Preparação para a Renovação da Consagração a Jesus por Maria - Resumo (Cláudio / Salvai Almas ),
 
 
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Para quem vai fazer a renovação da Consagração a Jesus por Maria, em Maio, deve se preparar executando, as seguintes tarefas:

1) Leitura meditada do Resumo da Consagração (Leia aqui ). Este resumo deverá ser lido pelo menos duas vezes. Não é necessário ler o Livro do Tratado.
2) Dentro do possível, confissão semanal e Santa Missa diária, com Eucaristia.
3) Oração diária do Rosário ou pelo menos do Santo Terço.
4) Reza diária do Ofício do Imaculado Coração de Maria
5) Outras obras de piedade à livre escolha.

Cláudio


Prof. Edmundo Vegini


Florianópolis - Fevereiro de 2011


Preparação à Consagração Total a Jesus por Maria, Segundo o método da Verdadeira Devoção a Nossa Senhora de São Luiz Maria Grignion de Monfort [1]

Introdução

Cresce cada vez mais, o número de pessoas que se consagram a Nossa Senhora porque vêem nesta prática de devoção um meio eficaz de chegar até Jesus, nossso Deus e Salvador. Uma das consagrações que considero mais completa, profunda e compromissada é a Consagração como Escravo de Maria Santíssima, segundo o método de São Luiz Maria Grignion de Monfort. Ela nos leva a nos entregarmos confiantemente às mãos de Nossa Mãe Santíssima, juntamente com todas as nossas ações, orações, sacrifícios e méritos para que Ela disponha de nós e de tudo, como Rainha e Mãe. É uma eficaz maneira de nos desapegarmos dos bens terrenos e de aspirarmos cada vez mais aos bens do céu.

Os que passaram por esta experiência são unânimes em afirmar que após a Consagração como escravos de Jesus Verbo Encarnado, pelas mãos de Nossa Senhora, se sentiram maravilhosamente inundados pela graça de Deus e se fortaleceram diante das tentações. Por que, então, não levar tão admirável meio de perfeição e santidade ao conhecimento da comunidade, para que cresça, se fortaleça e inicie uma verdadeira conversão da alma, neste momento decisivo para a história da Igreja?

A fórmula da “Consagração total a Jesus por Maria” de São Luiz Maria Grignion de Monfort não deve ser tomada rapidamente. Isto fica provado pelo fato do mesmo Santo advogar uma séria preparação que consiste em doze dias preliminares para a alma se esvasiar do espírito do mundo, que é totalmente oposto do Espírito de Jesus Cristo. A estes doze dias seguirão três semanas de oração e meditação, durante as quais a alma buscará um melhor conhecimento de si mesma, na primeira semana; de Maria, na segunda semana e de Jesus Cristo, na terceira semana.

O primeiro passo para se atingir o momento da preparação imediata à Consagração consiste na leitura do livro de São Luiz Maria Grignion de Monfort: Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem, aqui citado na 38º edição da Editora Vozes. O próprio santo pede para que seja lido três vezes, a fim de se compreender mais profundamente o significado do ato a ser tomado. Ler pelo menos, uma vez a íntegra do livro e depois se pode utilizar o presente resumo.


RESUMO DO TRATADO DA VERDADEIRA DEVOÇÃO À VIRGEM SANTÍSSIMA de São Luis Maria Grignion de Monfort.

Princípios

Primeiro Princípio – Deus quis servir-se de Maria na Encarnação.

16. Deus Pai só deu ao mundo seu Unigênito por Maria. Suspiraram os patriarcas, e pedidos insistentes fizeram os profetas e os santos da lei antiga, durante quatro milênios, mas só Maria o mereceu, e alcançou graça diante de Deus, pela força de Suas orações e pela sublimidade de Suas virtudes. Porque o mundo era indigno, diz Santo Agostinho, de receber o Filho de Deus diretamente das mãos do Pai, Ele o deu a Maria a fim de que o mundo o recebesse por meio dEla. Em Maria e por Maria é que o Filho de Deus se fez homem para nossa salvação. Deus Espírito Santo formou Jesus Cristo em Maria, mas só depois de Lhe ter pedido consentimento por intermédio de um dos primeiros ministros da corte celestial.

17. Deus Pai transmitiu a Maria Sua fecundidade, na medida em que a podia receber uma simples criatura, para que Ela pudesse produzir o Seu Filho e todos os membros de Seu Corpo Místico.

18. Deus Filho desceu ao Seu Seio Virginal, qual novo Adão no paraíso terrestre, para aí ter suas complacências e operar em segredo, maravilhas de graça. Deus, feito homem, encontrou Sua liberdade em se ver aprisionado no Seio da Virgem Mãe; patenteou a Sua força em se deixar levar por esta Virgem Santa; achou Sua glória e a de Seu Pai, escondendo Seus esplendores a todas as criaturas deste mundo, para revelá-las somente a Maria; glorificou Sua independência e majestade, dependendo desta Virgem amável, em Sua conceição, em Seu nascimento, em Sua apresentação no templo, em Seus trinta anos de vida oculta, até à morte, a que Ela devia assistir, para fazerem ambos um mesmo sacrifício e para que Ele fosse imolado ao Pai eterno com o consentimento de Sua Mãe, como outrora Isaac, com o consentimento de Abraão à vontade de Deus. Foi Ela quem o amamentou, nutriu, sustentou, criou e sacrificou por nós.

Segundo Princípio. – Deus quer servir-Se de Maria na santificação das almas

22. A conduta das três pessoas da Santíssima Trindade na Encarnação e primeira vinda de Jesus Cristo, é a mesma de todos os dias, de um modo visível na Igreja e esse procedimento há de perdurar até à consumação dos séculos, na última vinda de Cristo.

23. Deus Pai ajuntou todas as águas e denominou-as mar; reuniu todas as graças e chamou-as Maria. Este grande Deus tem um tesouro, um depósito riquíssimo, onde encerrou tudo que há de belo, brilhante, raro e precioso, até Seu próprio Filho; e este tesouro imenso é Maria, que os Anjos chamam o Tesouro do Senhor, e de cuja plenitude os homens se enriquecem.

24. Deus Filho comunicou á sua Mãe tudo que adquiriu por Sua vida e morte: Seus méritos infinitos e Suas virtudes admiráveis. Fê-La Tesoureira de tudo que Seu Pai Lhe deu em herança; é por Ela que Ele aplica Seus méritos aos membros do Corpo Místico, que comunica Suas virtudes e distribui Suas graças; é Ela o Canal Misterioso, o Aqueduto, pelo qual passam abundante e docemente Suas misericórdias.

25. Deus Espírito Santo comunicou a Maria, Sua Fiel Esposa, Seus dons inefáveis, escolhendo-A para dispensadora de tudo que Ele possui. Deste modo Ela distribui Seus dons e Suas graças a quem quer, quanto quer, como quer e quando quer, e dom nenhum é concedido aos homens, que não passe por Suas mãos virginais. Tal é a vontade de Deus, que tudo tenhamos por Maria e assim será enriquecida, elevada e honrada pelo Altíssimo, Aquela que, em toda a vida, quis ser pobre, humilde e escondida até ao nada. Eis a opinião da Igreja e dos Santos Padres.

27. Pois que a graça aperfeiçoa a natureza e a glória aperfeiçoa a graça, é certo que Nosso Senhor continua a ser no céu, tão Filho de Maria, como O foi na terra. Por conseguinte, Ele conserva a submissão e obediência do mais perfeito dos filhos para com a melhor das Mães. Cuidemos, porém, de não atribuir a essa dependência o menor abaixamento ou imperfeição em Jesus Cristo. Maria está infinitamente abaixo de Seu Filho, que é Deus e, portanto, não Lhe dá ordens, como uma mãe terrestre as dá a seu filho. Maria, porque está toda transformada em Deus pela graça e pela glória que, em Deus, transforma todos os santos, não pede, não quer, não faz a menor coisa contrária à eterna e imutável vontade de Deus. Se Moisés, pela força de sua oração, conseguiu sustar a cólera de Deus contra os israelitas, e de tal modo que o Altíssimo e infinitamente misericordioso Senhor, lhe disse que o deixasse encolerizar-se e punir aquele povo rebelde, que devemos pensar, com muito mais razão, da prece da humilde Maria, a digna Mãe de Deus, que tem mais poder junto da Majestade Divina, que as preces e intercessões de todos os Anjos e Santos do céu e da terra?

28. No céu, Maria dá ordens aos Anjos e aos Bem-aventurados. Para recompensar Sua profunda humildade, Deus Lhe deu o poder e a missão de povoar de santos os tronos vazios, que os anjos apóstatas abandonaram e perderam por orgulho. E a vontade do Altíssimo, que exalta os humildes (Lc 1, 52), é que o céu, a terra e o inferno se curvem, de bom ou mau grado, às ordens da humilde Maria, pois, Ele A fez Soberana do céu e da terra, General de Seus exércitos, Tesoureira de Suas riquezas, Dispensadora de Suas graças, Artífice de Suas grandes maravilhas, Reparadora do gênero humano, Mediadora para os homens, Exterminadora dos inimigos de Deus e Fiel Companheira de Suas grandezas e de Seus triunfos.

29. Por meio de Maria, Deus Pai quer que aumente sempre o número de Seus filhos, até a consumação dos séculos, e diz-lhes estas palavras: habita em Jacob (Ecli 24, 13), isto é, faze tua morada e residência em Meus filhos e predestinados, figurados por Jacó e não nos filhos do demônio e nos réprobos, que Esaú figura.

30. Assim como na geração natural e corporal há um pai e uma mãe, há, na geração sobrenatural, um Pai que é Deus e uma Mãe, Maria Santíssima. Todos os verdadeiros filhos de Deus e os predestinados têm Deus por Pai, e Maria por Mãe; e quem não tem Maria por Mãe, não tem Deus por Pai.

31. O desejo de Deus Filho é formar-se e, por assim dizer, encarnar-se todos os dias, por meio de Sua Mãe, em Seus membros. Ele lhe diz: “possui tua herança em Israel” (Ecli 24, 13), como se dissesse: Deus, Meu Pai, deu-Me por herança, todas as nações da terra, todos os homens bons e maus, predestinados e réprobos. Eu os conduzirei, uns com a vara de ouro, outros com a vara de ferro; serei o Pai e Advogado de uns, o Justo Vingador para outros, o Juiz de todos; mas Vós, Minha querida Mãe, só tereis por herança e possessão os predestinados, figurados por Israel. Como sua Boa Mãe Vós lhes dareis a vida, os nutrireis, educareis; e como sua Soberana, os conduzireis, governareis e defendereis.

34. É vontade de Deus Espírito Santo que nEla e por Ela se formem os eleitos. (Ecli 24, 12), Lhe diz Ele: Minha Bem-Amada e Minha Esposa, lança em Meus eleitos as raízes de todas as virtudes, a fim de que eles cresçam de virtude em virtude e de graça em graça. Tive tanta complacência em Ti, quando vivias na terra, praticando as mais sublimes virtudes, que desejo ainda encontrar-Te sobre a terra sem que deixes de estar no céu. Reproduze-Te, portanto, em Meus eleitos. Que Eu veja neles com complacência as raízes de Tua fé invencível, de Tua humildade profunda, de Tua mortificação universal, de Tua oração sublime, de Tua caridade ardente, de Tua firmíssima esperança e de todas as Tuas virtudes. É sempre a Minha Esposa tão fiel, tão pura e tão fecunda como nunca: que Tua fé Me dê fiéis, que Tua pureza me dê virgens, que Tua fecundidade me dê eleitos e templos. Maria produziu, com o Espírito Santo, a maior maravilha que existiu e existirá – um Deus-homem; Ela produzirá, por conseguinte, as coisas mais admiráveis que hão de existir nos últimos tempos. A formação e educação dos grandes santos que aparecerão no fim do mundo Lhe está reservada, pois só esta Virgem Singular e Milagrosa pode produzir, em união com o Espírito Santo, as obras singulares e extraordinárias.

36. Quando o Espírito Santo, Seu Esposo, A encontra numa alma, Ele se apodera dessa alma, penetra-a com toda a plenitude, comunicando-lhe abundantemente e na medida que Lhe concede Sua Esposa; e uma das razões por que, hoje em dia, o Espírito Santo não opera, nas almas, maravilhas retumbantes, é não encontrar Ele uma união bastante forte entre as almas e Sua Esposa fiel e inseparável. Digo Esposa inseparável porque, depois que este Amor substancial do Pai e do Filho desposou Maria para produzir Jesus Cristo, o chefe dos eleitos, e Jesus Cristo nos eleitos, nunca A repudiou, pois Ela tem sido sempre fiel e fecunda.

Conseqüências:

Primeira conseqüência. – Maria é a Rainha dos corações

37. Primeiro, Maria recebeu de Deus um grande domínio sobre as almas dos eleitos; pois Ela não pode estabelecer neles Sua residência, como Deus Pai Lhe ordenou; não pode formá-los, nutri-los, fazê-los nascer para a vida eterna, como Sua Mãe, possuí-los como Sua herança e partilha, formá-los em Jesus Cristo e Jesus Cristo neles; não pode implantar em seus corações as raízes de Suas virtudes e ser a companheira inseparável do Espírito Santo em todo os Seus trabalhos de graça; não pode, repito, fazer todas estas coisas, se não tiver direito e domínio sobre suas almas, por uma graça singular do Altíssimo. E esta graça, que lhe deu autoridade sobre o Filho único e natural de Deus, Lhe foi concedida também sobre Seus filhos adotivos, não só quanto ao corpo, o que seria pouco, mas também quanto à alma.

38. Maria é a Rainha do céu e da terra, pela graça, como Jesus é o Rei por natureza e conquista. Ora, como o Reino de Jesus Cristo compreende principalmente o coração ou o interior do homem, conforme a palavra: “O Reino de Deus está no meio de vós”. (Lc 17, 21) O Reino da Santíssima Virgem está principalmente no interior do homem, isto é, em sua alma, e é principalmente nas almas que Ela é mais glorificada com Seu Filho, do que em todas as criaturas visíveis, e podemos chamá-La com os santos a Rainha dos Corações.

Segunda conseqüência. – Maria é necessária para chegarmos a nosso último fim.

39. Em segundo lugar, é preciso concluir que a Santíssima Virgem, sendo necessária a Deus, de uma necessidade chamada hipotética, devido à Sua vontade, é muito mais necessária aos homens para chegarem a seu último fim. Não se confunda, portanto, a devoção a Santíssima Virgem com a devoção aos outros santos, como se não fosse mais necessária que a destes e apenas de superrogação. A verdadeira devoção a Santíssima Virgem consiste em se Lhe devotar e entregar. O culto de dulia é a dependência, a servidão. (S. Th. – Sum. Theol. 2-2, q. 103, a. 3, in fine corp.) O culto de hiperdulia consiste numa dependência mais perfeita a Santíssima Virgem, ou, em outras palavras, na escravidão preconizada por São Luís Maria Grignion de Monfort.
44. Só Maria achou graça diante de Deus (Lc 1, 30) sem auxílio de qualquer outra criatura. E todos, depois dEla, que acharam graça diante de Deus, acharam-na por intermédio dEla e é só por Ela que acharão graça os que ainda virão. Maria era cheia de graça quando o Arcanjo Gabriel a saudou (Lc 1, 28) e a graça superabundou quando o Espírito Santo A cobriu com Sua sombra inefável (Lc 1, 35).

45. À Maria somente Deus confiou as chaves dos celeiros do divino amor e o poder de entrar nas vias mais sublimes e mais secretas da perfeição e de nesses caminhos fazer entrar os outros. Só Maria dá aos miseráveis filhos da Eva infiel a entrada no paraíso terrestre, para aí espairecerem agradavelmente com Deus, e com segurança, se ocultarem de seus inimigos, sem mais receio da morte, se alimentarem deliciosamente do fruto da Árvore da Vida e da Ciência do Bem e do Mal, e para sorverem longamente as águas celestes desta bela fonte que jorra com tanta abundância; ou melhor, como Ela mesma é esse Paraíso Terrestre ou essa Terra Virgem e Abençoada, da qual Adão e Eva, pecadores, foram expulsos, Ela só dá entrada àqueles, que Lhe apraz deixar entrar e para torná-los santos. Todos os ricos do povo, para me servir da expressão do Espírito Santo, (Sll 44, 13) suplicarão, conforme a explicação de São Bernardo, Vossa face em todos os séculos e particularmente no fim do mundo; isto é, os mais santos, as almas mais ricas em graça e em virtudes serão as mais assíduas em rogar a Santíssima Virgem que lhes esteja sempre presente, como seu perfeito modelo a imitar, e que as socorra com Seu auxílio.

47. Disse que isto aconteceria particularmente no fim do mundo e em breve. Porque o Altíssimo e sua santa Mãe devem suscitar grandes santos, de uma santidade tal que sobrepujarão a maior parte dos santos, como os cedros do Líbano se avantajam às pequenas árvores em redor, segundo revelação feita a uma santa alma.

48. Estas grandes almas, cheias de graça e de zelo, serão escolhidas em contraposição aos inimigos de Deus a borbulhar em todos os cantos, e elas serão especialmente devotas da Santíssima Virgem, esclarecidas por Sua luz, alimentadas de Seu leite, conduzidas por Seu espírito, sustentadas por Seu braço e guardadas sob Sua proteção, de tal modo que combaterão com uma das mãos e edificarão com a outra (cf. Ne 4, 17). Com a direita combaterão, derrubarão, esmagarão os hereges com suas heresias, os cismáticos com seus cismas, os idólatras com suas idolatrias, e os ímpios com suas impiedades; e com a esquerda edificarão o templo do verdadeiro Salomão e a Cidade Mística de Deus, isto é, a Santíssima Virgem que os Santos Padres chamam “o Templo de Salomão” e “a Cidade de Deus”. Por suas palavras e por seu exemplo, arrastarão todo o mundo à verdadeira devoção e isto lhes há de atrair inimigos sem conta, mas também vitórias inumeráveis e glória para o único Deus. É o que Deus revelou a São Vicente Ferrer, grande apóstolo de seu século, e que se encontra assinalado em uma de suas obras.



