do demônio, pai da mentira, entram pela porta do engano e chegam à condenação eterna.

Vós, como filhos meus escolhidos, ide pela estrada de cima, pela ponte; conservai-vos no caminho da Verdade, entrai pela porta verdadeira. Foi o que ensinou meu Filho: "Ninguém vai ao Pai senão por mim". Ele é a porta e o caminho que conduzem a mim, oceano de paz!

  
14.7 - Os pecadores e o fim da vida

Aos homens que caminham pela estrada da mentira resta apenas, qual fruto, a água-morta 50 para onde o demônio os convida. Tendo perdido a iluminação fé, quais cegos e loucos sem entendimento seguiram-no, como se ele dissesse: "Quem tem sede de água-morta, venha a mim, que lha darei".

Sirvo-me do demônio qual instrumento de minha justiça para atormentar os que me ofendem. Nesta vida o coloquei qual tentador, molestando os homens. Não para que estes sejam vencidos, mas para que conquistem a vitória e o prêmio pela comprovação das virtudes 51. Ninguém deve temer as possíveis lutas e tentações do demônio. Fortaleci os homens, dei-lhes energia para a vontade no sangue de Cristo. Demônio ou criatura alguma conseguem dobrar a vontade. Ela vos pertence, é livre. Vós, pelo livre-arbítrio, é que escolheis o que querer ou não querer alguma coisa. A vontade, todavia, pode ser entregue como arma nas mãos do diabo, que pode usá-la para vos ferir e matar. Se a pessoa não lhe dá esta arma, se não consente ante as tentações e lisonjas do maligno, jamais pecará por tentação. Sairá dela até fortalecido e compreenderá que permito as tentações unicamente para vos conduzir ao bem e comprovar vossa virtude.

A caminhada para o bem passa pelo conhecimento de si e de mim. Este duplo conhecimento aumenta no tempo da tentação, no sentido de que o homem toma consciência da própria nulidade, percebe que não consegue evitar as dificuldades indesejáveis, reconhece minha presença a fortalecer sua vontade para não consentir nos maus pensamentos, entende que a tentação é permitida por mim, vê que o demônio é fraco e nada pode além daquilo que lhe é permitido. Aliás, é por amor, não por maldade, que permito as tentações; desejo a vossa vitória, não a derrota. Quero que me conheçais e vos conheçais, atingindo uma virtude provada, pois o bem é comprovado em seu contrário.

Como vês, os demônios são encarregados por mim de atormentar os condenados ao inferno e de provar a virtude nos que se acham nesta existência. Tal não é a intenção dos demônios, pois nada fazem por amor. Desejariam privar-vos da virtude, mas não o conseguem. A menos que o queirais. Vê como é grande a tolice humana, cedendo justamente onde tornei o homem mais forte e consignando-se nas mãos do diabo. Esforça-te por entender: é voluntariamente que os condenados se entregam ao demônio na hora da morte. Disse "voluntariamente", já que ninguém os pode obrigar a isso. Sem aguardar qualquer julgamento, logo depois do último suspiro, os pecadores julgam-se a si mesmos pela própria consciência e se põem sob o perverso domínio do maligno. Desse modo, desesperados, condenam-se. No instante supremo, com muito ódio, encaminham-se para o abismo; e antes mesmo de chegar a ele, voluntariamente o escolhem como paga, junto aos demônios, seus senhores.

Aqueles que morrem na caridade (perfeita), quando atingem o derradeiro instante, após ter vivido na perfeita iluminação da fé 52, na fé e na esperança do sangue do Cordeiro, contemplam o prêmio que lhes preparei; com amor, o acolhem; apertam-me com os laços da afeição, qual Bem sumo e eterno. Antes de deixar o corpo, antes de morrer, já gozam da vida eterna.

Outros, que haviam passado a vida na "caridade comum" 53 e atingem o último momento sem essa perfeição, também acolhem o prêmio eterno com essa fé e esperança, mas de modo imperfeito. Sentem-se culpados, mas reconhecem que minha misericórdia é maior que seus pecados. Os pecadores não agem assim. Ao divisar o lugar que lhes toca, recebem-no com ódio. Uns e outros, nem esperam o julgamento. Logo que deixam esta vida, cada um vai para o seu lugar, pressentido e apreendido antes mesmo de deixar o corpo na morte: os condenados, para o inferno, com ódio e desespero; os perfeitos, com amor, fé e esperança; os imperfeitos, com fé no perdão, vão para o purgatório.