1. Papel especial de Maria nos últimos tempos

49. Por meio de Maria começou a salvação do mundo e é por Maria que deve ser consumada. Na primeira vinda de Jesus, Maria quase não apareceu, para que os homens, ainda insuficientemente instruídos e esclarecidos sobre a pessoa de Seu Filho, não se Lhe apegassem demais e grosseiramente, afastando-se, assim, da verdade. E isto teria aparentemente acontecido devido aos encantos admiráveis com que o próprio Deus Lhe havia ornado a aparência exterior. Mas na segunda vinda de Jesus Cristo Maria deverá ser conhecida e revelada pelo Espírito Santo, a fim de que por Ela seja Jesus Cristo conhecido, amado e servido. Pois, já não subsistem as razões que levaram o Espírito Santo a ocultar Sua Esposa durante a vida e a revelá-La só pouco depois da pregação do Evangelho.

50. Deus quer, portanto, nesses últimos tempos, revelar-nos e manifestar Maria, a Obra-prima de suas mãos: 1º Porque Ela se ocultou neste mundo, e por Sua humildade profunda, se colocou abaixo do pó, obtendo de Deus, dos Apóstolos e Evangelistas, não ser quase mencionada. 2º Porque sendo a Obra-prima das mãos de Deus, tanto aqui em baixo, pela graça, como no céu pela glória, Ele quer que por Ela, os viventes O louvem e glorifiquem sobre a terra. 3º Visto ser Ela a Aurora que precede e anuncia o Sol da Justiça, Jesus Cristo, deve ser conhecida e notada para que Jesus Cristo o seja. 4º Pois, que é a Via pela qual Jesus Cristo nos veio a primeira vez, Ela o será ainda na segunda vinda, embora de modo diferente. 6º Nesses últimos tempos, Maria deve brilhar como jamais brilhou, em misericórdia, em força e graça. Em misericórdia, para reconduzir e receber amorosamente os pobres pecadores e desviados que se converterão e voltarão ao seio da Igreja Católica. Deve, enfim, resplandecer em graça, para animar e sustentar os valentes soldados e fiéis de Jesus Cristo que pugnarão por Seus interesses. 7º Maria deve ser, enfim, terrível para o demônio e seus sequazes como um exército em linha de batalha, principalmente nestes últimos tempos, pois o demônio, sabendo bem que pouco tempo lhe resta para perder as almas, redobra cada dia seus esforços e ataques. Suscitará, em breve, perseguições cruéis e terríveis emboscadas aos servidores fiéis e aos verdadeiros filhos de Maria, que mais trabalho Lhe dão para vencer.

51. É principalmente a estas últimas e cruéis perseguições do demônio, que se multiplicarão todos os dias até ao reino do Anticristo, que se refere aquela primeira e célebre predição e maldição que Deus lançou contra a serpente no paraíso terrestre.



2. Os apóstolos dos últimos tempos

55. Deus quer, finalmente, que Sua Mãe Santíssima seja agora mais conhecida, mais amada, mais honrada, como jamais o foi. E isto acontecerá, sem dúvida, se os predestinados puserem em uso, com o auxílio do Espírito Santo, a prática interior e perfeita que lhes indico a seguir

56. Mas quem serão esses servidores, esses escravos e filhos de Maria? Serão ministros do Senhor, ardendo em chamas abrasadoras que lançarão por toda parte o fogo do divino amor. Serão como flechas agudas (Sl 126, 4) nas mãos de Maria todo-poderosa, pronta a traspassar Seus inimigos. Serão filhos de Levi, bem purificados no fogo das grandes tribulações e bem colados a Deus. Levarão o ouro do amor no coração, o incenso da oração no espírito, a mirra da mortificação no corpo. E serão em toda parte para os pobres e os pequenos, o bom odor de Jesus Cristo e para os grandes, os ricos e os orgulhosos do mundo, um odor repugnante de morte.

58. Serão verdadeiros Apóstolos dos últimos tempos, e o Senhor das virtudes lhes dará a palavra e a força para fazer maravilhas e alcançar vitórias gloriosas sobre Seus inimigos; dormirão sem ouro nem prata e o que é melhor, sem preocupações no meio dos outros padres, eclesiásticos e clérigos (Sl 67, 14) e, no entanto, possuirão as asas prateadas da pomba, para voar, com a pura intenção da glória de Deus e da salvação das almas, aonde os chamar o Espírito Santo, deixando após si, nos lugares em que pregarem, o ouro da caridade que é o cumprimento da lei. (Rom 13, 10)

59. Sabemos, enfim, que serão verdadeiros discípulos de Jesus Cristo, andando nas pegadas da pobreza e humildade, do desprezo do mundo e caridade, ensinado o caminho estreito de Deus na pura verdade, conforme o santo Evangelho, e não pelas máximas do mundo, sem se preocupar nem fazer acepção de pessoa alguma, sem poupar, escutar ou temer nenhum mortal, por poderoso que seja. Terão na boca a espada de dois gumes da palavra de Deus; em seus ombros ostentarão o estandarte ensangüentado da cruz, na direita, o crucifixo, na esquerda o rosário, no coração os nomes sagrados de Jesus e de Maria e, em toda a sua conduta, a modéstia e a mortificação de Jesus Cristo. Eis os grandes homens que hão de vir, suscitados por Maria, em obediência às ordens do Altíssimo, para que o Seu império se estenda sobre o império dos ímpios, dos idólatras e dos maometanos. Quando e como acontecerá?... Só Deus o sabe!... Quanto a nós, cumpre calar-nos, orar, suspirar e esperar.
Jesus Cristo é o fim último da devoção à Santíssima Virgem

61. Primeira verdade. – Jesus Cristo, nosso salvador, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem deve ser o fim último de todas as nossas devoções, de outro modo, elas serão falsas e enganosas. Jesus Cristo é o Alfa e Omega23, o Princípio e o Fim de todas as coisas. Nós só trabalhamos como diz o apóstolo, para tornar todo homem perfeito em Jesus Cristo, pois, é em Jesus Cristo que habita toda a plenitude da Divindade e todas as outras plenitudes de graças, de virtudes, de perfeições; porque nEle somente fomos abençoados de toda a bênção espiritual; porque é nosso único Mestre que deve ensinar-nos, nosso único Senhor de quem devemos depender, nosso único Chefe ao qual devemos estar unidos, nosso único Modelo, com o qual devemos conformar-nos, nosso único Médico que nos há de curar, nosso único Pastor que nos há de alimentar, nosso único Caminho que devemos trilhar, nossa única Verdade que devemos crer, nossa única Vida que nos há de vivificar, e nosso Tudo em todas as coisas, que deve bastar-nos

62. Se estabelecermos, portanto, a sólida devoção a Santíssima Virgem, teremos contribuído para estabelecer com mais perfeição a devoção a Jesus Cristo, teremos proporcionado um meio fácil e seguro de achar Jesus Cristo. Se a devoção a Santíssima Virgem nos afastasse de Jesus Cristo, seria preciso rejeitá-la como uma ilusão do demônio. Mas é tão o contrário, que, como já fiz ver e farei ver ainda, nas páginas seguintes, esta devoção só nos é necessária para encontrar Jesus Cristo, amá-Lo ternamente e fielmente servi-Lo.

Oração de Santo Agostinho

“Vós sois, ó Jesus, o Cristo, meu Pai Santo, meu Deus misericordioso, meu Rei infinitamente grande; sois meu Bom Pastor, meu Único Mestre, meu Auxílio cheio de bondade, meu Pão Vivo, meu Sacerdote Eterno, meu Guia para a pátria, minha Verdadeira Luz, minha Santa Doçura, meu Reto Caminho, Sapiência minha preclara, minha Pura Simplicidade, minha Paz e Concórdia; sois, enfim, toda a minha Salvaguarda, minha Herança preciosa, minha Eterna Salvação. Ó Jesus Cristo, Amável Senhor, por que, em toda a minha vida, amei, por que desejei outra coisa senão Vós? Onde estava eu quando não pensava em Vós? Ah! que, pelo menos, a partir deste momento meu coração só deseje a Vós e por Vós se abrase, Senhor Jesus! Desejos de minha alma, correi, que já bastante tardastes; apressai-vos para o fim a que aspirais; procurai em verdade aquele que procurais. Ó Jesus anátema seja quem não Vos ama. Aquele que não Vos ama seja repleto de amarguras. Ó doce Jesus, sede o amor, as delícias, a admiração de todo coração dignamente consagrado à Vossa glória. Deus de meu coração e minha partilha, Jesus Cristo, que em Vós meu coração desfaleça e sede Vós mesmo a minha vida. Acenda-se em minha alma a brasa ardente de Vosso amor e se converta num incêndio todo divino a arder para sempre no altar de meu coração; que inflame o âmago de minha alma; para que no dia de minha morte eu apareça diante de Vós inteiramente consumido em Vosso amor. Amém”.

Pertencemos a Jesus Cristo e a Maria na qualidade de escravos

68. Segunda verdade. – Do que Jesus é para nós, concluímos que não nos pertencemos, como diz o Apóstolo (1Cor 6, 19) e sim a Ele, inteiramente, como Seus membros e Seus escravos, comprados que fomos por um preço infinitamente caro, o preço de Seu Sangue. Antes do Batismo o demônio nos possuía como escravos, e o Batismo nos transformou em escravos de Jesus Cristo e só devemos viver, trabalhar e morrer para produzir frutos para o Homem-Deus, (Rom 7, 4) glorificá-Lo em nosso corpo e fazê-Lo reinar em nossa alma, pois somos Sua conquista, Seu povo adquirido, Sua herança. Pelo mesmo motivo o Espírito Santo nos compara: 1º à árvores plantadas ao longo das águas da graça, nos campos da Igreja, árvores que devem dar seus frutos no tempo adequado; 2º aos galhos de uma videira de que Jesus Cristo é o tronco, e que devem produzir boas uvas; 3º a um rebanho cujo pastor é Jesus, e esse rebanho deve multiplicar-se e dar leite; 4º a uma boa terra de que Deus é o Lavrador e na qual a semente se multiplica, rendendo trinta, sessenta, cem vezes mais. Jesus amaldiçoou a figueira estéril (Mt 21, 19) e declarou condenado o servo inútil que não fizera valer o seu talento. (Mt 25, 24-30) Tudo isso nos prova que Jesus Cristo quer receber alguns frutos de nossas mesquinhas pessoas: quer receber nossas boas obras, porque as boas obras Lhe pertencem exclusivamente: “Criados em Jesus Cristo para boas ações”. (Ef 2, 10) Essas palavras do Espírito Santo mostram que Jesus Cristo é o único fim de todas as nossas boas obras, e que devemos servi-Lo não somente como servidores assalariados, mas como escravos de amor. Explico-me:

69. Há duas maneiras, aqui na terra, de alguém pertencer a outrem e de depender de sua autoridade. São, a simples servidão e a escravidão, donde a diferença que estabelecemos entre servo e escravo. Pela servidão, comum entre os cristãos, um homem se põe a serviço de outro por um certo tempo, recebendo determinada quantia ou recompensa. Pela escravidão, um homem depende inteiramente de outro durante toda a vida, e deve servir a seu senhor, sem esperar salário nem recompensa alguma, como um dos animais sobre que o dono tem direito de vida e morte.

70. Há três espécies de escravidão: por natureza, por constrangimento e por livre vontade. Por natureza, todas as criaturas são escravas de Deus: (Sl 23, 1) Os demônios e os réprobos são escravos por constrangimento; os justos e os santos o são por livre e espontânea vontade. A escravidão voluntária é a mais perfeita, a mais gloriosa aos olhos de Deus, que olha o coração, (1Rs 16, 7) que pede o coração (Prov 23, 26) e que é chamado o Deus do Coração (Sl 72, 26) ou da Vontade Amorosa, porque, por esta escravidão, escolhe-se, sobre todas as coisas, a Deus e Seu serviço, ainda quando não o obriga a natureza.

71. A diferença entre um servo e um escravo é total: 1º - um servo não dá a seu patrão tudo o que é, tudo o que possui ou pode adquirir por outrem ou por si mesmo; mas um escravo se dá integralmente a seu senhor, com tudo o que possui ou possa adquirir, sem nenhuma exceção. 2º - o servo exige salário pelos serviços que presta a seu patrão; o escravo, porém, nada pode exigir, seja qual for a assiduidade, a habilidade, a força que empregue no trabalho. 3º O servo pode deixar o patrão quando quiser, ou ao menos quando expirar o tempo de serviço, mas o escravo não tem esse direito. 4º O patrão não tem sobre o servo direito algum de vida e de morte, de modo que, se o matasse como mata um de seus animais de carga, cometeria um homicídio; mas, pelas leis, o senhor tem sobre o escravo o poder de vida e morte, de modo que pode vendê-lo a quem o quiser ou matá-lo, como, sem comparação, o faria a seu cavalo. 5º O servo, enfim, só por algum tempo fica a serviço de um patrão, enquanto o escravo o é para sempre.

72. Só a escravidão, entre os homens, põe uma pessoa na posse e dependência completa de outra. Nada há, do mesmo modo, que mais absolutamente nos faça pertencer a Jesus Cristo e à Sua Mãe Santíssima do que a escravidão voluntária, conforme o exemplo do próprio Jesus Cristo, que, por nosso amor, tomou a forma de escravo (Filip 2, 7) e da Santíssima Virgem, que Se declarou a Escrava do Senhor. (Lc 1, 38) O Apóstolo honra-se várias vezes em suas epístolas com o título de “Servo de Cristo”. A Sagrada Escritura chama muitas vezes os cristãos de “Servos de Cristo”, e esta palavra “servo”, conforme a observação acertada de um grande homem, significava outrora, apenas escravo, pois, não existiam servos como os de hoje, e os ricos só eram servidos por escravos ou libertos. E para que não haja a menor dúvida de que somos escravos de Jesus Cristo, o Concílio de Trento usa a expressão: “Escravos de Jesus Cristo”.

73. Digo que devemos pertencer a Jesus Cristo e servi-Lo, não só como servos mercenários, mas como escravos amorosos, que, por efeito de um grande amor, se dedicam a servi-Lo como escravos, pela honra exclusiva de Lhe pertencer. Antes do Batismo, éramos escravos do demônio; o Batismo nos fez escravos de Jesus Cristo. Importa, pois, que os cristãos sejam escravos ou do demônio ou de Jesus Cristo.

74. O que digo absolutamente de Jesus Cristo, digo-o também da Virgem Maria. Pois, Jesus Cristo, escolhendo-A para Sua companheira inseparável na vida, na morte, na glória, em Seu poder no céu e na terra, deu-Lhe pela graça, relativamente à Sua Majestade, os mesmos direitos e privilégios que Ele possui por natureza. “Tudo que convém a Deus pela natureza, convém a Maria pela graça”, dizem os santos. Assim, conforme este ensinamento, pois que Ambos têm a mesma vontade e o mesmo poder, têm também os mesmos súditos, servos e escravos.

76. Além disso, se a Virgem Santíssima, como já disse, (v. nº 38) é a Rainha e Soberana do céu e da terra não possui Ela tantos súditos e escravos quantas criaturas existem? Não é razoável que, entre tantos escravos por constrangimento, haja alguns por amor, que de boa vontade e na qualidade de escravos, escolham Maria para Sua Soberana? Pois então, os homens e os demônios terão seus escravos voluntários e Maria não há de tê-los? Seria desonra para um rei se a rainha, sua companheira, não possuísse escravos sobre os quais tivesse direito de vida e morte, pois a honra e o poder do rei são a honra e o poder da rainha; e pode-se acreditar que Nosso Senhor, o melhor de todos os Filhos, que deu a Sua Mãe Santíssima parte de todo o Seu poder, considere um mal ter Ela escravos? Terá Ele menos respeito e amor à Sua Mãe do que teve Assuero a Éster e Salomão a Betsabé? Quem ousaria dizê-lo ou pensá-lo sequer? “Ao poder de Deus tudo é submisso, até a Virgem; ao poder da Virgem tudo é submisso, até Deus”.

Devemos despojar-nos do que há de mau em nós

78. Terceira verdade. Nossas melhores ações são ordinariamente manchadas e corrompidas pelo fundo de maldade que há em nós. Quando se despeja água limpa e clara em uma vasilha suja, que cheira mal, ou quando se põe vinho em uma pipa cujo interior está azedado por outro vinho que aí antes se depositara, a água límpida e o vinho bom adquirem facilmente o mau cheiro e o azedume dos recipientes. Do mesmo modo, quando Deus põe no vaso de nossa alma, corrompido pelo pecado original e pelo pecado atual, Suas graças e orvalhos celestiais ou o vinho delicioso de Seu amor, estes dons divinos ficam ordinariamente estragados ou manchados pelo mau germe e mau fundo que o pecado deixou em nós; nossas ações, até as mais sublimes virtudes, disto se ressentem. É, portanto, de grande importância, para adquirir a perfeição, que só se consegue pela união com Jesus Cristo, despojar-nos de tudo que de mau existe em nós. Do contrário, Nosso Senhor, que é infinitamente puro e odeia infinitamente a menor mancha na alma, nos repelirá e de modo algum se unirá a nós.

79. Para despojar-nos de nós mesmos, é preciso conhecer primeiramente e bem, pela luz do Espírito Santo, nosso fundo de maldade, nossa incapacidade para todo bem, nossa fraqueza em todas as coisas, nossa inconstância em todo tempo, nossa indignidade de toda graça e nossa iniqüidade em todo lugar. O pecado de nossos primeiros pais nos estragou completamente, nos azedou, inchou e corrompeu, como o fermento azeda, incha e corrompe a massa em que é posto. Os pecados atuais que cometemos, sejam mortais ou veniais, perdoados que estejam, aumentam em nós a concupiscência, a fraqueza, a inconstância e a corrupção, deixando maus traços em nossa alma.

80. Depois disto, por que admirar-se de ter Nosso Senhor dito que quem quisesse segui-Lo devia renunciar a si mesmo e odiar a própria alma; que aquele que amasse sua alma a perderia e quem a odiasse se salvaria? (Jo 12, 25) A Sabedoria infinita, que não dá ordens sem motivo, só ordena que nos odiemos porque somos grandemente dignos de ódio: só Deus é digno de amor, enquanto nada há mais digno de ódio do que nós.

81. Em segundo lugar, para despojar-nos de nós mesmos, é preciso que todos os dias morramos para nós, isto é, importa renunciarmos às operações das faculdades da alma e dos sentidos do corpo, precisamos ver como se não víssemos, ouvir como se não ouvíssemos, servir-nos das coisas deste mundo como se não o fizéssemos, (cf. 1Cor 7, 29-31) o que São Paulo chama morrer todos os dias: “Morro a cada dia”. (1Cor 15, 31) “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica só, e não produz fruto apreciável. (Jo 12, 24-25).

82. Em terceiro lugar, é preciso escolher entre todas as devoções a Santíssima Virgem, a que nos leva com mais certeza a este aniquilamento do próprio eu. Esta será a devoção melhor e mais santificante, pois é mister reconhecer que nem tudo que luz é ouro, nem tudo que é doce é mel e nem tudo que é fácil de fazer e praticar é o mais santificante. Do mesmo modo que a natureza tem segredos para fazer em pouco tempo, sem muitos gastos e com facilidade, certas operações naturais, há segredos, na ordem da graça, pelos quais se fazem, em pouco tempo, com doçura e facilidade, operações sobrenaturais, como despojar-nos de nós mesmos, encher-nos de Deus, e tornar-nos perfeitos. A prática que quero revelar é um desses segredos da graça, desconhecido da maior parte dos cristãos, conhecido de poucos devotos, praticado e apreciado por um número bem diminuto. Antes de abordar esta prática, apresento uma quarta verdade que é conseqüência da terceira. Temos necessidade de um medianeiro junto do próprio Medianeiro que é Jesus Cristo.

83. Quarta verdade. – É muito mais perfeito, porque é mais humilde, tomar um medianeiro para nos aproximarmos de Deus.

84. Nosso Senhor é nosso advogado e Medianeiro de redenção junto de Deus Pai; é por intermédio dEle que devemos rezar com toda a Igreja triunfante e militante; é por intermédio dEle que obtemos acesso junto de Sua Majestade, em cuja presença não devemos jamais aparecer, a não ser amparados e revestidos dos méritos de Jesus Cristo, como Jacó revestindo-se da pele de cabrito para receber a bênção de seu pai Isaac.

85. Mas temos necessidade de um medianeiro junto do próprio Medianeiro? Será a nossa pureza suficiente para que nos permita unir-nos diretamente a Ele, e por nós mesmos? Não é Ele Deus, em tudo igual ao Pai e, por conseguinte, o Santo dos Santos, digno de tanto respeito como Seu Pai? Se Ele, por Sua caridade infinita, se constituiu nosso Penhor e Medianeiro junto de Deus Seu Pai, para aplacá-Lo e pagar-Lhe o que Lhe devíamos, quer isto dizer que Lhe devemos menos respeito e tomar por Sua Majestade e Santidade? Digamos, pois, ousadamente, com São Bernardo, que temos necessidade de um medianeiro junto do Medianeiro por excelência, e que Maria Santíssima é a única capaz de exercer esta função admirável. Por Ela Jesus Cristo veio a nós, e por Ela devemos ir a Ele. Se recearmos ir diretamente a Jesus Cristo Deus, em vista da Sua grandeza infinita, ou por causa de nossa baixeza, ou, ainda, devido aos nossos pecados, imploremos afoitamente o auxílio e intercessão de Maria nossa Mãe; Ela é boa e terna; nEla não há severidade nem repulsa, tudo nEla é sublime e brilhante, contemplando-A vemos nossa pura natureza. Ela não é o sol, que, pela força de seus raios, nos poderia deslumbrar em nossa fraqueza, mas é bela e suave como a lua, (Cant 6, 9) que recebe a luz do sol e a tempera para que possamos suportá-la.

86. Tudo isto é tirado de São Bernardo e de São Boaventura. De acordo com suas palavras, temos três degraus a subir para chegar a Deus: o primeiro, mais próximo de nós e mais conforme à nossa capacidade, é Maria; o segundo é Jesus Cristo; e o terceiro é Deus Pai. Para ir a Jesus é preciso ir a Maria, pois Ela é a Medianeira de intercessão. Para chegar ao Pai Eterno é preciso ir a Jesus, que é nosso Medianeiro de Redenção. Ora, pela devoção que preconizo, mais adiante, é esta a ordem perfeitamente observada.

É muito difícil para nós conservar as graças e tesouros recebidos de Deus

87. Quinta verdade. – É extremamente difícil, devido à nossa fraqueza e fragilidade, conservarmos em nós as graças e os tesouros que recebemos de Deus: 1º - porque este tesouro, mais valioso que o céu e a terra, nós o guardamos em vasos frágeis: em um corpo corruptível, uma alma fraca e inconstante que um nada perturba e abate. (2Cor 4, 7)

88. 2º - porque os demônios, que são ladrões finórios, buscam surpreender-nos de improviso para nos roubar e despojar; espreitam dia e noite o momento favorável a seu desígnio; andam incessantemente ao redor de nós, prontos a devorar-nos (cf 1Ped 5, 8) e pelo pecado, arrebatar-nos, num momento, tudo que em longos anos conseguimos alcançar de graças e méritos. E tanto mais devemos temer esta desgraça, sabendo quão incomparável é sua malícia, sua experiência, suas astúcias e seu número. Pessoas tem havido muito mais cheias de graças do que nós, mais ricas em virtudes, mais experientes, mais elevadas em santidade, que foram surpreendidas, roubadas, saqueadas lamentavelmente. Ah! quantos Cedros do Líbano, quantas Estrelas do firmamento se têm visto cair miseravelmente, perdendo em pouco tempo toda a sua altivez e claridade. A que atribuir tão estranha mudança? Não foi falta de graça, pois a graça não falta a ninguém; foi falta de humildade. Essas pessoas acreditavam-se mais fortes e suficientes do que o eram na realidade; julgavam-se capazes de guardar seus tesouros; fiaram-se e apoiaram-se em si próprias; creram sua casa bastante segura e fortes os seus cofres para guardar o precioso tesouro da graça e, devido a essa segurança imperceptível que tinham em si (conquanto lhes parecesse que se apoiavam na graça de Deus), é que o Justíssimo Senhor, abandonando-as às próprias forças, permitiu que fossem roubadas. Ah! Se tivessem conhecido a devoção admirável que vou expor em seguida, teriam confiado seu tesouro à Virgem Poderosa e Fiel, que o teria guardado como Seu próprio bem, fazendo mesmo, disso, um dever de justiça.

89. 3º - É difícil perseverar na justiça, por causa da corrupção do mundo. O mundo está, atualmente, tão corrompido, que é quase necessário que os corações religiosos sejam manchados, se não pela lama, ao menos pela poeira dessa corrupção; de modo que se pode considerar um milagre o fato de uma pessoa manter-se firme no meio dessa torrente impetuosa sem que o turbilhão a arraste; no meio desse mar tempestuoso sem que o furor das ondas a submirja ou a pilhem os piratas e corsários no meio desse ar empestado sem que os miasmas a contaminem. É a Virgem, a única fiel, na qual a serpente não teve parte jamais, que faz este milagre em favor daqueles e daquelas que A servem da mais bela maneira.



Escolha da verdadeira devoção a Santíssima Virgem

90. Conhecidas estas cinco verdades, é preciso, mais do que nunca, fazer agora uma boa escolha da verdadeira devoção a Virgem Santíssima, pois, como jamais, pululam falsas devoções a Maria Santíssima, as quais passam facilmente por devoções verdadeiras. O demônio, como um moedeiro falso e um enganador fino e experimentado, tem já enganado e perdido inúmeras almas, inculcando uma falsa devoção a Santíssima Virgem. Todos os dias vale-se de sua experiência diabólica para lançar outros mais à eterna condenação, divertindo-as e acalentando-as no pecado, sob o pretexto de algumas orações mal recitadas e de algumas práticas exteriores que lhes inspira.

91. É, portanto, de grande importância conhecer primeiramente as falsas devoções a Santíssima Virgem, para evitá-las, e a verdadeira, para abraçá-la; segundo, entre tantas práticas diferentes da verdadeira devoção a Virgem Santíssima, distinguir a mais perfeita, a mais agradável a Maria Santíssima, a que mais glória dá a Deus, a mais santificante para nós, para a esta nos apegarmos.



Os sinais da falsa e da verdadeira devoção a Santíssima Virgem

Os falsos devotos e as falsas devoções a Santíssima Virgem.


92. Conheço sete espécies de falsos devotos e falsas devoções a Santíssima Virgem: 1º os devotos críticos; 2º os devotos escrupulosos; 3º os devotos exteriores; 4º os devotos presunçosos; 5º os devotos inconstantes; 6º os devotos hipócritas; 7º os devotos interesseiros.

1º Os devotos críticos

93. Os devotos críticos são, em geral, sábios orgulhosos, espíritos fortes e presumidos, que têm no fundo, certa devoção a Santíssima Virgem. Mas que vivem criticando as práticas de devoção que a gente simples tributa de boa-fé e santamente a esta boa Mãe, pelo fato de estas devoções não agradarem à sua culta fantasia. Põem em dúvida todos os milagres e histórias narrados por autores dignos de fé, ou inseridos em crônicas de ordens religiosas, atestando as misericórdias e o poder da Santíssima Virgem. Repugna-lhes ver pessoas simples e humildes ajoelhadas diante de um altar ou de uma imagem da Virgem, às vezes no recanto de uma rua, rezando a Deus; chegam a acusá-las de idolatria, como se estivesse adorando a pedra ou a madeira. Dizem que, de sua parte, não apreciam essas devoções exteriores e que seu espírito não é tão fraco que vá dar fé a tantos contos e historietas que se atribuem a Santíssima Virgem. Esta espécie de falsos devotos e orgulhosos e mundanos é muito para temer e eles causam um mal infinito à devoção a Santíssima Virgem, dela afastando eficazmente o povo, sob pretexto de destruir-lhes os abusos.

2º Os devotos escrupulosos

94. Os devotos escrupulosos são aqueles que receiam desonrar o Filho, honrando a Mãe, e rebaixá-lo se A exaltarem demais. Não podem suportar que se repitam a Santíssima Virgem aqueles louvores justíssimos que Lhe teceram os Santos Padres; não suportam sem desgosto que a multidão ajoelhada aos pés de Maria seja maior que ante o altar do Santíssimo Sacramento, como se fossem antagônicos, e como se os que rezam a Santíssima Virgem não rezassem a Jesus Cristo por meio dEla. Não querem que se fale tão freqüentemente da Santíssima Virgem, nem que se recorra tantas vezes a Ela. Em certo sentido é verdade o que eles dizem. Mas, pela aplicação que lhe dão, é bem perigoso e constitui uma cilada sutil do maligno, sob o pretexto de um bem muito maior, pois nunca se há de honrar mais a Jesus Cristo, do que honrando a Santíssima Virgem, desde que a honra que se presta a Maria não tem outro fim que honrar mais perfeitamente a Jesus Cristo e que só se vai a Ela como ao caminho para atingir o termo que é Jesus Cristo.

3º Os devotos exteriores

96. Devotos exteriores são as pessoas que fazem consistir toda a devoção a Santíssima Virgem em práticas exteriores; que só tomam interesse pela exterioridade da devoção a Santíssima Virgem, por não terem espírito interior; que recitarão às pressas, uma enfiada de terços, ouvirão sem atenção, uma infinidade de missas, acompanharão as procissões sem devoção, farão parte de todas as confrarias sem emendar de vida, sem violentar suas paixões, sem imitar as virtudes desta Virgem Santíssima. Amam apenas o que há de sensível na devoção, sem interesse pela parte sólida. Se suas práticas não lhes afetam a sensibilidade, acham que não há nada mais a fazer, ficam desorientados, ou fazem tudo desordenadamente. O mundo está cheio dessa espécie de devotos exteriores e não há gente que mais critique as pessoas de oração que se dedicam à devoção interior sem desprezar o exterior de modéstia, que acompanha sempre a verdadeira devoção.

4º Os devotos presunçosos

97. Os devotos presunçosos são pecadores abandonados às suas paixões, ou amantes do mundo, que, sob o belo nome de cristãos e devotos da Santíssima Virgem, escondem ou o orgulho, ou a avareza, ou a impureza, ou a embriaguez, ou a cólera, ou a blasfêmia, ou a maledicência, ou a injustiça, etc.; que dormem placidamente em seus maus hábitos, sem violentar-se muito para se corrigir, alegando que são devotos da Virgem; que prometem a si mesmos que Deus lhes perdoará, que não hão de morrer sem confissão, e não serão condenados porque recitam seu terço, jejuam aos sábados, pertencem à Confraria do Santo Rosário ou do Escapulário, ou a alguma congregação; porque trazem consigo o pequeno hábito ou a cadeiazinha da Santíssima Virgem, etc.

98. Não há, no cristianismo, coisa tão condenável como essa presunção diabólica; pois será possível dizer de verdade que se ama e honra a Santíssima Virgem, quando, pelos pecados, se fere, se traspassa, se crucifica e ultraja impiedosamente a Jesus Cristo, seu Filho? Se Maria considerasse uma lei salvar essa espécie de gente, Ela autorizaria um crime, ajudaria a crucificar e injuriar Seu próprio Filho. Quem o ousaria pensar? Confesso que, para ser alguém verdadeiramente devoto da Santíssima Virgem, não é absolutamente necessário ser santo ao ponto de evitar todo pecado, conquanto seja este o ideal; mas é preciso ao menos (note-se bem o que vou dizer): em primeiro lugar, estar com a resolução sincera de evitar ao menos todo pecado mortal, que ofende tanto a Mãe como o Filho. Segundo, fazer violência a si mesmo para evitar o pecado. Terceiro, filiar-se a confrarias, rezar o terço, o santo rosário ou outras orações, jejuar aos sábados, etc.

5º Os devotos inconstantes

101. Devotos inconstantes são aqueles que são devotos da Santíssima Virgem periodicamente, por intervalos e por capricho: hoje são fervorosos, amanhã tíbios; agora mostram-se prontos a tudo empreender em serviço de Maria e logo após, já não parecem os mesmos. Abraçam logo todas as devoções a Santíssima Virgem, ingressam em todas as suas confrarias, e em pouco tempo já nem observam as regras com fidelidade; mudam como a lua42 e Maria os esmaga sob seus pés como faz ao crescente, pois eles são volúveis e indignos de ser contados entre os servidores dEsta Virgem fiel, que têm a fidelidade e a constância por herança. Vale mais não se sobrecarregar de tantas orações e práticas de devoção e fazer poucas com amor e fidelidade, a despeito do mundo, do demônio e da carne.

6º Os devotos hipócritas

102. Há também falsos devotos da Santíssima Virgem, os devotos hipócritas, que cobrem seus pecados e maus hábitos com o manto da Virgem fiel, a fim de passarem aos olhos do mundo por aquilo que não são.

7º Os devotos interesseiros

103. Há ainda os devotos interesseiros, que só recorrem a Santíssima Virgem para ganhar algum processo, para evitar algum perigo, para se curar de alguma doença ou em qualquer necessidade desse gênero, sem o que a esqueceriam; uns e outros são falsos devotos que não têm aceitação diante de Deus e de Sua Mãe Santíssima.


A verdadeira devoção a Santíssima Virgem.

105. Depois de descobrir e condenar as falsas devoções a Santíssima Virgem, cumpre estabelecer em poucas palavras, a devoção verdadeira, que é: 1º interior; 2º terna; 3º santa; 4º constante; 5º desinteressada.

1º A verdadeira devoção é interior

106. Antes de tudo, a verdadeira devoção à Santíssima Virgem é interior, isto é, parte do espírito e do coração. Vem da estima em que se tem a Santíssima Virgem. Da alta idéia que se formou de Suas grandezas, e do amor que se Lhe consagra.

2º A verdadeira devoção é terna

107. Em segundo lugar é terna, quer dizer cheia de confiança na Santíssima Virgem, da confiança de um filho em sua mãe. Impele uma alma a recorrer a Ela em todas as necessidades do corpo e do espírito, com extremos de simplicidade, de confiança e de ternura; ela implora o auxílio de sua boa Mãe em todo o tempo, em todo lugar, em todas as coisas: em suas dúvidas, para ser esclarecida; em seus erros, para se corrigir; nas tentações, para ser sustentada; em suas fraquezas, para ser fortificada; em suas quedas, para ser levantada; em seus abatimentos, para ser encorajada; em seus escrúpulos, para ficar livre deles; em suas cruzes, trabalhos e reveses da vida, para ser consolada. Em todos os males do corpo e do espírito, enfim, Maria é o refúgio, e não há receio de importunar esta boa Mãe e desagradar a Jesus Cristo.

3º A verdadeira devoção é santa

108. Terceiro, a verdadeira devoção à Santíssima Virgem é santa: leva uma alma a evitar o pecado e a imitar as virtudes da Santíssima Virgem, principalmente Sua humildade profunda, Sua contínua oração, Sua obediência cega, Sua fé viva, Sua mortificação universal, Sua pureza divina, Sua caridade ardente, Sua paciência heróica, Sua doçura Angélica e Sua sabedoria divina. Aí estão as dez principais virtudes da Santíssima Virgem.

4º A verdadeira devoção é constante

109. Quarto, a verdadeira devoção a Santíssima Virgem é constante, firma uma alma no bem, e ajuda-a a perseverar em suas práticas de devoção. Torna-a corajosa para se opor ao mundo em suas modas e máximas, à carne, em seus aborrecimentos e paixões, e ao demônio, em suas tentações. Assim, uma pessoa verdadeiramente devota da Santíssima Virgem não é volúvel, nem se deixa dominar pela melancolia, pelos escrúpulos ou pelos receios. Não quer isto dizer que não caia ou não mude, às vezes, na sensibilidade de sua devoção; mas, se cai, levanta-se logo, estende a mão à sua boa Mãe e se perde o gosto ou a devoção sensível, não se aflige irremediavelmente, pois o justo e devoto fiel de Maria vive da fé de Jesus e de Maria e não nos sentimentos naturais.