50 - Em analogia com a água-viva de Cristo, Catarina gosta de indicar o pecado como água morta.
51 - Veja-se o parágrafo 2.8.
52 - Veja-se adiante n. 24.3.
53 - Veja-se adiante n. 14.11


  
14.8 - A ilusão do pecado

Eu disse antes (14.7) que os demônios convidam os homens para a água-morta, a única que lhes pertence, cegando-os com prazeres e satisfações do mundo. Usa o anzol do prazer e fisga-os mediante a aparência de bem. Sabe ele que por outros caminhos nada conseguiria; sem o vislumbre de um bem ou satisfação, os homens não se deixariam aprisionar. Por sua própria natureza, a alma humana tende ao bem. Infelizmente, devido à cegueira do egoísmo, o homem não consegue discernir qual é o bem verdadeiro, realmente útil ao corpo e à alma. Percebendo isso, o demônio, maldoso, apresenta-lhe numerosos atrativos maus, disfarçados porém sob alguma utilidade ou prazer. Adapta-se ele às diversas pessoas, variando atitudes e males conforme crê oportuno. De uma forma tenta o leigo, de outra o religioso, o prelado, os chefes; a cada um, conforme a sua posição social.

Falei dessas coisas porque no presente estou ocupando-me dos pecadores que se afogam pelo rio do pecado. São homens egoístas, que só pensam em si mesmos. Amam a si mesmos, ofendem-me. Já disse (14.5) para onde se encaminham; agora quero mostrar-te como se iludem, pois ao tentar fugir dos sofrimentos, em sofrimentos caem. Julgam que o fato de me seguir através da ponte-Cristo seja causa de muita fadiga, por isso voltam atrás com medo dos espinhos. Na realidade tal atitude procede da cegueira e ignorância da Verdade, como te fiz ver no início de tua vida, quando rogavas misericórdia em favor do mundo, desejosa de que eu o libertasse do pecado mortal.

Naquela ocasião, mostrei-me a ti na figura de uma árvore 54. Não vias onde começava, nem onde terminava; somente percebias sua raiz na terra. A "terra" era vossa natureza humana, unida à natureza divina (em Cristo). No tronco da árvore - se ainda recordas - havia alguns espinhos. Evitavam-nos os amantes da própria sensualidade, os quais corriam para um monte de palha, símbolo dos prazeres humanos. A palha assemelhava-se ao trigo. Vias que muitos ali morriam de fome; outros, ao dar-se conta da ilusão, voltavam à árvore, superavam com decisão os espinhos. Essa decisão, antes de ser tomada, parece difícil a quem deseja seguir a estrada da Verdade. Há sempre luta entre a consciência de um lado e a sensualidade do outro. Mas quando a pessoa virilmente renega a si mesma e se decide dizendo: "Quero seguir Cristo crucificado", então ela quebra aqueles espinhos e descobre inestimável doçura. Foi o que te fiz ver aquela vez. A doçura será maior ou menor, conforme a boa disposição e o esforço pessoal. Então eu te disse: "Sou o Deus imutável; não me escondo de quem me procura". Embora sendo invisível, mostrei-me visível aos homens em Cristo. Fiz ver o que é amar algo fora de mim. Infelizmente os homens, cegos pela fumaça do egoísmo, não me conhecem, não se conhecem. Vê como se iludem: preferem morrer de fome do que superar um pequeno espinho. Mas não ficarão sem dificuldades. Nesta vida, ninguém vive sem cruz. A não ser aqueles que caminham pela estrada superior; eles também sofrem, mas sua dor não aflige. Pelo pecado, como disse acima, o mundo produziu dificuldades e dores, bem como nasceu o rio do pecado, esse mar tempestuoso; mas para vós eu construí uma ponte, de modo que não vos afogueis.

54 - A visão é narrada por Catarina (Libellus de Suplemento,I, 5); ter-se-ia verificado em 1362, no dia em que Catarina entrou para a Ordem da Penitência de São Domingos.

 

14.9 - Infelicidade dos pecadores

Expliquei qual é a ilusão dos pecadores no seu desordenado temor e como sou um Deus imutável, livre da acepção de pessoas, unicamente atento ao desejo santo. Foi o que te revelei no simbolismo da árvore. Passo a falar dos que sofrem e dos que não sofrem ante os espinhos e dores que a terra produziu depois do pecado (original). Tendo-me ocupado da situação dos pecadores que se deixam iludir pela própria sensualidade, vou explicar-te em que sentido essas pessoas são feridas por tais espinhos.

Todos os que nascem e vivem neste mundo passam por fadigas corporais e espirituais. Sim, também os meus servidores padecem nos seus corpos; mas em seus espíritos não, porque suas vontades estão identificadas com a minha. O que faz o homem sofrer é a vontade. Quanto aos pecadores, sofrem na alma e no corpo. Eles experimentam no mundo as primícias do Inferno, como os meus servidores já gozam a garantia do Céu.

Sabes qual é a grande felicidade dos santos? É possuir a vontade satisfeita em todas as suas aspirações. Ao desejar-me, possuem-me, tendo deixado o peso do corpo que produzia a lei que luta contra o espírito. Na vida terrena, o corpo impedia o perfeito conhecimento da Verdade e minha visão face a face. Separando-se do corpo, a vontade dos bem-aventurados realiza-se: ao desejo de ver-me corresponde a visão, e com ela, a beatitude. Vendo, conhecem-me; conhecendo, amam-me; amando, saboreiam-me; saboreando, realizam-se quanto ao desejo de me ver e conhecer. Desejando, possuem; possuindo, desejam. Como disse (14.4), o sofrimento está distante do desejo e fastio da saciedade. Como vês, meus servidores são felizes, especialmente na visão celeste. Ela satisfaz seus desejos, sacia suas vontades. Neste sentido afirmei (14.9) que a vida eterna consiste na posse das coisas que a vontade deseja, isto é, conhecer-me, ver-me.

Já a partir desta vida meus servidores gozam da eternidade, ao saborearem a causa de sua felicidade. E qual é tal causa? Respondo: é a certeza da minha presença em suas vidas, é o conhecimento da minha Verdade. Tal conhecimento se realiza na inteligência, que é o olho da alma; pupila de tal olho é a fé. Pela iluminação da fé, eles distinguem, conhecem e seguem a estrada-mensagem do Verbo encarnado. Sem a fé, ninguém reconhece tal estrada, à semelhança daquele que possuísse o olho, mas coberto por um pano. Sim, a pupila deste olho é a fé; nada verá quem cobrir sua inteligência com o pano da infelicidade, por causa do egoísmo. Tal pessoa terá a inteligência, mas não a luz para conhecer.

Portanto, tais pessoas vendo, conhecem; conhecendo, amam; amando, afogam e destroem a vontade própria; tendo-a destruído, revestem-se da minha vontade, a qual deseja unicamente a vossa santificação (1 Ts 4,3). Com isso, deixam o rio do pecado, sobem para a ponte, superam os espinhos que já não lhes machucam os és do amor. Já se conformaram à minha vontade. Neste sentido, como disse acima, meus servidores não padecem no espírito, mas somente no corpo. O querer sensível já morreu, ele que é a fonte de sofrimento e dor para o homem. Destruída essa "vontade" sensível, o sofrimento desaparece e meus servidores tudo passam a tolerar com respeito. Consideram como graça as dificuldades que permito, só desejam o que eu desejo. Quando deixo que os demônios os atormentem com tentações para provar suas virtudes, como expliquei antes, eles as superam com a intervenção da vontade, por mim fortalecida. Humilham-se, consideram-se indignos de sossego e merecedores de castigo. Vivem, pois, na alegria, sem sofrer. Nas perseguições e adversidades provenientes dos homens, na pobreza ou rebaixamento social, na morte de filhos e pessoas amadas - espinhos produzidos pela terra depois do pecado de Adão - meus servidores tudo suportam com discernimento e fé. Confiam em mim, Bondade suprema, certos de que somente quero o bem e para o seu bem tudo permito com amor.

Após fixar o pensamento em mim, eles olham para si mesmos e reconhecem os próprios defeitos; na fé, sabem que toda virtude será premiada e todo mal punido. Entendem que a menor culpa merece castigo eterno, porque atenta contra minha bondade infinita. Com gratidão porque aceito de puni-los nesta vida passageira, dão reparação às suas culpas mediante a contrição interior. Obtêm méritos com a perfeita paciência. Tais esforços terão a paga de um prêmio sem medida.