5º A verdadeira devoção é desinteressada

110. A verdadeira devoção a Santíssima Virgem é, finalmente, desinteressada, leva a alma a buscar não a si mesma, mas somente a Deus em Sua Mãe Santíssima. O verdadeiro devoto de Maria não serve a esta Augusta Rainha por espírito de lucro e de interesse, nem para seu bem temporal ou eterno, corporal ou espiritual, mas unicamente porque Ela merece ser servida e Deus exclusivamente nEla; o verdadeiro devoto não ama a Maria precisamente porque Ela lhe faz ou ele espera dEla algum bem, mas porque Ela é amável. Só por isto ele A ama e serve nos desgostos e na aridez, como nas doçuras e no fervor sensível, sempre com a mesma fidelidade; ama-A nas amarguras do Calvário como nas alegrias de Caná. Oh! Como é agradável e precioso aos olhos de Deus e de Sua Mãe Santíssima, esse devoto, que em nada se busca nos serviços que presta à sua Rainha. Mas, também, quão raro é encontrá-lo agora. E é com o fito de que cresça o número desses fiéis devotos, que empunhei a pena para escrever o que tenho, com particular fruto, ensinado em público e em particular nas minhas missões, durante anos e anos.

As práticas da verdadeira devoção a Santíssima Virgem

115. Há muitas práticas interiores da verdadeira devoção a Santíssima Virgem. As principais são, abreviadamente, as seguintes: 1 - Honrá-la, como a digna Mãe de Deus, com o culto de hiperdulia, isto é, estimá-La e honrá-La sobre todos os outros santos, como a Obra-prima da graça e a primeira depois de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. 2 - Meditar Suas virtudes, Seus privilégios e Seus atos. 3 - Contemplar Suas grandezas. 4 - Fazer-Lhe atos de amor, de louvor e reconhecimento. 5 - Invocá-La cordialmente. 6 - Oferecer-se e unir-se a Ela. 7 - Em todas as ações ter a intenção de agradar-Lhe. 8 - Começar, continuar, e acabar todas as ações por Ela, nEla, com Ela e para Ela, a fim de fazê-las por Jesus Cristo, em Jesus Cristo, com Jesus Cristo e para Jesus Cristo, nosso último fim.

116. A verdadeira devoção a Santíssima Virgem tem também muitas práticas exteriores, das quais as principais são: 1º - Alistar-se em Suas confrarias e ingressar em Suas congregações; 2º - ingressar numa das ordens instituídas em Sua honra; 3º - publicar Seus louvores; 4º - dar esmolas, jejuar e mortificar-se no espírito e no corpo em Sua honra; 5º - trazer consigo Suas insígnias, como o santo rosário ou o terço, o escapulário ou a cadeiazinha; 6º - recitar com devoção, atenção e modéstia ou o santo rosário, composto de vinte dezenas de Ave-Maria, em honra dos vinte mistérios principais de Jesus Cristo, ou o terço de cinco dezenas. Pode-se recitar também uma coroa de seis ou sete dezenas, em honra dos anos que se crê a Santíssima Virgem ter vivido na terra; ou a coroinha da Santíssima Virgem, composta de três Pais-nosso e doze Ave-Marias, em honra de Sua coroa de doze estrelas ou privilégios; outrossim, o ofício da Santíssima Virgem universalmente conhecido e recitado pela Igreja; quaisquer outras orações, enfim, hinos e cânticos da Igreja. 9º - ter zelo por Suas confrarias, ornar Seus altares, coroar e enfeitar Suas imagens; 12º consagrar-se a Ela, de uma maneira especial e solene.

Da perfeita devoção a Santíssima Virgem ou a perfeita consagração a Jesus Cristo

120. A mais perfeita devoção é aquela pela qual nos conformamos, unimos e consagramos mais perfeitamente a Jesus Cristo, pois, toda a nossa perfeição consiste em sermos conformados, unidos e consagrados a Ele. Ora, pois que Maria é de todas as criaturas, a mais conforme a Jesus Cristo, segue daí que, de todas as devoções, a que mais consagra e conforma uma alma a Nosso Senhor é a devoção a Santíssima Virgem, Sua Santa Mãe e que, quanto mais uma alma se consagrar a Maria, mais consagrada estará a Jesus Cristo. Eis por que a perfeita consagração a Jesus Cristo nada mais é que uma perfeita e inteira consagração a Santíssima Virgem e nisto consiste a devoção que eu ensino; ou, por outra, uma perfeita renovação dos votos e promessas do Santo Batismo.

Uma perfeita e inteira consagração de si mesmo à Santíssima Virgem

121. Esta devoção consiste, portanto, em entregar-se inteiramente a Santíssima Virgem, a fim de, por ela, pertencer inteiramente a Jesus Cristo. É preciso dar-lhe 1º nosso corpo com todos os seus membros e sentidos; 2º nossa alma com todas as suas potências; 3º nossos bens exteriores, que chamamos de fortuna, presentes e futuros; 4º nossos bens interiores e espirituais, que são nossos méritos, nossas virtudes e nossas boas obras passadas, presentes e futuras. Numa palavra, tudo que temos na ordem da natureza e na ordem da graça, e tudo que, no porvir, poderemos ter na ordem da natureza, da graça e da glória, e isto sem nenhuma reserva, sem a reserva sequer de um real, de um cabelo, da menor boa ação, para toda a eternidade, sem pretender e nem esperar a mínima recompensa de sua oferenda e de seu serviço, a não ser a honra de pertencer a Jesus Cristo por Ela e nEla, mesmo que esta Amável Senhora não fosse, como é sempre, a mais liberal e reconhecida das criaturas.

122. Importa notar, aqui, duas coisas que há nas boas obras que fazemos, a saber: a satisfação e o mérito, ou o valor satisfatório ou impetratório e o valor meritório. O valor satisfatório ou impetratório de uma boa obra é uma boa ação na medida em que satisfaz a pena devida pelo pecado, ou em que obtêm alguma nova graça; o valor meritório ou o mérito é uma boa ação, em quanto merece a graça e a glória eterna. Ora, nesta consagração de nós mesmos a Santíssima Virgem, nós Lhe damos todo o valor satisfatório, impetratório e meritório, ou por outra, as satisfações e os méritos de todas as nossas boas obras: damos-Lhe nossos méritos, nossas graças e nossas virtudes, não para comunicá-los a outrem (porque nossos méritos, graças e virtudes, propriamente falando, são incomunicáveis; só Jesus Cristo, fazendo-se nosso penhor diante do Pai, pôde comunicar-nos Seus méritos), mas para no-los conservar, aumentar e encarecer, como diremos ainda. (V. n. 146, ss) Damos-Lhe nossas satisfações para que Ela as comunique a quem bem Lhe pareça e para maior glória de Deus.

123. Daí segue 1º - que, por esta devoção, damos a Jesus Cristo, do modo mais perfeito, pois, que o fazemos pelas mãos de Maria, tudo que Lhe podemos dar, e muito mais que por outras devoções, pelas quais Lhe damos uma parte de nosso tempo ou de nossas boas obras, ou uma parte de nossas satisfações e mortificações. Aqui damos e consagramos tudo, até o direito de dispor dos bens interiores, e as satisfações que ganhamos por nossas boas obras, dia a dia: e isto não se faz nem mesmo numa ordem religiosa. Nestas, consagram-se a Deus os bens de fortuna pelo voto de pobreza, os bens do corpo pelo voto de castidade, a vontade própria pelo voto de obediência e, às vezes, a liberdade do corpo pelo voto de clausura. Não se Lhe dá, porém, a liberdade ou o direito que temos de dispor de nossas boas obras, nem se renuncia tanto como se pode ao que o cristão tem de mais precioso e caro: seus méritos e satisfações.

124. 2º - Uma pessoa, que assim voluntariamente se consagrou e sacrificou a Jesus Cristo por Maria, já não pode dispor do valor de nenhuma de suas boas ações. Tudo o que sofre, tudo o que pensa, diz e faz de bem pertence a Maria, para que Ela de tudo disponha conforme a vontade e para maior glória de Seu Filho, sem que, entretanto, esta dependência prejudique de modo algum as obrigações de estado no qual esteja presentemente, ou venha a estar no futuro: por exemplo, as obrigações de um sacerdote que, por dever de ofício ou por outro motivo, deve aplicar o valor satisfatório e impetratório da Santa Missa a um particular; pois não se faz esta oferta a não ser conforme a ordem de Deus e os deveres de estado.

125. 3º - A consagração é feita conjuntamente a Santíssima Virgem e a Jesus Cristo; a Santíssima Virgem como ao meio perfeito que Jesus Cristo escolheu para se unir a nós e nós a Ele; e a Nosso Senhor como o nosso fim último, ao qual devemos tudo o que somos, como a nosso Redentor e nosso Deus.

Uma perfeita renovação dos votos do Batismo

126. Disse acima (V. nº 120) que a esta devoção podia-se chamar muito bem uma perfeita renovação dos votos ou promessas do Santo Batismo. Todo cristão, antes do Batismo era escravo do demônio, pois, lhe pertencia. Na ocasião do Batismo o cristão, por sua própria boca ou pela de seu padrinho e de sua madrinha, renunciou a Satanás, a suas pompas e obras, e tomou Jesus Cristo para seu Mestre e Soberano Senhor, passando a depender dEle, na qualidade de escravo por amor. É o que se faz pela presente devoção: renuncia-se (como está indicado na fórmula de consagração) ao demônio, ao mundo, ao pecado e a si próprio, dando-se inteiramente a Jesus Cristo pelas mãos de Maria. Faz-se até algo mais, pois, se no Batismo, falamos ordinariamente pela boca de outrem, pela boca do padrinho ou da madrinha, nesta devoção fazemo-lo nós mesmos, voluntariamente, com conhecimento de causa. No Batismo não é pelas mãos de Maria que nos damos a Jesus Cristo, pelo menos de maneira expressa, nem fazemos doação a ele do valor de nossas boas ações; depois do Batismo ficamos inteiramente livres de aplicar esse valor a quem quisermos ou de conservá-lo para nós. Por essa devoção damo-nos, porém, a Nosso Senhor pelas mãos de Maria, e Lhe consagramos o valor de todas as nossas ações.

Respostas a algumas objeções

131. Não se pode objetar que esta devoção seja nova ou sem importância. Não é nova porque os concílios, os padres e muitos autores antigos e modernos falam desta consagração a Nosso Senhor ou renovação das promessas do Batismo, como de uma prática antiga, aconselhando-a a todos os cristãos. Esta prática também não é sem importância, pois a principal fonte de todas as desordens e conseqüente condenação dos cristãos está no esquecimento e indiferença por esta renovação.

132. Alguns podem alegar que esta devoção, levando-nos a dar a Nosso Senhor, pelas mãos de Maria Santíssima, o valor de todas as nossas boas obras, orações, mortificações e esmolas, nos torna impotentes para socorrer as almas de nossos parentes, amigos e benfeitores. A esses respondo primeiro, que não é crível que nossos amigos, parentes ou benfeitores sofram prejuízo por nos termos devotado e consagrado sem reserva ao serviço de Nosso Senhor e de Sua Mãe Santíssima. Seria fazer uma injúria ao poder e bondade de Jesus e Maria, que saberão muito bem valer os nossos parentes, amigos e benfeitores, aproveitando o nosso crédito espiritual, ou por outro meio qualquer. Segundo, esta prática não impede que rezemos pelos outros, vivos ou mortos, se bem que a aplicação de nossas boas obras dependa da vontade da Santíssima Virgem; e bem ao contrário, esta circunstância nos levará a rezar com muito mais confiança, do mesmo modo que uma pessoa rica, que tivesse doado a um grande príncipe todos os seus bens, rogaria com redobrada confiança a esse príncipe que beneficiasse a algum amigo necessitado. Seria até causar prazer a esse príncipe dar-lhe ocasião de demonstrar seu reconhecimento a uma pessoa que de tudo se tivesse despojado para engrandecê-lo, que se tivesse reduzido a completa pobreza para honrá-lo. O mesmo se deve dizer de Nosso Senhor e da Santíssima Virgem: Eles jamais se deixarão vencer em reconhecimento.

133. Outros dirão, talvez: se eu der a Santíssima Virgem todo o valor de minhas ações para que Ela o aplique a quem quiser, terei de sofrer talvez muito tempo no purgatório. Esta objeção, produto do amor-próprio e da ignorância da liberalidade de Deus e de Sua Mãe Santíssima, destrói-se por si mesmo. Uma alma cheia de fervor e generosa, que antepõe os interesses de Deus aos seus próprios, que tudo que tem dá a Deus inteiramente, sem reserva, que só aspira à glória e ao Reino de Jesus Cristo por intermédio de Sua Mãe Santíssima, e que se sacrifica completamente para obtê-lo, esta alma generosa, repito, e liberal, será castigada no outro mundo por ter sido mais liberal e desinteressada que as outras? Muito ao contrário, é a esta alma, como veremos a seguir, que Nosso Senhor e sua Mãe Santíssima se mostram mais generosos neste mundo e no outro, na ordem da natureza, da graça e da glória.

134. Vejamos agora, o mais brevemente que pudermos, os motivos que nos recomendam esta devoção, os maravilhosos efeitos que ela produz nas almas fiéis, e as práticas desta devoção.

Motivos que nos recomendam esta devoção

135. Primeiro motivo - que nos mostra a excelência desta consagração de nós mesmos a Jesus Cristo pelas mãos de Maria. Desde que não se pode conceber sobre a terra emprego mais relevante que o serviço de Deus; se o menor servidor de Deus é mais rico, mais poderoso e mais nobre que todos os reis e imperadores da terra que não sejam também servidores de Deus, quais não serão as riquezas, o poder e a dignidade do fiel e perfeito servidor que se tiver devotado ao serviço divino, tão inteiramente e sem reserva quanto for capaz? Assim será um fiel e amoroso escravo de Jesus e Maria, que, pelas mãos de Maria Santíssima, se entregar inteiramente ao serviço deste Rei dos reis, e que não reservar nada para si: nem todo ouro da terra e as belezas do céu o podem pagar.

136. As outras congregações, associações e confrarias eretas em honra de Nosso Senhor e de Nossa Senhora, que promovem grande bem no cristianismo, não mandam que se dê tudo sem reserva; não prescrevem a seus associados mais que certas práticas e atos para satisfazerem suas obrigações; deixam-nos livres em todas as outras ações e instantes de sua vida. Mas nesta devoção, que apresento, damos sem reserva a Jesus e Maria todos os nossos pensamentos, palavras, ações e sofrimentos, e todos os momentos da vida: de sorte que, ou despertados ou adormecidos, bebendo ou comendo, nas ações as mais importantes como nas mais corriqueiras, pode-se sempre dizer em verdade que o fazemos, embora nem sequer nos ocorra a idéia, pertence a Jesus e Maria em virtude da nossa oferta, a menos que a retratemos expressamente. Que consolação! Bens exteriores, temporais e caducos (cf. Mt 19, 20) em que proporção dará aos que lhe sacrificarem até seus bens interiores e espirituais?!

138. Jesus, nosso divino amigo, deu-Se a nós sem reserva, Seu corpo e Sua alma, Suas virtudes, graças e méritos: “Ele ganhou-me inteiramente dando-Se inteiramente a mim”, diz São Bernardo. A justiça e a gratidão exigem, portanto, que Lhe demos tudo que pudermos. Foi Ele o primeiro a ser liberal para conosco; sejamos também generosos para com Sua liberalidade, durante a vida, na hora da morte e por toda a eternidade.

Esta devoção leva a imitar o exemplo dado por Jesus Cristo e a praticar a humildade

139. Segundo motivo, que nos mostra que é justo e vantajoso aos cristãos consagrar-se, por esta prática, inteiramente a Santíssima Virgem, a fim de pertencer mais perfeitamente a Jesus Cristo. Este bom Mestre não desdenhou encerrar-se no seio da Santíssima Virgem, como um cativo, um escravo amoroso, e submeter-se a Ela, obedecendo-Lhe durante trinta anos. Ele deu mais glória a Deus Seu Pai durante todo esse tempo de submissão a Santíssima Virgem, como não Lhe deu empregando os últimos três anos de Sua vida a fazer prodígios, e pregar por toda parte, a converter os homens. Oh! que grande glória damos a Deus, submetendo-nos a Maria, a exemplo de Jesus. Com um exemplo tão visível e conhecido por todo mundo, seremos insensatos a ponto de pensar que encontraremos um meio mais perfeito e mais certo submetendo-nos a Maria, a exemplo de seu Filho?

140. Lembremos aqui, para prova da dependência que devemos ter para com Maria, o que já ficou dito, (n. 14-39) citando os exemplos que nos dão o Pai, o Filho e o Espírito Santo nesta dependência. Deus Pai nos deu e nos dá seu Filho por Ela somente, só produz outros filhos por meio dEla, e só por intermédio dEla nos comunica suas graças. Deus Filho foi formado para todo o mundo, por Ela, e não é senão por Ela que é formado todos os dias, e gerado por Ela em união com o Espírito Santo. É Ela a única via pela qual nos comunica Suas virtudes e Seus méritos. O Espírito Santo formou Jesus Cristo por meio dEla, e por meio dEla forma os membros de Seu Corpo Místico, e só por Ela nos dispensa Seus dons e favores. Depois de exemplos tão claros e instantes, poderemos, sem uma extrema cegueira, prescindir de Maria, deixar de consagrar-nos a Ela e de depender dEla para irmos a Deus e a Ele nos sacrificarmos?
142. Deus, vendo que somos indignos de receber Suas graças diretamente de Suas mãos divinas, dá-as a Maria, a fim de obtermos por Ela o que Ele nos quer dar; e também redunda em glória para Ele, receber pelas mãos de Maria o reconhecimento, o respeito e o amor que Lhe devemos por Seus benefícios. É, pois, muito justo que imitemos o procedimento de Deus, a fim, diz São Bernardo, de que a graça volte a Seu autor pelo mesmo canal por onde veio. É o que fazemos por meio de nossa devoção: oferecemos e consagramos a Santíssima Virgem tudo o que somos e tudo o que possuímos, a fim de que Nosso Senhor receba por Sua mediação a glória e o reconhecimento que Lhe devemos. Reconhecemo-nos indignos e incapazes de, por nós mesmos, aproximar-nos de Sua Majestade Infinita; e por isso servimo-nos da intercessão da Santíssima Virgem.



Esta devoção nos proporciona as boas graças da Santíssima Virgem

144. Terceiro motivo. A Santíssima Virgem, Mãe de doçura e misericórdia, jamais se deixa vencer em amor e liberalidade. Vendo que alguém se Lhe entrega inteiramente, para honrá-La e servir-Lhe, despojando-se do que tem de mais caro, para com isso adorná-La, entrega-se também inteiramente e de um modo inefável, a quem tudo Lhe dá. Ela o faz imergir no abismo de Suas graças, e reveste-o de Seus merecimentos, lhe dá o apoio de Seu poder, ilumina-o com Sua luz, abrasa-o de Seu amor, comunica-lhe Suas virtudes: Sua humildade, Sua fé, Sua pureza, etc. Constitui-se Seu penhor, Seu suplemento, Seu tudo para com Jesus. Como, enfim, essa pessoa consagrada é toda de Maria, Maria também é toda dela; de modo que se pode dizer desse perfeito servo e filho de Maria o que São João Evangelista diz de si próprio, que ele A tomou como um bem, para sua casa. (Jo 19, 27) Oh! quão poderoso e forte é, para Jesus Cristo, quem está armado dos méritos e da intercessão da digna Mãe de Deus, que, como diz Santo Agostinho, venceu amorosamente o Todo Poderoso.



Maria purifica nossas boas obras, embeleza-as e as torna aceitáveis a seu Filho.

146. Esta bondosa Senhora purifica, embeleza e torna aceitáveis a Seu Filho todas as nossas boas obras, porque, por esta devoção, as damos todas a Ele pelas mãos de Sua Mãe Santíssima. 1º - Ela as purifica de toda mancha de amor-próprio e do apego imperceptível à criatura, apego que se insinua insensivelmente nas melhores ações. Desde que elas estão em Suas mãos puríssimas e fecundas, estas mesmas mãos, que não foram jamais manchadas nem ociosas, que purificam tudo que tocam, tiram do presente que Lhe fazemos tudo que pode deteriorá-lo ou torná-lo imperfeito.

148. 3º - Ela apresenta essas boas obras a Jesus Cristo, pois nada retém para Si do que Lhe ofertamos. Tudo remete fielmente a Jesus. Se algo Lhe damos a Ela, damos necessariamente a Jesus. Se A louvamos e glorificamos, logo Ela louva e glorifica a Jesus. Hoje como outrora, quando Santa Isabel A exaltou, Ela canta, quando A louvamos e bendizemos: “Engrandece a Minha alma ao Senhor. Lc 1, 46)

149. 4º - Faz Jesus aceitar essas boas obras, por pequeno e pobre que seja o presente que ofertamos ao Santo dos Santos e Rei dos reis. Quando apresentamos alguma coisa a Jesus, de nossa própria iniciativa e apoiados em nossa própria capacidade e disposição, Jesus examina o presente e muitas vezes o rejeita, em vista das manchas que a dádiva contraiu do nosso amor-próprio, como antigamente rejeitou os sacrifícios dos judeus por estarem cheios de vontade própria.

150. E como vimos (n. 146) a própria natureza não inspira aos pequenos como agir em relação aos grandes? Por que não há de levar-nos a graça a fazer o mesmo em relação a Deus, que está infinitamente acima de nós, e diante do qual somos menos que átomos? Tendo, além disso, uma Advogada tão poderosa que não foi jamais repelida; tão habilidosa que conhece os segredos para ganhar o Coração de Deus; tão boa e caridosa que não se esquiva a ninguém, por pequeno e mau que seja.
Esta devoção é um meio excelente de promover a maior glória de Deus

151. Quarto motivo. Esta devoção fielmente praticada é um excelente meio para fazer com que o valor de todas as nossas boas obras contribua para a maior glória de Deus. Quase ninguém age com este nobre intuito, apesar de a isto estar obrigado, ou porque não conhece em que consiste a maior glória de Deus, ou porque não a quer. Mas a Santíssima Virgem, a quem conferimos o valor de nossas boas obras, sabe perfeitamente em que consiste a maior glória de Deus e nada faz que não contribua para este fim. Daí, um perfeito servo dessa Amável Soberana, que a Ela se consagrou inteiramente, como dissemos, pode dizer ousadamente que o valor de todas as suas ações, pensamentos e palavras, é aproveitado para a maior glória de Deus, a não ser que revogue expressamente a intenção de sua oferta. Pode-se encontrar algo de mais consolador para uma alma que ama a Deus com um amor puro e desinteressado e que preza mais a glória e os interesses de Deus, que os seus próprios interesses?

Esta devoção conduz à união com Nosso Senhor

152. Quinto motivo. Esta devoção é um caminho fácil, curto, perfeito e seguro para chegar à união com Nosso Senhor, e nisto consiste a perfeição do cristão. É um caminho fácil; é um caminho que Jesus Cristo abriu quando veio a nós, e no qual não há obstáculo que nos impeça de chegar a Ele. Pode-se, é verdade, chegar a Ele por outros caminhos; mas encontram-se muito mais cruzes e mortes estranhas, e muito mais empecilhos, que dificilmente se vencem. Será preciso passar por noites obscuras, por combates e agonias terríveis, escalar montanhas escarpadas, pisando espinhos agudos, atravessar desertos horríveis. Enquanto que pelo caminho de Maria passa-se com muito mais doçura e tranqüilidade.

Esta devoção é um caminho curto.

155. Esta devoção a Santíssima Virgem é um caminho curto, para encontrar Jesus Cristo, seja porque dEle não nos extraviamos, seja porque, como acabo de dizer, nEle marchamos com mais alegria e facilidade e, conseqüentemente, com mais prontidão. Avançamos mais, em pouco tempo de submissão e dependência a Maria, do que em anos inteiros de vontade própria e contando apenas com o próprio esforço; pois o homem obediente e submisso a Maria Santíssima cantará vitórias (Prov. 21, 28) assinaladas sobre seus inimigos. Estes hão de querer impedi-lo de avançar, ou obrigá-lo a recuar, ou derrubá-lo; mas, apoiado, auxiliado e guiado por Maria, ele, sem cair, sem recuar, sem mesmo atrasar-se, avançará a passos de gigante em direção a Jesus Cristo, pelo mesmo caminho que, como está escrito, (Sl 18, 6) Jesus trilhou para vir a nós a largos passos e em pouco tempo.

Esta devoção é um caminho perfeito.

157. Esta prática de devoção a Santíssima Virgem é um caminho perfeito para ir e unir-se a Jesus Cristo, pois Maria é a mais perfeita e a mais santa das criaturas, e Jesus Cristo, que veio perfeitamente a nós, não tomou outro caminho em Sua grande e admirável viagem. O Altíssimo, o Incompreensível, o Inacessível, Aquele que É, quis vir a nós, pequenos vermes da terra, que nada somos. Como se fez isto? O Altíssimo desceu perfeita e divinamente até nós por meio da humilde Maria, sem nada perder de Sua divindade e santidade; e é por Maria que os pequeninos devem subir perfeita e divinamente ao Altíssimo sem recear coisa alguma. O Incompreensível deixou-se compreender e conter perfeitamente por Maria, sem nada perder de Sua Imensidade; é também pela pequena Maria que devemos deixar-nos conduzir e conter perfeitamente sem a menor reserva.

158. Ainda que me apresentem um caminho novo para ir a Jesus Cristo, e que esse caminho seja pavimentado com todos os merecimentos dos bem-aventurados, ornado de todas as suas virtudes heróicas, iluminado e decorado de todas as luzes e belezas dos anjos, e que todos os anjos e santos lá estejam para conduzir, defender e amparar aqueles e aquelas que o quiserem palmilhar; em verdade, em verdade, digo ousadamente, e digo a verdade, eu havia de preferir a este, tão perfeito, o caminho imaculado de Maria, (Sl 18, 33) via ou caminho sem a menor nódoa ou mancha, sem pecado original ou atual, sem sombras nem trevas; e quando meu amável Jesus vier, em sua glória, uma segunda vez à terra (como é certo) para aqui reinar, o caminho que escolherá será Maria Santíssima, o mesmo pelo qual ele veio com segurança e perfeitamente a primeira vez. A diferença entre a primeira e a última vinda é que a primeira foi secreta e oculta, e a segunda será gloriosa e retumbante; ambas, porém, são perfeitas, porque, como a primeira, também a segunda será por Maria. Eis um mistério que não podemos compreender.

Esta devoção é um caminho seguro.

159. Esta devoção a Santíssima Virgem é um caminho seguro para irmos a Jesus Cristo e adquirirmos a perfeição, unindo-nos a Ele: 1º - Porque esta prática, preconizada por mim, não é nova; é tão antiga, que não se pode, como diz Boudon, autor do livro intitulado “A santa escravidão da Admirável Mãe de Deus”, determinar-lhe com toda a precisão os começos. Em todo caso é certo que há mais de 700 anos encontram-se vestígios dela na Igreja.

Nosso próximo aufere grandes bens desta devoção

171. Sétimo motivo. O que pode ainda levar-nos a abraçar esta devoção são os grandes bens que por ela receberá nosso próximo. Pois, praticando-a, exercemos para com ela a caridade de uma maneira eminente, já que lhe damos pelas mãos de Maria o que temos de mais caro, isto é, o valor satisfatório e impetratório de todas as nossas boas obras, sem excetuar o menor dos bons pensamentos e o mais leve sofrimento; consentimos em que tudo que adquirimos, e que havemos de adquirir de satisfações, seja, até à hora da morte, empregado conforme à vontade da Santíssima Virgem, à conversão dos pecadores ou à libertação das almas do purgatório.

172. Para conhecer a excelência deste motivo, seria preciso conhecer o bem que é converter um pecador ou livrar uma alma do purgatório: bem infinito maior que criar o céu e a terra, pois que é dar a uma alma a posse de Deus. Mesmo que, por esta prática, não se livrasse mais que uma alma do purgatório, ou se convertesse apenas um pecador, não seria isto bastante para induzir todo homem verdadeiramente caridoso a abraçá-la? É preciso notar ainda que nossas boas obras, passando pelas mãos de Maria, recebem um aumento de pureza e, por conseguinte, de mérito e de valor satisfatório e impetratório; por isso elas se tornam muito mais capazes de aliviar os pecadores do purgatório e de converter os pecadores do que se não passassem pelas mãos virginais e liberais de Maria.

Esta devoção é um meio admirável de perseverança

173. Oitavo motivo. Finalmente, o motivo mais poderoso, que, de certo modo, nos induz a esta devoção a Santíssima Virgem, é constituir um meio admirável para perseverar na virtude e ser fiel. Como se explica que a maior parte das conversões dos pecadores não seja durável? Donde vem a facilidade de recair no pecado? Por que a maior parte dos justos, ao invés de avançar de virtude em virtude e adquirir novas graças, perdem muitas vezes o pouco de virtudes e graças que tinham? Esta infelicidade provém, como já o demonstrei, (v. n. 87-89) de que o homem, sendo tão corrompido, tão fraco e tão inconstante, fia-se em si próprio, e se crê capaz de guardar o tesouro de suas graças, virtudes e méritos. Por esta devoção confiamos à Santíssima Virgem, fiel por excelência, tudo o que possuímos; tomamo-La por depositária universal de todos os bens da natureza e da graça. É em Sua fidelidade que confiamos, no Seu poder que nos apoiamos, em Sua misericórdia e caridade que nos baseamos para que Ela conserve e aumente nossas virtudes e méritos, a despeito do demônio, do mundo e da carne, que envidam todos os esforços para no-los arrebatar. Dizemos-Lhe como um bom filho a sua mãe: “guardei o depósito”, (1Tm 6, 20) isto é, minha boa Mãe e Soberana, reconheço que até ao presente muito mais graças tenho de Deus recebido por vossa intercessão, do que mereço, e minha funesta experiência me ensina que bem frágil é o vaso em que guardo esse tesouro, e que por demais fraco e miserável eu sou, para conservá-lo em mim. Recebei em depósito tudo o que possuo, e conservai-o por Vossa fidelidade e Vosso poder. Se me guardardes, nada perderei; se me sustentardes, não cairei; se me protegerdes, estarei a salvo de meus inimigos.

177. Pobres filhos de Maria! Extrema é vossa fraqueza, grande, vossa inconstância, viciado, o vosso íntimo! Sois, eu o confesso, da mesma massa corrompida que os filhos de Adão e Eva; mas não percais por isso a coragem; consolai-vos, regozijai-vos: eis o segredo que vos ensino, segredo desconhecido de quase todos os cristãos, até dos mais devotos. Não deixeis vosso ouro e vossa prata nos cofres, já forçados pelo espírito maligno que vos roubou, cofres por demais exíguos e fracos e velhos para conter um tesouro tão grande e tão precioso. Não depositeis a água pura e cristalina da fonte em vossos vasos, machados e infeccionados pelo pecado. Pode ser que o pecado aí já não esteja, mas o odor permanece ainda e a água ficará contaminada. Não despejeis vosso vinho fino em velhos tonéis que já contiveram vinho ordinário: ficará estragado e o perdereis.

178. Embora me entendais, almas predestinadas, falo mais abertamente. Não confieis o ouro de vossa caridade, a prata de vossa pureza, as águas das graças celestes, nem o vinho de vossos méritos e virtudes a um saco roto, a um cofre velho e quebrado, a um vaso contaminado e corrompido, como vós sois; porque sereis pilhados pelos ladrões, isto é, os demônios, que buscam e espreitam, noite e dia, o momento próprio para o ataque; estragareis, com o mau odor do amor-próprio, da confiança própria e da vontade própria, tudo o que Deus vos dá de mais puro. Depositai, derramai no Seio e no Coração de Maria todos os vossos tesouros, todas as vossas graças e virtudes. Maria é um Vaso Espiritual, um Vaso Honorífico, um Vaso Insigne de Devoção. Depois que aí se encerrou o próprio Deus em pessoa, com todas as suas perfeições, este Vaso tornou-se todo espiritual, e a Morada Espiritual das almas mais espirituais. Tornou-se Honorável, e o Trono de Honra dos maiores príncipes da eternidade. Tornou-se Insigne na Devoção e a Morada dos mais ilustres em doçura, em graças e virtudes. Tornou-se, enfim, rico como uma Casa de Ouro, forte como a Torre de Davi, puro como uma Torre de Marfim.

Figura bíblica desta perfeita devoção: Rebeca e Jacó

183. De todas as verdades que acabo de descrever em relação a Santíssima Virgem, o Espírito Santo nos apresenta, na Sagrada Escritura, (Gn 27) uma figura admirável na história de Jacó, o qual recebeu a bênção de Isaac, graças à solicitude e engenho de sua mãe Rebeca:

1º - Esaú, figura dos réprobos.

1º - Esaú, o mais velho, era forte e robusto de corpo, destro e habilidoso no manejo do arco e na arte da caça. 2º - Quase não parava em casa e confiante em sua força e destreza, só trabalhava fora, ao ar livre. 3º - Pouco se incomodava de agradar a sua mãe Rebeca, e nada fazia por ela. 4º - Era guloso e gostava tanto de satisfazer o paladar, que chegou a vender seu direito de progenitura por um prato de lentilhas. 5º - Estava, como Caim, cheio de inveja de seu irmão Jacó, e o perseguia sem tréguas. Eis a conduta dos réprobos, todos os dias.

2º - Jacó, figura dos predestinados.

191. 1º - Jacó, o caçula, era de compleição franzina, meigo e sossegado. Permanecia em casa o mais possível, para ganhar as graças de sua mãe Rebeca, que o amava ternamente. Se saía de casa, não o fazia por vontade própria, nem por confiança em sua própria habilidade, mas para obedecer a sua mãe.

192. 2º - Amava e honrava sua mãe: por isso ficava em casa junto dela. Seu maior contentamento era vê-la; evitava tudo que pudesse desagradar-lhe e fazia tudo que imaginava agradar-lhe. Tudo isso concorria para aumentar em Rebeca o amor que dedicava ao filho.

193. 3º - Em todas as coisas ele era submisso a sua mãe, obedecia-lhe inteiramente em tudo, com obediência pronta, sem tardanças, e amorosa, sem queixas; ao menor sinal da vontade materna, o pequeno Jacó corria e trabalhava. Acreditava piamente, sem discutir, em tudo que a mãe lhe dizia: por exemplo, quando Rebeca o mandou buscar os dois cabritos, e ele os trouxe a fim de ela os preparar para Isaac, Jacó não replicou nem observou que bastava um para satisfazer o apetite de um só homem, mas, sem discernir, fez exatamente como ela mandou.

194. 4º - Ele depositava uma confiança sem limites em sua querida mãe; como não contava absolutamente com sua própria experiência, apoiava-se unicamente na proteção e nos desvelos maternos. Chamava por ela em todas as suas necessidades e consultava-a em todas as suas dúvidas: por exemplo, quando lhe perguntou se, em vez da bênção, não receberia a maldição de seu pai, creu e confiou na resposta que ela lhe deu de que tomaria sobre si a maldição.

A Santíssima Virgem e os seus escravos por amor

201. Eis, em seguida, os caridosos deveres que a Santíssima Virgem cumpre como a melhor das Mães, para com Seus fiéis servos, que a Ela se deram como indiquei, e conforme a figura de Jacó. “Eu amo aqueles que Me amam”. (Prov 8, 17) Ela os ama 1º - porque é sua verdadeira Mãe; ora, uma mãe ama sempre seu filho, o fruto de Suas entranhas; 2º - Ela os ama por reconhecimento, pois que eles efetivamente A amam como sua boa Mãe; 3º - Ela os ama, porque, sendo predestinados, Deus os ama: “amei Jacó, porém aborreci Esaú”; (Rm 9, 13) 4º - Ela os ama porque eles se Lhe consagraram, e porque são Sua partilha e herança.