Eles sabem que, devido à transitoriedade do tempo, são de pouca monta os sofrimentos desta vida. O tempo é como a ponta de uma agulha, nada mais. Acabado o tempo, também a dor cessa. Como vês, é passageira a dor. Pacientemente, e sem prejuízo interior, esses homens superam os acontecimentos adversos. Seus corações estão livres do amor sensível e unidos a mim na caridade. Realmente, já possuem no mundo a garantia do céu: na água, não se molham; sobre espinhos, não se ferem. Tendo-me conhecido, procuram o bem supremo onde de fato ele está, ou seja, no Verbo, meu Filho.


  
14.10 - A fé morta dos pecadores

Disse tais coisas, para que saibas melhor como os pecadores, pela acenada ilusão (14.8), vivem na certeza do inferno. Agora explico a origem de tal ilusão: a falta de fé proveniente do egoísmo.

Da mesma maneira como a Verdade é conhecida na luz da fé, assim a mentira e a ilusão brotam da falta de fé. Falo da falta de fé dos batizados, pois no batismo ela lhes foi dada. Ao chegar à idade da razão, os batizados que escolhem a vida virtuosa conservam a luz da fé e praticam o bem em benefício dos outros; comportam-se como a mulher que gera um filho e o entrega vivo ao marido (v. 2.10). Fazem o mesmo para comigo, esposo da alma, oferecendo-me virtudes vivas na caridade.

Diverso é o comportamento dos pecadores. Ao atingirem a idade da razão, não exercitam a fé, nem praticam o bem na vida da graça, mas geram obras mortas. Suas ações, praticadas em estado de pecado, sem a iluminação da fé, são obras mortas. Do batismo conservam só a recordação, não a graça. O olhar da fé se obscurece pelo egoísmo e já não podem ver. Deles se diz que possuem a fé, não as obras (Tg 2,26). Com a fé morta e encoberta pelo modo dito acima (14.9), eles não reconhecem o próprio nada, ignoram os seus defeitos, esquecem-se dos benefícios meus, pois de mim receberam o ser e as demais perfeições. Ignorantes de mim e de si, ao invés de odiar, eles amam a sensualidade, realizam suas tendências, cometem muitos pecados mortais. Não me amam, nem amam o próximo a quem quero bem. Não procuram fazer o que me agrada, isto é, não praticam as virtudes verdadeiras e reais. Gosto de ver em vós tais virtudes. Não por interesse, dado que vós não me podeis ser de utilidade. Sou aquele que sou (Ex 3,14). Nada existe sem mim, com exceção do pecado, que é privação. O pecado priva o homem de mim, sumo Bem, ao tirar-lhe a graça. Para interesse vosso agradam-me as virtudes. Possuindo-as, terei modo de vos premiar em mim mesmo, vida duradoura que sou.

Como vês, a fé dos pecadores é uma fé morta. Não possuem as obras, e as que possuem não merecem a vida eterna, devido à ausência da caridade. Assim mesmo, eles devem praticar o bem, com ou sem a graça. Toda obra boa é remunerada, como todo mal terá seu prêmio. Quando praticada no estado de graça, a boa obra merece o céu; quando feita em pecado, embora sem merecimento, terá sua paga de várias maneiras: umas vezes, concedo vida mais longa ou inspiro a meus servidores contínuas orações em favor, com o qual tais pessoas se convertem, outras vezes, em lugar de vida mais longa e das orações, concedo bens materiais. Neste caso, os pecadores são como animais de engorda para o matadouro. Esses homens que sempre resistem à minha bondade, fazem, no entanto, algum bem, mesmo em seu estado de pecado. Se recusam converter-se através dos meios acima citados, com que os chamo - vida mais longa, preces - recompenso o pouco de bem que fazem; dou-lhes bens temporais, com os quais "engordam". Não havendo mesmo conversão, vão para o suplício eterno.

 

14.11 - Os pecadores e as riquezas

Enganam-se, pois, os pecadores. Ao se privarem da luz da fé, tornam-se cegos e caminham tateando, agarrando-se a tudo que encontram. Com o olhar obscurecido, afeiçoam-se aos bens materiais e passageiros, iludem-se como tolos que vêem o ouro e não o veneno.

Deves saber que as realidades materiais, com seus prazeres e deleites, quando conseguidas e conservadas sem mim, só por egoísmo desordenado, não passam de escorpiões enganadores. Na tua juventude, depois da visão da árvore (14.8), eu te fiz ver escorpiões com cabeça de ouro e cauda de veneno. O ouro e o veneno confundiam-se, mas o aspecto que primeiro se via era do ouro. Apenas conseguiam escapar do veneno aqueles que estavam iluminados pela fé. Como te disse naquela ocasião, tais pessoas eram as que eliminavam o veneno da própria sensualidade. Os que preferiam possuir bens materiais, eram os que usavam sua inteligência na aquisição, posse e uso do "ouro" deste mundo. As almas desejosas de grande perfeição, desprezavam o ouro, afetiva e efetivamente.