202. Ela os ama ternamente, e com mais ternura do que todas as mães juntas. Acumulai, se puderdes, num só coração materno e por um filho único, todo o amor natural que todas as mães deste mundo têm por seus filhos: sem dúvida essa mãe amaria muito esse filho. É verdade, entretanto, que Maria ama ainda mais ternamente Seus filhos do que aquela mãe amaria o seu. Ela não os ama somente com afeição, mas também com eficácia. Seu amor por eles é ativo e efetivo, como aquele de Rebeca por Jacó e muito mais.

206. Esta boa Mãe, depois de receber a oferenda perfeita que Lhe fizemos de nós mesmos e de nossos próprios méritos e satisfações, pela devoção de que falei, depois de nos ter despojado de nossos antigos hábitos, nos limpa e nos torna dignos de aparecer diante de nosso Pai Celeste. 1º - Ela nos cobre com as vestes limpas, novas, preciosas e perfumadas de Esaú, o primogênito, isto é, de Jesus Cristo Seu Filho, daquelas vestes que Ela conserva em Sua casa, ou, por outra, em Seu poder, pois que é a Tesoureira, a Dispensadora universal dos méritos e virtudes de Seu Filho Jesus Cristo, dons que Ela dispensa e comunica a quem quer, quando quer, como quer, e em quanto quer, como já vimos acima (cf. n. 25 e 141)

207. Ela consegue-lhes, enfim, a bênção do Pai Celeste, se bem que eles sejam os segundos, os filhos adotivos e, portanto, não devessem recebê-la. Com essas roupas novas, preciosas e odorosas, e com seus corpos e almas bem preparados e dispostos, eles se aproximam confiantes do leito de repouso do Pai Celeste. Este os ouve e os reconhece pela voz, a voz do pecador; toca-lhes as mãos cobertas de pêlos; aspira o perfume que de suas vestes se desprende; come alegremente o que Maria Lhe preparou; e neles reconhecendo os méritos e o bom odor de seu Filho e de Sua Mãe Santíssima: 1º - dá-lhes Sua dupla bênção, bênção do orvalho do céu, isto é, da graça divina que é a semente da glória. Deus nos abençoou com toda a bênção espiritual em Cristo Jesus. (Ef 1, 3) Bênção da fertilidade da terra, (Gn 27, 28) em outras palavras, que este bom Pai lhes dá Seu pão cotidiano e uma abundância suficiente de bens deste mundo; 2º - Torna-os senhores de seus outros irmãos, os reprovados, embora esta primazia nem sempre transpareça neste mundo que passa num instante e no qual dominam muitas vezes os reprovados

208. O segundo dever de caridade que a Santíssima Virgem exerce para com Seus fiéis servos é provê-los de tudo para o corpo e para a alma. Ela lhes fornece as vestes duplas, como acabamos de ver; dá-lhes de comer os manjares mais finos da mesa de Deus; dá-lhes o Pão da Vida que Ela formou. (Ecli 24, 26) “Meus queridos filhos, lhes diz Ela, sob o nome da Sabedoria, enchei-vos de Meus frutos, isto é, de Jesus, o Fruto de Vida que Eu pus no mundo para vós. (Cant 5, 1) Vinde, lhes repete, comei do Meu Pão, que é Jesus, e bebei do Vinho de Seu amor, que para vós preparei com o leite de Meus seios. E como é a Tesoureira e a Dispensadora dos dons e das graças do Altíssimo, Ela toma uma boa porção, a melhor, para alimentar e sustentar Seus filhos e servos. Eles são fortalecidos com o Pão Vivo, embriagados com o Vinho que gera virgens; (cf. Zc 9, 17) são “levados ao seio”; (Is 66, 12) e têm tanta facilidade em carregar o jugo de Jesus Cristo, que quase não lhe sentem o peso, graças ao óleo da devoção com que Ela o faz apodrecer. (Is 10, 27)

Ela os conduz

209. O terceiro bem que a Santíssima Virgem faz a Seus fiéis servos é conduzi-los e dirigi-los conforme a vontade de Seu Filho. Rebeca conduzia o pequeno Jacó e de vez em quando lhe dava bons conselhos e deu-lhos tanto para ele atrair a bênção de Isaac, como para subtrair-se à fúria de Esaú. Maria, a Estrela do Mar, guia todos os Seus fiéis servos a bom porto; mostra-lhes os caminhos da vida eterna; desvia-os dos passos perigosos; leva-os pela mão nas sendas da justiça; sustém-nos quando estão prestes a cair; levanta-os quando caíram; repreende-os como mãe caridosa, quando comentem alguma falta e até, às vezes, os castiga amorosamente. Um filho que obedece a Maria, pode acaso errar o caminho que leva à eternidade? “Seguindo-a, não vos extraviareis”, diz São Bernardo. Não temais que um verdadeiro filho de Maria se deixe enganar pelo demônio e venha a cair em alguma heresia formal. Onde se manifesta a mão condutora de Maria, aí não se encontram nem o espírito maligno com suas ilusões, nem os hereges com seus sofismas.

Ela os defende e protege

210. O quarto favor que a Santíssima Virgem presta a Seus filhos e fiéis servos é defendê-los e protegê-los de seus inimigos. Rebeca, por seus cuidados e por sua habilidade livrou Jacó dos perigos que o ameaçavam e particularmente da morte que lhe jurara Esaú, e que, no auge da raiva e inveja que o dominavam, teria levado a termo, como outrora Caim a seu irmão Abel. Maria, a Mãe Misericordiosa dos predestinados, abriga-os sob as asas de sua proteção, como uma galinha aos pintinhos. Ela lhes fala, abaixa-se até a eles, é condescendente para com suas fraquezas, protege-os contra as garras do gavião e do abutre; acompanha-os como um exército em linha de batalha. (Ct 6, 3)


Ela intercede por eles

211. O quinto, enfim, e o maior bem que a Amabilíssima Maria proporciona a Seus fiéis devotos, é interceder por eles junto de Seu Filho, apaziguá-Lo por Suas preces, uni-los a Ele por um forte elo, e para Ele os conservar. Rebeca mandou a Jacó que se aproximasse do leito de Isaac; e o ancião tateou as mãos e os braços do filho, abraçou-o e beijou-o com alegria, mostrando-se contente e satisfeito com o acepipe que Jacó lhe apresentava. E ao aspirar com extrema satisfação o perfume que se evolava das vestes de Esaú, exclamou: “eis que o cheiro de meu filho é como o cheiro de um campo florido que o Senhor abençoou”. (Gn 27, 27) Este campo florido, cujo odor encanta o coração do pai, outro não é que o odor das virtudes e dos méritos de Maria, que é um campo cheio de graça, no qual Deus Pai semeou qual grão de trigo dos eleitos, o Seu Filho Único.

Efeitos maravilhosos que esta devoção produz numa alma que lhe é fiel:

Conhecimento e desprezo de si mesmo


1º - Pela luz que o Espírito Santo vos dará por intermédio de Maria, Sua Querida Esposa, conhecereis vosso fundo mau, vossa corrupção e vossa incapacidade para todo bem e, em conseqüência deste conhecimento, vos desprezareis e será com horror que pensareis em vós mesmos. Considerar-vos-eis como uma lesma asquerosa que tudo estraga com sua baba, como um sapo repugnante que tudo envenena com sua peçonha, ou como a serpente traiçoeira que só busca enganar. A humilde Maria vos dará, enfim, parte de Sua profunda humildade, com que vos desprezareis a vós mesmos, sem desprezar pessoa alguma e gostareis até de ser desprezados.

Participação da fé de Maria

214. 2º - A Santíssima Virgem vos dará uma parte na fé, a maior que já houve na terra, maior que a de todos os Patriarcas, Profetas, Apóstolos e todos os Santos. Agora, reinando nos céus, Ela já não tem esta fé, pois vê claramente todas as coisas em Deus, pela luz da glória. Com assentimento do Altíssimo Ela, entretanto, não a perdeu ao entrar na glória; guardou-a para Seus fiéis servos e servas na Igreja Militante. Quanto mais, portanto, ganhardes a benevolência desta Princesa e Virgem fiel, tanto mais profunda fé tereis em toda a vossa conduta: uma fé pura, que vos levará à despreocupação por tudo que é sensível e extraordinário; uma fé viva e animada pela caridade que fará com que vossas ações sejam motivadas por puro amor; uma fé firme e inquebrantável como um rochedo, que vos manterá firmes e contentes no meio das tempestades e tormentas; uma fé ativa e penetrante que, semelhante a uma chave misteriosa, vos dará entrada em todos os mistérios de Jesus Cristo, nos novíssimos do homem e no coração do próprio Deus; fé corajosa que vos fará empreender sem hesitações e realizar grandes coisas para Deus e a salvação das almas; fé, finalmente, que será vosso fanal luminoso, vossa via divina, vosso tesouro escondido da divina Sabedoria e vossa arma invencível, da qual vos servireis para aclarar os que jazem nas trevas e nas sombras da morte, para abrasar os tíbios e os que necessitam do ouro candente da caridade, para dar vida aos que estão mortos pelo pecado, para tocar e comover, por vossas palavras doces e poderosas, os corações de mármore e derrubar os cedros do Líbano e enfim, para resistir ao demônio e a todos os inimigos da salvação.

Graça do puro amor

215. 3º - Esta Mãe do amor formoso (Ecli 24, 24) aliviará vosso coração de todo escrúpulo e de todo temor servil; Ela o abrirá e alargará para correr pelo caminho dos mandamentos de Seu Filho (Sl 118, 32) com a santa liberdade dos filhos de Deus, e para nele introduzir o puro amor, de que Ela possui o tesouro; de tal modo que não mais vos conduzireis, como o fizestes até aqui, pelo receio ao Deus de caridade, mas pelo puro amor, unicamente. Passareis a olhá-Lo como vosso bondoso Pai, tratando de agradar-Lhe incessantemente; com Ele conversareis confidentemente, à semelhança de um filho com seu Pai. Se, por acaso, o ofenderdes, humilhar-vos-eis em continente diante dEle, pedindo-Lhe humildemente perdão; Lhe estendereis simplesmente a mão e vos levantareis amorosamente sem perturbação nem inquietação e sem desfalecimento continuareis a caminhar para Ele.

 
Grande confiança em Deus e em Maria

216. 4º - A Santíssima Virgem vos encherá de grande confiança em Deus e nEla: 1º - porque não vos aproximareis mais de Jesus Cristo por vós mesmo, mas sempre por intermédio desta bondosa Mãe; 2º - porque, tendo Lhe dado todos os vossos méritos, graças e satisfações, para que deles disponha à Sua vontade, Ela vos comunicará Suas virtudes e vos revestirá de Seus méritos, de sorte que podereis dizer confiantemente a Deus: “Eis Maria, vossa serva: faça-se em mim conforme a Vossa palavra; (Lc 1, 38) 3º - porque, desde que vos destes a Ela inteiramente, de corpo e alma, Ela, que é liberal com os liberais, e mais liberal que os próprios liberais, dar-Se-á a vós em troca, e isto de um modo maravilhoso, mas verdadeiro; assim podereis dizer-Lhe ousadamente: “Eu vos pertenço, Santíssima Virgem, salvai-me!” (Sl 118, 94) 4º - O que aumenta ainda vossa confiança nEla é que, tendo-Lhe dado em depósito tudo o que tendes de bom para dar ou guardar, confiareis menos em vós e muito mais nEla, que é vosso tesouro. Oh! que confiança e consolação para uma alma poder chamar também seu o Tesouro de Deus, onde Deus depositou o que tem de mais precioso! “Ela é”, diz um santo, “o Tesouro do Senhor”.



Comunicação da alma e do espírito de Maria

217. 5º - A alma da Santíssima Virgem se comunicará a vós para glorificar o Senhor; Seu espírito tomará o lugar do vosso para regozijar-se em Deus, contanto que pratiqueis fielmente esta devoção. Ah! Quando virá este tempo feliz em que Maria será estabelecida Senhora e Soberana nos corações, para submetê-los plenamente ao império de Seu Grande e Único Jesus? Quando chegará o dia em que as almas respirarão Maria, como o corpo respira o ar?

Transformação das almas em Maria à imagem de Jesus Cristo

218. 6º - Se Maria, que é a Árvore da Vida, for bem cultivada em nossa alma pela fidelidade às práticas desta devoção, Ela dará fruto em Seu tempo; e Seu fruto não é outro senão Jesus Cristo. Vejo tantos devotos e devotas que buscam Jesus Cristo, estes por uma via e uma prática, aqueles por outra; e muitas vezes depois de muito labutar durante a noite, podem dizer: “trabalhamos a noite inteira, nada apanhamos”. (Lc 5, 5) E pode-se responder-lhes “muito trabalhastes e pouco ganhastes”. Jesus Cristo está ainda muito fraco em vós. Mas, pelo caminho imaculado de Maria e por esta prática divina que ensino, trabalha-se durante o dia, trabalha-se num lugar santo, trabalha-se pouco. Em Maria não há noite, pois Ela jamais pecou, nem teve sequer a sombra do pecado. Maria é um Lugar Santo, o Santo dos Santos, em que se formam e modelam os santos.

219. Notai, se vos apraz, que eu digo que os santos são moldados por Maria. Há grande diferença entre executar uma figura em relevo, a martelo e a cinzel, e executá-la por molde. Os escultores e estatuários têm de esforçar-se muito para fazer uma figura da primeira maneira e gastam muito tempo; mas, da segunda, trabalham pouco e terminam em pouco tempo. S. Agostinho chama a Santíssima Virgem de “o Molde de Deus”; o molde próprio para formar e moldar deuses. Aquele que é lançado no molde divino fica em breve formado e moldado em Jesus Cristo e Jesus Cristo nele: com pouca despesa e em pouco tempo, ele se tornará deus, pois foi lançado no mesmo molde que formou um Deus.

A maior glória de Jesus Cristo

222. 7º Por esta prática, fielmente observada, dareis a Jesus Cristo mais glória em um mês, que por qualquer outra, embora mais difícil, em muitos anos. – Eis as razões do que afirmo: 1º - Porque, fazendo vossas ações pela Santíssima Virgem, como esta prática ensina, abandonais vossas próprias intenções e operações, ainda que boas e conhecidas, para vos perder, por assim dizer, nas da Santíssima Virgem, embora as desconheçais; e por aí entrais a participar da sublimidade de Suas intenções, que foram tão puras, que Ela deu mais glória a Deus, pela menor das Suas ações, por exemplo, fiando na Sua roca, dando um ponto de agulha, do que um São Lourenço estendido na grelha, por seu cruel martírio.

223. 2º - Porque uma alma, por esta prática, considerando nada tudo o que pensa ou faz por si mesma e pondo todo o seu apoio e complacência nas disposições de Maria, para aproximar-se de Jesus Cristo e até para falar-Lhe, pratica mais humildade que as almas que agem por si mesmas, que se apóiam e comprazem nas próprias disposições. Conseqüentemente, ela glorifica mais altamente a Deus, que só é glorificado perfeitamente pelos humildes e pequenos de coração.

224. 3º - Porque a Santíssima Virgem, querendo, por Sua grande caridade, receber em Suas mãos virginais o presente de nossas ações, dá-lhes uma beleza e brilho admiráveis; Ela mesma as oferece a Jesus Cristo, e Nosso Senhor é assim mais glorificado que se nós Lhas oferecêssemos por nossas mãos criminosas.

225. 4º - Enfim, porque nunca pensais em Maria, sem que Ela, em vosso lugar, pense em Deus. Nunca a louvais nem honrais, sem que Ela convosco louve e honre a Deus. Maria está toda em conexão com Deus, e com toda a propriedade eu A chamaria a relação de Deus, que só existe em referência a Deus, o Eco de Deus, que só diz e repete Deus. Santa Isabel louvou Maria e chamou-A Bem-aventurada, porque Ela creu, e Maria, o Eco Fiel de Deus, entoou: “Minha alma glorifica o Senhor”. (Lc 1, 46) O que fez nessa ocasião, Maria o faz todos os dias; quando a louvamos, amamos, honramos ou Lhe damos algo, Deus é louvado, amado, honrado e recebe por Maria e em Maria.

Práticas particulares desta devoção

Práticas exteriores

226. Se bem que o essencial desta devoção consista no interior, ela conta também práticas exteriores que é preciso não negligenciar (Mt 23, 23) tanto, porque as práticas exteriores bem feitas ajudam as interiores, como porque relembram ao homem, que se conduz sempre pelos sentidos, o que fez ou deve fazer; também porque são próprias para edificar o próximo que as vê, o que já não acontece com as práticas puramente interiores. Nenhum mundano, portanto, critique, nem meta aqui o nariz, dizendo que a verdadeira devoção está no coração, que é preciso evitar exterioridades, que nisto pode haver vaidade, que é preferível ocultar cada um sua devoção, etc. Respondo-lhes com meu Mestre: “Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus”. (Mt 5, 16) Não quer isto dizer, como observa S. Gregório, que devamos fazer nossas ações e devoções exteriores para agradar aos homens e daí tirar louvores, o que seria vaidade; mas fazê-las às vezes diante dos homens, com o fito de agradar a Deus e glorificá-Lo, sem preocupar-nos com o desprezo ou os louvores dos homens.



Consagração, depois dos exercícios preparatórios

227. Primeira prática. Aqueles e aquelas que quiserem adotar esta devoção, que não está erigida em confraria, como seria de desejar, depois de ter, como já disse na primeira parte desta preparação ao Reino de Jesus Cristo, empregando ao menos doze dias em desapegar-se do espírito do mundo, contrário ao de Jesus Cristo, dedicarão três semanas a encher-se de Jesus Cristo por intermédio da Santíssima Virgem.

228. Durante a primeira semana aplicarão todas as orações e atos de piedade para pedir o conhecimento de si mesmos e a contrição por seus pecados. Tudo farão em espírito de humildade. Pedirão a Nosso Senhor e a Seu Espírito Santo que os esclareça, dizendo: “Senhor, que eu veja; ou “que eu me conheça”; ou “vinde Espírito Santo”, e dirão todos os dias a Ladainha do Espírito Santo e a oração que segue. Recorrerão a Santíssima Virgem e Lhe pedirão esta grande graça que deve ser o fundamento das outras, e para isso recitarão todos os dias o “Ave, Estrela do Mar” e as Ladainhas.

229. Durante a segunda semana, aplicar-se-ão em todas as suas orações e obras cotidianas, em conhecer a Santíssima Virgem. Implorarão este conhecimento ao Espírito Santo. Poderão ler e meditar o que já dissemos a respeito. Recitarão, como na primeira semana, as ladainhas do Espírito Santo, o “Ave, Estrela do Mar”, e mais um rosário todos os dias, ou pelo menos o terço, nesta intenção.

230. A terceira semana será empregada em conhecer Jesus Cristo. Poderão ler e meditar o que dissemos neste sentido, e recitar a oração de santo Agostinho, inserida no número 67. Poderão, com o mesmo santo, dizer e repetir centenas de vezes por dia: “Senhor, que eu vos conheça”, ou então: “Senhor, fazei que eu veja quem sois”. Como nas semanas precedentes, recitarão as ladainhas do Espírito Santo, o “Ave, Estrela do Mar” e as ladainhas do Santíssimo Nome de Jesus.

231. Ao fim destas três semanas, confessar-se-ão e comungarão na intenção de se darem a Jesus Cristo na condição de escravos por amor, pelas mãos de Maria. E depois da comunhão, que cuidarão de fazer conforme o método que segue, (v. n. 266) recitarão a fórmula de consagração, que se encontra também adiante. Será necessário que a assinem no mesmo dia em que a fizerem.

232. Nesse dia, será bom renderem algum tributo a Jesus Cristo e à sua Mãe Santíssima, seja em penitência de sua infidelidade passada às promessas do Batismo, seja em sinal de sua dependência do domínio de Jesus e de Maria. Ora, esse tributo será conforme a devoção e capacidade de cada um: jejum, mortificação, esmola, um círio. Ainda que não dêem mais que um alfinete em homenagem, contanto que o dêem de bom coração, é o bastante para Jesus, que só olha a boa vontade.

233. Todos os anos, ao menos, no mesmo dia, renovarão a consagração, observando as mesmas práticas durante três semanas.

234. Segunda prática. Recitar todos os dias da sua vida a Coroinha da Santíssima Virgem: três Pai Nossos e doze Ave-Marias, em hora dos doze privilégios e grandezas da Santíssima Virgem. (P.223)

236. Terceira prática. É louvável trazer, como símbolo da amorosa escravidão, sinais exteriores, como o uso de uma correntinha, etc.

241. Permiti caríssimo amigo, que me una aqui ao Espírito Santo, para dar-vos o mesmo conselho: “Suas cadeias são cadeias de salvação” (Ecli 6, 31) Jesus pendente da Cruz deve atrair tudo a Si, e tudo, de bom ou mau grado, será atraído. Do mesmo modo Ele atrairá os réprobos pelas correntes de seus pecados, para acorrentá-los como forçados e demônios, à sua ira eterna e à sua justiça vingadora. Nos últimos tempos, porém, atrairá especialmente os predestinados, pelas cadeias da caridade:

242. Esses amorosos escravos de Jesus Cristo ou “acorrentados de Jesus Cristo”, (Ef 3, 1) podem usar suas cadeias ou ao pescoço, ou no braço, ou na cintura, ou nos pés.

Devoção especial ao mistério da Encarnação

243. Quarta prática. Terão uma devoção especial pelo mistério da Encarnação do Verbo, a 25 de março, que é o mistério adequado a esta devoção, pois que esta devoção foi inspirada pelo Espírito Santo: 1º - para honrar e imitar a dependência em que Deus Filho quis estar de Maria, para glória de Deus Seu Pai e para nossa salvação; dependência que transparece particularmente neste mistério em que Jesus se torna cativo e escravo no seio de Maria Santíssima, aí dependendo dEla em tudo; 2º - para agradecer a Deus as graças incomparáveis que concedeu a Maria, principalmente por tê-La escolhido para Sua Mãe digníssima, escolha feita neste mistério. São estes os dois fins principais da escravização a Jesus Cristo em Maria. No dia 25 de março, todos os membros da Arquiconfraria de Maria, Rainha dos corações, podem ganhar uma indulgência plenária.

246. Como o principal mistério que se celebra e honra nesta devoção, é o mistério da Encarnação, no qual só se pode contemplar Jesus em Maria, e encarnado em seu seio, é mais adequado dizer-se “a escravidão de Jesus em Maria”, de Jesus residindo e reinando em Maria. Conforme a bela oração de tantos homens célebres: “Ó Jesus vivendo em Maria, vinde e vivei em nós, em Vosso Espírito de Santidade”, etc.

247. Este modo de falar patenteia ainda mais a união íntima entre Jesus e Maria. Tão intimamente estão unidos que um é tudo no outro: Jesus é tudo em Maria e Maria é tudo em Jesus; ou, melhor, Ela já não existe, mas Jesus somente nEla, e antes se separaria do sol a luz, do que apartar Maria de Jesus. É assim que se pode chamar Nosso Senhor “Jesus de Maria”, e a Santíssima Virgem “Maria de Jesus”.

248. Jesus atende sempre a Sua querida Mãe e concede sempre Sua graça e Sua misericórdia aos pobres pecadores: “Cheguemo-nos, pois, confiadamente, ao trono da graça”. (Hb 4, 16) É o trono de sua liberalidade para Maria, porque este novo Adão, enquanto permaneceu nesse verdadeiro Paraíso Terrestre, aí realizou ocultamente tantas maravilhas que nem os anjos nem os homens as compreendem; por isso os santos chamaram Maria a Magnificência de Deus, como se Deus só fosse Magnífico em Maria. (Is 33, 21) É o Trono de Sua Glória para Seu Pai, pois foi em Maria que Jesus Cristo acalmou perfeitamente Seu Pai irritado contra os homens; que Ele recuperou perfeitamente a glória que o pecado Lhe tinha arrebatado e que, pelo sacrifício que neste mistério fez da Sua vontade e de Si mesmo, Lhe deu mais glória como jamais Lhe deram todos os sacrifícios da antiga lei e, finalmente, Lhe deu uma glória infinita como ainda não recebera de criatura humana.

Grande devoção à Ave-Maria e ao Terço

249. Quinta prática. Terão grande devoção ao recitar a Ave-Maria, ou a Saudação Angélica, da qual bem poucos cristãos, mesmo esclarecidos, conhecem o valor, o mérito, a excelência e a necessidade. Foi preciso que a Santíssima Virgem aparecesse várias vezes a grandes santos muito doutos, para demonstrar-lhes o mérito desta pequena oração, como sucedeu a S. Domingos, a S. João Capistrano, ao bem-aventurado Alano de la Roche. E eles compuseram livros inteiros sobre as maravilhas e a eficácia da Ave-Maria, para conversão das almas. Altamente publicaram e pregaram que a salvação do mundo começou pela Ave-Maria, e a salvação de cada um em particular está ligada a esta prece; que foi esta prece que trouxe à terra seca e árida o fruto da vida, e que é esta mesma prece que deve fazer germinar em nossa alma a palavra de Deus e produzir o fruto da vida, Jesus Cristo; que a Ave-Maria é um orvalho celeste, que umedece a terra, isto é, a alma, para fazer brotar o fruto no tempo adequado; e que uma alma que não for orvalhada por esta prece ou orvalho celeste não dará fruto algum, nem dará senão espinhos, e não estará longe de ser amaldiçoada. (Hb 6, 8)

251. Não sei como isto acontece nem por que; entretanto é verdade, e não conheço melhor segredo para verificar se uma pessoa é de Deus, do que examinar se gosta ou não de rezar a Ave-Maria e o terço. Digo gosta, pois pode acontecer que alguém esteja na impossibilidade natural ou até sobrenatural de dizê-la, mas sempre a ama e a inspira aos outros.

Recitação do Magnificat

255. Sexta prática. Para agradecer a Deus pelas graças que concedeu a Santíssima Virgem, dirão freqüentemente o Magnificat, a exemplo da Bem-aventurada Maria d’Oignies e de muitos outros santos. É a única oração e a única obra composta por Maria, ou melhor, que Jesus fez por meio dEla, pois, Ele fala pela boca de Sua Mãe Santíssima. É o maior sacrifício de louvor que Deus já recebeu na lei da graça. É, de um lado, o mais humilde e o mais reconhecido e, do outro, o mais sublime e mais elevado de todos os cânticos. Há neste cântico mistérios tão grandes e tão ocultos, que os próprios anjos ignoram.

256. Sétima prática. Os fiéis servos de Maria devem desprezar, odiar e fugir ao mundo corrompido, e servir-se das práticas de desprezo pelo mundo, que assinalamos na primeira parte.

Práticas especiais e interiores para os que querem se tornar perfeitos

257. Além das práticas exteriores da devoção que vimos referindo, as quais não se deve omitir por negligência ou desprezo, na medida em que o estado e as condições de cada um o permitam, acrescentamos algumas práticas interiores assaz santificantes para aqueles chamados pelo Espírito Santo a mais alta perfeição. Consiste, em quatro palavras, em fazer todas as suas ações por Maria, com Maria, em Maria e para Maria, a fim de fazê-las mais perfeitamente por Jesus, com Jesus, em Jesus e para Jesus.

Fazer todas as ações por Maria.

258. 1º - É preciso fazer todas as ações por Maria, quer dizer, em todas as coisas obedecer à Santíssima Virgem, e em tudo conduzir-se por Seu espírito, que é o Santo Espírito de Deus. “São filhos de Deus os que se conduzem pelo Espírito de Deus”. (Rm 8, 14)

259. Para que a alma se deixe conduzir por este espírito de Maria, é mister: 1º - Renunciar ao próprio espírito, às próprias luzes e vontades, antes de qualquer coisa: por exemplo, antes da oração, antes de dizer ou ouvir a santa missa, antes de comungar, etc. pois, as trevas de nossa vontade própria, se bem que nos pareçam boas, poriam obstáculo ao Santo Espírito de Maria. 2º - É preciso entregar-se ao Espírito de Maria para ser por ele movido e conduzido como Ela quiser. Cumpre colocar-se e permanecer entre Suas mãos virginais como um instrumento nas mãos de um operário, como uma cítara nas mãos de um artista. 3º - É preciso, de tempos em tempos durante uma ação ou depois, renovar o ato de oferecimento e de união. Quanto mais o fizermos, mais cedo nos santificaremos e mais cedo chegaremos à união com Jesus Cristo, que segue sempre necessariamente a união com Maria, pois, o Espírito de Maria é o Espírito de Jesus.


Fazer todas as ações com Maria.

260. 2º - É mister fazer todas as ações com Maria, isto é, em todas as ações olhar Maria como modelo acabado de todas as virtudes e perfeições que o Espírito Santo formou numa pura criatura e imitá-lo, na medida de nossa capacidade. Cumpre, portanto, que, em cada ação, consideremos como Maria a fez ou faria, se estivesse em nosso lugar. 2º - Sua humildade profunda que A levou a esconder-se, a calar-se, a submeter-se a tudo e a colocar-se em último lugar; 3º - sua pureza virginal, que jamais teve nem terá semelhante sob o céu e por fim, todas as suas outras virtudes. Lembrai-vos, repito-o uma segunda vez, de que Maria é o grande e único Molde de Deus próprio para fazer imagens vivas de Deus, com pouca despesa e em pouco tempo; e que uma alma que encontrou este Molde, e que nele se perde, fica em breve mudada em Jesus Cristo, aí representado ao natural.

Fazer todas as ações em Maria.

Para compreender cabalmente esta prática, é necessário saber que a Santíssima Virgem é o verdadeiro Paraíso Terrestre do novo Adão, de que o antigo paraíso terrestre é apenas figura. Há, portanto, neste Paraíso Terrestre, riquezas, belezas, raridades e doçuras inexplicáveis, que o Novo Adão, Jesus Cristo, aí deixou. Neste Paraíso Ele pôs Suas complacências durante nove meses, aí operou Suas maravilhas e aí acumulou riquezas com a magnificência de um Deus. Este Lugar Santíssimo é formado de uma Terra Virgem e Imaculada, da qual se formou e nutriu o Novo Adão, sem a menor mancha ou nódoa, por operação do Espírito Santo que aí habita. É neste Paraíso Terrestre que está em verdade a Árvore da Vida que produziu Jesus Cristo, o Fruto da Vida; a Árvore da Ciência do Bem e do Mal, que deu a luz ao mundo. Há, neste Lugar Divino, árvores plantadas pela mão de Deus e orvalhadas por sua unção divina, árvores que produziram e produzem todos os dias, frutos maravilhosos de um sabor divino.

263. Mas quão difícil é a pecadores, como somos, alcançar a permissão e a capacidade e a luz para entrar em Lugar tão Alto e tão Santo, guardado não por um querubim, como o antigo paraíso terrestre, mas pelo próprio Espírito Santo, que nEle se tornou o Senhor absoluto. Maria é fechada; Maria é selada; os miseráveis filhos de Adão e Eva, expulsos do paraíso terrestre, só têm acesso a este Outro Paraíso por uma graça especial do Espírito Santo, a qual devem merecer.

264. Depois que, pela fidelidade, obtivermos esta graça insigne, é com complacência que devemos morar no belo interior de Maria, aí repousar em paz, aí apoiar-nos com toda a confiança, aí seguramente esconder-nos e perder-nos sem reserva, a fim de que neste seio virginal: 1º - a alma se alimente do leite de Sua graça e de Sua misericórdia maternal; 2º - aí fique livre de suas perturbações, de seus temores e escrúpulos; 3º - aí esteja em segurança, ao abrigo de todos os seus inimigos, o demônio, o mundo e o pecado, que aí não tem jamais entrada; e por isso Ela diz que os que operam nEla, não pecarão: isto é, os que em espírito, habitam a Santíssima Virgem, não cometerão pecado grave; (Ecli 24, 30) 4º - para que a alma fique formada em Jesus e Cristo e Jesus Cristo nela; porque o Seu Seio, como dizem os Santos Padres, é a Sala dos Sacramentos Divinos, onde Jesus Cristo e todos os eleitos se formaram.

Fazer todas as ações para Maria.

265. 4º - É preciso fazer finalmente todas as ações para Maria. Porque desde que nos entregamos completamente a Seu serviço, é justo que façamos tudo para Ela, como um criado, um servo, um escravo. Não a tomamos, porém, como fim último de nossos serviços, que é somente Jesus Cristo, mas como fim próximo, intermédio misterioso e o meio mais fácil de chegar a Ele. A exemplo de um bom servo e escravo é preciso que não fiquemos ociosos e sim que, apoiados por Sua proteção, empreendamos e realizemos grandes coisas para tão augusta Soberana. É preciso defender Seus privilégios quando alguém os disputar; sustentar Sua glória, quando alguém A atacar; atrair todo o mundo, se for possível, ao Seu serviço e a esta verdadeira e sólida devoção; falar, clamar contra todos os que abusem de Sua devoção para ultrajar Seu Filho; e ao mesmo tempo estabelecer esta verdadeira devoção. E como recompensa destes pequenos serviços, não devemos pretender mais que a honra de pertencer a uma Princesa tão amável, e a felicidade de, por meio dEla, ficarmos unidos a Jesus Cristo, Seu Filho, com um liame indissolúvel no tempo e na eternidade.

Glória a Jesus em Maria!
Glória a Maria em Jesus!
Glória a Deus somente!


A preparação

Primeira parte: Os doze dias preliminares

Tema: O espírito do mundo

Examine sua consciência , reze, pratique a renuncia da sua própria vontade; mortificação, pureza do coração. Esta pureza é a condição indispensável para contemplar a Deus no céu, vê-Lo na terra e conhecê-Lo à luz da fé. A primeira parte da preparação deverá ser empregada em esvasiar-se do espírito do mundo, que é contrário ao Espírito de Jesus Cristo. O espírito do mundo consiste, em essência, na negação do domínio supremo de Deus, negação que se manifesta na prática do pecado e na desobediência. Portanto, é totalmerte oposto ao Espírito de Jesus Cristo, que é também o de Maria. Isso se manifesta pela concupiscência da carne, pela concupiscência dos olhos e pelo orgulho como norma de vida, assim como pela desobediência às leis de Deus e ao abuso das coisas criadas. Suas obras são o pecado em todas as suas formas; consequentemente, tudo aquilo pelo qual o demônio nos leva ao pecado; obras que conduzem ao erro e à escuridão da mente, à sedução e corrupção da vontade. Suas presunções são o esplendor e as artimanhas empegadas pelo demônio para fazer com que o pecado seja deleitoso nas pessoas, lugares e coisas.



Orações iniciais

para todos os dias da Primeira Parte:

- Vinde Espírito Criador – p. 258-259 do “Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem”.
- Ave, Estrela do Mar – p. 261
- Magníficat – p. 299

Meditações para os primeiros 12 dias

1º Dia. Fazer as orações iniciais.
Meditar - Mt 5, 1-19

2º Dia. Fazer as orações iniciais.
Meditar - Mt 5,48; 6,1-15

3º Dia. Fazer as orações iniciais.
Meditar - Mt 7,1-14

4º Dia. Fazer as orações iniciais.

Que o homem de si nada tem de bom, nem coisa alguma de que se gloriar. Senhor, que é o homem para que Vos lembreis dele? E que é o filho do homem para que o visiteis? (Sl 8,5) Que merecimento tinha o homem para que lhe desses a Vossa graça? De que poderei queixar-me Senhor, se me desamparardes? Ou que terei justamente que dizer se não fizerdes o que eu peço? Por certo que não posso pensar, nem dizer com verdade, senão isto: “nada sou, Senhor, nada posso, nada de bom tenho de mim, de tudo que é bom acho-me vazio e caminho sempre para o nada. E se não for ajudado e fortalecido interiormente por Vós, logo cairei na tibieza e na dissipação. Vós, porém, Senhor, sempre sois o mesmo e permaneceis eternamente bom, justo e santo, agindo sempre com bondade, com justiça e santidade e ordenando tudo com sabedoria”. (Sl 101,27)

Mas eu, que mais pendo para o mal que para o bem, não persevero por muito tempo no mesmo estado e mudo muitas vezes durante o dia. Contudo, logo me acho menos fraco quando Vos dignais estender-me Vossa mão auxiliadora; porque apenas Vós, sem humano favor, me podeis socorrer e fortificar, de tal sorte que não seja mais sujeito a todas essas mudanças, e meu coração para Vós se converta e em Vós descanse para sempre. (Imitação de Cristo, l. 3, c. 50, 1-2)

Quem se considera seguro em tempo de paz se achará tímido e covarde em tempo de guerra. Se souberes viver sempre humilde e pequeno no teu conceito, contendo-te nos limites da justa moderação, não cairás tão de pressa na tentação e no pecado. Quando te achares penetrado de grande fervor de espírito, é bom meditar no que será de ti retirando-se esta graça. (Im. de Cristo, l. 3,c.7, 4)

5º Dia. Fazer as orações iniciais.