Como te afirmei aquela vez, estes últimos são os que seguem os conselhos (evangélicos) quanto ao desejo e quanto à prática, conforme o legado de Cristo. Outros, na posse de bens, seguem os conselhos somente pelo desejo, não na vida prática. Como os conselhos estão ligados aos mandamentos, ninguém vive estes últimos se não segue os conselhos, senão efetivamente, pelo menos quanto ao desejo. Em outras palavras, o cristão que possui bens, deve fazê-lo na humildade, sem orgulho, como coisa emprestada, não própria. Dou-vos os bens para o uso. Tanto possuís, quanto concedo; tanto conservais, quanto permito; e tanto permito, quanto julgo útil à vossa salvação. Tal há de ser a vossa atitude quanto ao uso dos bens materiais. Assim fazendo, o cristão obedece aos mandamentos - amando-me sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo - e conserva o coração desapegado das riquezas, afetivamente, como nada possuindo. Não se apega aos bens, não os possui em oposição aos meus desígnios. Possui externamente, ao passo que seu íntimo é pobre. Tais pessoas, como disse (14.11), eliminam o veneno do egoísmo. São os cristãos da "caridade comum".

Os cristãos da "caridade perfeita" já obedecem aos mandamentos e seguem os conselhos afetiva e efetivamente. Com simplicidade, praticam quanto o meu Filho aconselhou na passagem do jovem rico (Mt 19,16ss). Quando este lhe perguntou: "Que poderia eu fazer, Mestre, para alcançar a vida eterna?", Ele respondeu: "Observa os mandamentos da lei". Então o jovem prosseguiu: "Eu já os observo". Jesus retomou: "Bem, se tu queres ser perfeito, vai, vende o que tens e dá-o aos pobres". O jovem ficou triste, porque amava exageradamente os bens que possuía. Os perfeitos não se comportam assim, ou seja, após ter praticado os mandamentos, deixam o mundo com seus prazeres, mortificam o corpo com penitência, fazem vigílias e preces contínuas e humildes.

Os cristãos da "caridade comum", embora possuam bens, vão também eles para o céu. Não são obrigados a possuir; se querem tê-los, devem comportar-se na maneira explicada. Não é pecado ter bens. Todas as coisas são boas e foram criadas por mim para utilidade dos homens. Mas tais cristãos não devem virar escravos dos prazeres sensíveis. Se querem ter posses, façam-no; mas como dominadores delas, não como dominados. O afeto do coração deve estar em mim, não nas coisas externas; elas não pertencem aos homens, são dadas em empréstimo. Não tenho preferências por pessoas ou posições sociais; somente pelos desejos do coração. Todo homem, qualquer que seja sua condição social, tem possibilidade de agradar-me, caso possua uma vontade reta e santa.

Quem possui bens materiais dessa forma? Os que anularam o "veneno" das riquezas, desprezando a sensualidade e amando a virtude. Quem afastar de si o apego desregrado e se orientar para mim na caridade e no santo temor, tal pessoa poderá escolher o estado de vida que quiser. Em qualquer um deles alcançará a vida eterna. Suponhamos que seja mais perfeito e agradável a mim que o homem viva interior e exteriormente despojado dos bens materiais. Se uma pessoa não sentir a coragem de abraçar tal perfeição devido a alguma fraqueza pessoal, que permaneça na "caridade comum" qualquer que seja seu estado de vida. Em minha bondade dispus que assim fosse, para que nenhuma pessoa viesse a desculpar-se por pecados cometidos em determinadas situações. Ninguém poderá dar desculpas. Sou condescendente com as tendências e fraquezas humanas. Se as pessoas desejam viver no mundo, possuir bens, ocupar altas posições sociais, casar-se, ter filhos, trabalhar por eles, façam-no. É lícito viver em qualquer posição social; contanto que se evite o veneno da sensualidade, o qual pode conduzir à morte perpétua. Não sendo "vomitada" 55 e medicada qual veneno, a sensualidade prejudica e mata. É ela o "escorpião" do amor mundano (v. 14.11). Os bens materiais, como disse antes, são bons em si mesmos; foram criados por mim, Bondade infinita. Os homens hão de usá-los como lhes aprouver, mas no temor e no amor autênticos. O perigo está na vontade pervertida do homem. É ela que envenena e mata a alma, quando não se purifica pela penitência e caridade. Embora pareça um remédio amargo, a confissão é eficaz para curar o veneno da sensualidade.

Vê onde está o engano dos pecadores; sendo-lhes possível possuir-me, fugir da angústia, viver alegres e consolados, preferem o mal de um bem aparente, correm atrás do "ouro" (v. 14.11) com desordenado amor. Cegos em grande infidelidade, não percebem a ilusão. Envenenam-se, sem medicar-se. Carregam-se com a cruz do diabo e vivem na certeza do inferno.

55 - A palavra "vomitar" quer indicar a acusação dos pecados mortais no sacramento da penitência. Veja-se 14.14.

 

14.12 - Os pecadores sofrem

Expliquei antes que é a vontade que faz o homem sofrer (14.9). Meus servidores não sofrem, porque se despojaram da vontade própria e se revestiram da minha. Eles vivem contentes, sentem minha presença em suas almas. Mesmo que possuíssem o mundo inteiro, não seriam felizes se eu estivesse ausente. As realidades terrenas são menores que o homem, para ele foram criadas, não vice-versa. Por tal motivo os bens materiais não satisfazem; somente eu sou capaz de saciar o homem. Já os infelizes pecadores, como cegos, afadigam-se continuamente, à procura de uma felicidade fora de mim. E sofrem.

Queres saber como sofrem? Quando alguém perde algo, com o que se identificara, seu apego faz sofrer. É o que acontece  com os pecadores, identificados por vários modos com os bens materiais. Eles se materializam. Uns identificam-se com a riqueza, outros com a posição social, outros com os filhos; uns se afastam de mim por apego a uma pessoa; outros transformam o próprio corpo em animal imundo e impuro. Todos eles assim se nutrem de bens terrenos. Gostariam que tais realidades fossem duradouras, mas não o são. São perdidas por ocasião de mortes ou de outros acontecimentos por mim dispostos. Diante de tal perda, os pecadores entram em sofrimento atroz, pois a dor da separação se compara à desordenada afeição a posse.

Se os pecadores usassem os bens materiais enquanto emprestados, sem nenhum sofrimento os perderiam. Angustiam-se, por não mais ter o que amavam. O mundo não dá a felicidade total; não se sentindo inteiramente saciados, os pecadores sofrem. Quanta ilusão produz, por exemplo, o remorso; como se martiriza quem deseja vingar-se! O homem desejoso de vingança se corrói e morre antes mesmo de matar o inimigo. O primeiro morto é ele mesmo. Mata-se com o punhal do ódio. Quantos padecimentos no ganancioso, que multiplica ao extremo suas necessidades. E o invejoso, a morder-se no próprio coração; jamais se alegra com a felicidade alheia, angustia-se por falsos temores em tudo quanto se apega. Todos estes carregam-se com a cruz do diabo e experimentam nesta vida a certeza da condenação. Vivem diversamente doentes e, se não se corrigirem, vão depois para a morte eterna.    

São homens feridos pelos espinhos das contradições, a torturarem-se interna e externamente. E por cima, sem merecimento algum! Sofrem na alma e no corpo, nada merecem; é sem paciência que padecem esses males. Vivem revoltados, apegando-se aos bens materiais com desordenado amor. Não possuem a graça e a caridade, são árvores mortas (v. 14.2) que produzem frutos mortíferos. Vão se afogando na dor pelo rio do pecado; cheios de ódio entram pela porta do diabo; atingem as águas mortas e chegam à condenação!

 

14.13 - Sumário

Compreendes assim como se iludem os pecadores (14.11) e com que sofrimentos caminharam para a condenação, quais "mártires" do diabo (14.12). Entendeste qual é a nuvem que os cega, vale dizer, o egoísmo, aquele "pano" que lhes encobre a luz do entendimento, a fé. Venham de onde vierem, as adversidades são instrumentos meus que fazem meus servidores padecerem no corpo; perseguidos pelo mundo, nada sofrem no espírito. Identificaram-se com a minha vontade e até se alegram em tolerar males por mim. Quanto aos pecadores, como disse, sofrem externa e internamente. Sobretudo internamente! Seja pelo medo de perder quanto amam, seja por desejar o que não conseguem adquirir. Relativamente às consequências derivadas destas atitudes, tua linguagem não é apta a descrevê-las.

Como vês, os justos vivem melhor que os pecadores, mesmo aqui na terra! E desse modo tens um quadro geral de como e para onde vão os pecadores.

 

14.14 - Caminhos da conversão

Passo a falar-te agora dos pecadores que, forçados pelos sofrimentos da vida e medo dos castigos futuros, procuram livrar-se do egoísmo. Envio-lhes contrariedades, para que compreendam que esta vida não constitui a meta final, que as realidades terrenas são imperfeitas e passageiras, que eu sou o fim último. Por medo da punição, tais pessoas saem do rio do pecado, "vomitando" (na confissão) o "veneno" que o "escorpião" neles injetara em forma de "ouro". Haviam sido iludidos, mas ao perceber o engano, aos poucos elas se erguem e, dirigindo-se para a margem, agarram-se à ponte.

Mas o temor servil (medo de castigos), sozinhos, não é suficiente para fazer o pecador progredir, limpar sua casa e afastar-se dos pecados mortais. É preciso encher a alma de virtudes, sob o alicerce da caridade. Por si mesmo o temor servil não dá a vida (da graça); o pecador há de coloca-lo no primeiro degrau da ponte (v. 12.1) os dois pés do amor 58 que conduzem até Cristo. É o primeiro degrau da escada do seu corpo. Tal é o primeiro acordar dos escravos do pecado que se convertem: o medo dos castigos! Muitas vezes, os próprios sofrimentos causados pela vida pecaminosa produzem tédio e repulsa. Quando o temor servil é acompanhado pela iluminação da fé, os pecadores passam do mal para o bem. Infelizmente, muitos deles passam a viver em tal tibieza que com facilidade retrocedem, após ter atingido as margens do rio do pecado; ventos contrários obrigam-nos a retornar às ondas no caudal tenebroso do pecado.

Umas vezes, é o vento da prosperidade. Sem ter atingido o primeiro degrau por negligência, ainda sem amor à virtude, o homem retorna aos prazeres desordenados. Outras vezes, é o vento da adversidade. Então, retrocedem por impaciência. Tendo deixado o pecado só por medo das penas e não porque se trata de uma ofensa contra mim, retorna a ele. Em matéria de virtudes, necessita-se da perseverança. Quem não persevera, jamais realiza seus desejos, levando a termo o que começou. Sem perseverança, nada se faz; a força de vontade no cumprimento de um ideal supõe esta virtude.

Disse antes que os pecadores retornam ao pecado pressionados por diversos fatores. Dentro de si mesmos, por causa da sensualidade, que combate contra o espírito; a partir das criaturas, enquanto se apegam a elas com desordenada atenção e se impacientam diante das ofensas; enfim, por tentações do demônio, em combates variados e numerosos. Neste último caso, às vezes o maligno as despreza, dizendo para confundir: "A obra que começaste para nada serve por causa dos teus pecados". A intenção do diabo é fazer com que volte atrás, abandonando o pouco que já fez. Outras vezes ele procura agradar, insistindo na esperança do meu perdão: "Por que cansas? Goza a vida! No fim, arrepender-te-ás e serás perdoado". Com isto ele quer que o homem perca o medo inicial do castigo.

Devido a esses e muitos outros motivos, os convertidos desanimam, não são constantes, não perseveram. Retrocedem antes de arrancar as raízes do egoísmo; por presunção, erroneamente, firmam-se na esperança de serem perdoados, continuam a ofender-me. Pensam poder contar com a misericórdia. Jamais ofereci ou ofereço minha misericórdia para que me ofendam. A finalidade do meu perdão é que, pela misericórdia, os pecadores se defendam do demônio e da confusão de espírito. Agem diversamente! Ofendem-me porque sou bom! Prova de que não houve a primeira conversão, ao se deixar o pecado por medo de castigos e sob o influxo dos sofrimentos. Faltando a conversão, o pecador não chega ao amor das virtudes, não persevera. A mudança (de vida) é indispensável. Quem não progride, volta atrás. Assim os pecadores, se não progridem na virtude, passando do medo ao amor, inevitavelmente retornam ao rio do pecado.

 

 

( Continua na parte 15 )

 








Postado por: James - www.espacojames.com.br em: 24/11/14 às 20:57:24 h.


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