Se eu soubesse desprezar todas as consolações humanas, seja para adquirir o santo fervor, seja pela infeliz necessidde que me obriga a buscar em Vós a verdadeira consolação que nenhum homem pode dar-me, então teria eu grande motivo para esperar com razão a Vossa graça e para alegrar-me com o dom de uma nova consolação.

Graças Vos dou, Senhor, por seres a fonte de onde dimana todo o bem que me sucede. Eu, homem inconstante e frágil, não sou na Vossa presença, mais que um nada e uma pura vaidade. De que posso eu, pois, gloriar-me, ou com que motivo desejo ser estimado? Acaso, por ser um nada? Porém, que coisa mais insensata e vaidosa! A vanglória é, na verdade, uma peste detestável e um mal terrrível, porque nos aparta da verdadeira glória e nos despoja da graça celestial. Desde que o homem se compraz em si mesmo, começa a desagradar-Vos; e logo que aspira aos louvores humanos perde a autentica virtude.

A verdadeira glória e a santa alegria consistem em se gloriar cada um, em Vós e não em si; em alegrar-se de Vossa grandeza e não de sua própria virtude; em não achar prazer em criatura humana senão por amor de Vós. Seja louvado Vosso nome e não o meu; engrandecidas sejam as Vossas obras e não as minhas. Louvem e abençoem todos os homens a Vossa grandeaza e nada participe eu de seus louvores. Vós sois a minha glória, Vós sois a alegria do meu coração. Todo dia me gloriarei e alegrarei em Vós; pois, em minha vida nada tenho em que me gloriar, senão em minhas fraquezas (2Cor 12,5) Im. de Cristo, l.3, c.50, 3-5)

6º Dia. Fazer as orações iniciais.

Do exemplo dos Santos Padres. Considere bem os heróicos exemplos dos Santos Padres, nos quais resplandece a verdadeira perfeição da vida religiosa e verá quão pouco ou nada é o que fazemos. Ai de nós! Que é a nossa vida comparada com a deles? Os santos e amigos de Cristo serviram o Senhor em fome, em sede, em frio e nudez, em trabalhos, em fadigas, em vigílias e jejuns, em rezas e santas meditações, em perseguições e muitos opróbrios.

Oh! Quantas e quão graves tribulações padeceram os Apóstolos, os Mártires, os Confessores, as Virgens, e todos os demais que quiseram seguir as pisadas de Cristo! “Pois, aborreceram neste mundo suas vidas para as possuirem na eternidade”. (Jo 12,25) Que vida de renúncia e austeridade foi a dos Santos Padres no deserto! Que longas e graves tentações padeceram! Quantas vezes foram atormentados pelo inimigo! Quão fervorosas e contínuas orações ofereceram a Deus! Quão rigorosas abstinências praticaram! Que zelo, que ardor em seu aproveitamento espiritual! Que forte guerra contra suas paixões! Que intenção pura e reta semprte dirigida a Deus. De dia trabalhavam e passavam as noites em larga oração; ainda que trabalhando, não interrompiam a sua oração mental.

Todo o tempo gastavam santamente: as horas lhes pareciam curtas para se darem a Deus; e pela grande doçura da contemplação se esqueciam da necessária refeição do corpo. Renunciavam a todas as riquezas, honras, dignidades, parentes e amigos: nada queriam do mundo; apenas tomavam o necessário para a vida, e lhes era pesado servir ao corpo, ainda nas coisas necessárias. De modo que eram pobres das coisas da terra, porém riquíssimos de graças e virtudes. (Im de Cristo, l. 1, c.18, 1-3)

7º Dia. Fazer as orações iniciais.

No exterior tudo lhes faltava; Mas interiormente Deus os fortificava com Sua graça, recreava com Suas consolações. Eram estranhos ao mundo, mas íntimos e particulares amigos de Deus. Tinham-se por nada a si mesmos e o mundo os tratava com desprezo, mas aos olhos de Deus eram preciosos e amados. Estavam em verdadeira humildade, viviam em singela obediência; por isso a cada dia cresciam em espírito e alcançavam muita graça diante de Deus.

Foram dados por exemplo a todos os religiosos e mais nos devem mover para aproveitarmos no bem, que a multidão dos tíbios para afroxar-nos em nossos exercícios. Oh! Quão grande foi o fervor de todos os religiosos no princípio dos seus sagrados institutos. Quanto ardor na oração! Quanto zelo na virtude! Que severidade na disciplina! Como florescia a submissão e a obediência à regra do santo fundador. O que ainda nos resta deles nos atesta a santidade e a perfeição daqueles homens insígneis que pelejando esforçadamente pisaram aos pés o mundo. Agora já se estima em muito aquele que não transgride a regra e se, com paciência, pode sofrer algum dissabor. Oh! Tibieza e negligência de nosso estado, que tão depressa declinamos do fervor primitivo e já nos é molesto o viver, em consequência da frouxidão e tibieza. Praza a Deus que, tendo visto tantos exemplos de santos homens, de todo se não acabe em ti o desejo de aproveitar nas virtudes. (Im. de Cristo, l. 1, c. 18, 3-6)

8º Dia. Fazer as orações iniciais.

A resistência às tentações. Enquanto vivemos no mundo não podemos estar sem trabalhos e tentações. Por isso, está escrito no Livro de Jó: “a vida do homem sobre a terra é uma contínua tentação”. Cada qual, pois, deve ser muito cuidadoso nas tentações, procurando vigilante na oração, não dar lugar às ilusõeas do Demônio, “que nunca dorme, nem cessa de andar à roda das almas para as devorar”. (1Pd 5,8). Ninguém há tão santo e tã perfeito que não tenha algumas vezes tentações e não podemos viver sem elas.

Se bem que inoportunas e penosas as tentações são muitas vezes utilíssimas ao homem, porque através delas se humilha, se instrui e se purifica. Todos os santos passaram por muitas tentações e trabalhos e foi assim que progrediram na santidade. E os que não quiseram suportá-los, falharam e condenaram-se. Não há Ordem tão santa, nem lugar tão retirado onde não haja tentações e adversidades. Nenhum homem está inteiramente livre de tantações enquanto viver. Porque em nós mesmos está a causa de onde elas vêm, pois, nascemos com inclinação ao pecado.

Passada uma tentação ou tribulação, sobrevém outra, e sempre teremos que sofrer, porque se perdeu o bem de nossa primeira felicidade. Muitos querem fugir às tentações e caem nelas mais gravemente. Mas não é fugindo que podemos vencê-las, porém é com paciência e verdadeira humildade que nos fazemos mais fortes que todos os nossos inimigos. Quem somente evita as ocasiões exteriores e não arranca o mal pela raiz, pouco proveitará; antes lhe tornarão mais depressa as tentações e se achará pior que antes. Com a ajuda de Deus, mais facilmente vencerás com pciência e perseverança, do que com teu próprio esforço e fadiga.

Toma muitas vezes conselho na tentação e não sejas desabrido e áspero com o que está tentado, antes procura consolá-lo como quiseras ser consolado. O princípio de toda tentação é a inconstância de ânimo e a pouca confiaça em Deus. Como um navio sem leme é levado pelas ondas em todas as direções, assim o homem negligente e inconstante em seus propósitos é tentado de todas as maneiras. (Im. De Cristo, l. 1, c. 13, 1-5)

9º Dia. Fazer as orações iniciais.

O fogo prova o ferro e as tentações, o justo. Muitas vezes não sabemos o que podemos, mas as tentações nos mostram o que somos. Devemos, pois, vigiar, principalmente no princípio da tentação, porque mais facilmente se vence o inimigo quando não o deixamos passar pela porta da alma e lhe saimos ao encontro logo que bate. Donde veio a dizer o poeta: “resiste no princípio! Tarde chega o remédio se já, por largo tempo, o mal lançou raízes”.

Porque, primeiramente se oferece à alma um simples pensamento; depois, a importuna imaginação; logo, o prazer, o movimento desordenado e o consentimento da vontade. Assim, pouco a pouco entra o inimigo e se apodera de tudo, porque não se lhe resistiu no princípio. E quanto mais preguiçoso for o homem em resistir-lhe, tanto se fará cada dia mais fraco e o inimigo contra ele, mais poderoso. Alguns padecem graves tentações no princípio de sua conversão, outros no fim, muitos por toda a vida. Alguns são tentados brandamente, segundo a sabedoria e a equidade da Divina Providencia que pondera o estado e os méritos dos homens e tudo ordena para a salvação de seus escolhidos.

Por isso não devemos desconfiar quando somos tentados, mas antes rogar a Deus com maior fervor para que se digne ajudar-nos em toda a tribulação. Porque segundo o dito de São Paulo “nos dará o auxílio jundo com a tentação, para que lhe possamos resistir”. (1Cor 10,13) “Humilhemos, pois, nossas almas debaixo da mão de Deus em toda tribulação e tentação, porque ele há de salvar e engrandecer os humildes de espírito”. (Sal 33,19) É nas tentações e nos revezes que o homem verifica quanto progrediu. Por elas maior se torna o mérito e melhor se revelam as virtudes. (Im. De Cristo, l. 1, c. 13, 5-7)


10º Dia. Fazer ao orações iniciais.

Desprezando-se o mundo é suave servir a Deus. Outra vez falarei agora, Senhor, e não me calarei. Direi a meu Deus, Senhor e meu Rei, assentado no trono dos céus: “Ó Senhor, quão grande é a abundância de Vossa doçura que reservais para os que Vos temem. O que não será, pois, para os que Vos amam e Vos servem de todo coração”? (Sal 30,20) Na verdade são inefáveis as delícias de que inundais os que vos amam, quando sua alma Vos contempla. Eis que mostrastes singularmente a ternura de Vosso amor. Quando não existia me criaste; quando andava errante me chamastes a Vós para que Vos servisse e me pusestes o doce preceito de Vos amar.

Ó fonte de amor perene! Que direi de Vós? Poderei eu esquecer-me de Vós, que Vos dignastes lembrar de mim quando eu jazia no abismo da corrupção e da morte? Usastes de mirericórdia com Vosso servo sobre toda esperança e além de todo merecimento me concedestes Vossa graça e amizade. Com que Vos agradecerei Senhor, tão singulasr favor? Porque nem a todos é permitido deixar tudo, renunciar ao mundo para abraçar a vida religiosa. Por ventura é grande coisa que eu Vos sirva, quando toda criatura está obrigada a Vos servir? Conheço que não faço coisa grande em Vos servir. Mas o que me enche da mais profunda admiração e que meu conceito parece grande, é que Vos digneis receber-me ao Vosso serviço e unir-me com Vossos amados servos, sendo eu tão pobre e tão indigno desta honra.

Vossas são, pois, todas as coisas que tenho e ainda o serviço que Vos faço é um dom que me concedeis. Eu devia fazer tudo por Vosso amor e sucede que mais servis Vós a mim do que eu a Vós. Criastes para o serviço do Homem o céu e a terra, que estão sempre em Vossa presença e fazem cada dia o que lhes mandais. E isto ainda é pouco, pois, até haveis destinado os anjos para o servirem.

Mas não pára aqui Vossa bondade infinita, pois, Vos dignastes servir ao homem e lhe prometestes que Vos daríeis a ele com toda Vossa glória. Que Vos darei, meu Deus, por tantos milhares de benefícios? Oh! Se eu pudesse servir-Vos dignamente um só dia! Em verdade só Vós sois digno de ser por todos servido, honrado e louvado eternamente. Vós sois na realidade, meu Senhor e eu Vosso pobre escravo, obrigado a servir-Vos com todas as minhas forças, sem jamais me cançar de publicar Vossos louvores.

Assim o quero, assim o desejo. Dignai-Vos suprir por Vossa graça, o que me falta para cumprir este meu desejo. Que honra, Senhor, que glória não é servir-Vos e desprezar tudo por amor a Vós! Inúmeras graças receberão aqueles que voluntariamente se sujeitarem a Vós. Acharão a suavíssima consolação do Espírito Santo os que, por Vosso amor, desprezarem todos os atrativos da carne. (Im. De Cristo, l. 3, c. 10, 1-50)

11º Dia. Fazer as orações iniciais.

Da fervorosa emenda de toda nossa vida. Um homem que flutuava muitas vezes cheio de ansiedade, entre o temor e a segurança, estando um dia oprimido de tristeza entrou numa Igreja e prostrando-se diante do altar pra fazer sua oração, dizia e repetia consigo mesmo: oh! se eu soubesse que deveria perseverar! Logo ouviu no íntimo da alma esta divina resposta: que farias se isso soubesses? Faça agora o que desejarias fazer e estarás seguro.

No mesmo instante, consolado e fortalecido se ofereceu à divina vontade e cessou sua ansiosa turbação. Nem quis curiosamente esquadrinhar o que lhe havia de seceder; aplicou-se unicamente a conhcer a vontade de Deus e o que a Seus divinos olhos fosse mais ageradável e perfeito para começar a perfazer toda a boa obra. “Espera no Senhor, diz o profeta. Faze boas obras, habitarás em paz a terra e serás alimentado com Suas riquezas.” (Sl 36,3)

Uma coisa resfria em alguns o ardor de aproveitar e de se emendar. O receio das dificuldades ou o trabalho da peleja. Certamente aproveitam mais nas virtudes aqueles que com maior empenho trabalham para vencer-se a si mesmos naquilo que lhes é mais penoso e contraria mais as suas inclinações. Porque o homem tanto mais aproveita e tanto maior graça alcança, quanto mais se vence a si mesmo e se mortifica no espírito.

Porém, nem todos tem igual ânimo para vencer-se e mortificar-se. Mas o inteligente e zeloso imitador de Cristo mais forte será para o seu aproveitamento ainda que seja combatido de muitas paixões do que o que tem dom natural, se é menos fervoroso em adquirir as virtudes. (Im. De Cristo, l.1, c,25, 2-4)

12º Dia. Fazer as orações iniciais.

Mas se vires alguma coisa digna de repreensão, guarda-te de fazê-la. E se em igual falta caíste, procura emendar-te logo dela. Assim como tu observas os outros, assim também eles te observam. Oh! que coisa alegre e doce é ver os devotos e fervorosos irmãos com santos costumnes e bem disciplinados. Pelo contrário, que triste e penoso é vê-los andar desordenados e sem se ocuparem nos compromissos de sua vocação! Quão nocivo é ser descuidado no propósito de sua vocação e cuidadoso no que Deus não ordena.

Lembra-te do propósito que tomaste e propõe-te por modelo a Cristo Crucificado. Com razão te podes envergonhar, considerando a vida de Jesus Cristo, de não ter feito até aqui bastante esforço para te conformares com ela, estando a tanto tempo no caminho de Deus. O religioso que devota e cuidadosamente se exercita a meditar na santíssima vida e dolorosa paixão do Senhor acha nela com abundância, tudo que é útil e necessário para sua santificação. E não precisa buscar coisa nenhuma melhor fora de Jesus Cristo.

Oh! se Jesus Crucificado viesse a nosso coração, quão depressa e completamente seríamos ensinados! O homem fervoroso e diligente está preparado para tudo. Maior trabalho é resistir aos vícios e paixões, que suar nos trabalhos corporais. “Quem não evita as faltas pequenas, pouco a pouco cai nas grandes”. (Ecl 29,1) Alegrar-te-ás sempre à noite, se empregares com fruto teu dia. Vigia sobre ti, exórta-te, admoesta-te e, aconteça o que acontecer aos outros, não te descuides de ti mesmo. Tanto aproveitarás quanto for a violência que fizeres a ti mesmo. (Im. De C, l. 1, c. 25, 5-6,11)




Segunda Parte

O conhecimento de si mesmo

Nesta etapa, que a rigor é a primeira semana de preparação, as orações, os exames de consciência, as reflexões, os atos de renúncia à nossa própria vontade, de arrependimento pelos nossos pecados e de desprezo de si mesmo, serão realizados todos aos pés de Maria, já que por Ela esperamos obter a luz para conhecermos a nós mesmos. Somente junto a Ela poderemos medir o abismo de nossas misérias sem nos desesperarmos.

Devemos empregar todas as nossas ações piedosas para pedir o autoconhecimento e o arrependimento por nossos pecados. Devemos fazer isso com um profundo espírito de piedade. Durante este período consideraremos tanto a oposição que existe entre o Espírito de Jesus e o nosso, como o miserável e humilde estado a que nos reduziram nossos pecados. Além disso, sendo a verdadeira devoção a Maria, uma maneira fácil, curta, segura e perfeita para chegar a essa união com Nosso Senhor, que é a perfeição à imitação de Cristo, entraremos decididamente por este caminho, firmemente convencidos de nossa miséria e incapacidade. Mas como poderíamos conseguir isso sem o conhecimento de nós mesmos?

Durante a primeira semana aplicarão todas as suas orações e atos de piedade para pedir o conhecimento de si mesmos e a contrição por seus pecados. Tudo farão em espírito de humildade. Para isso poderão, se quiserem, meditar sobre o que ficou dito sobre o nosso fundo de maldade, e considerar-se, nos seis dias desta semana, como uma lesma, um sapo, um porco, uma serpente, um bode; ou então, estas tres palavras de São Bernardo: “pensa no que foste: um pouco de lodo; no que és: um vaso de escórias; no que serás: pasto de vermes”.

Pedirão a Nosso Senhor e a seu Espírito Santo que os esclareça, dizendo: “Senhor, fazei que eu veja”. (Lc 18,41) Ou, “que eu me conheça” (S. Agostinho), ou “Vinde Espírito Santo”. Recorrerão a Santíssima Virgem e Lhe pedirão esta grande graça que deve ser o fundamento das outras e para isso recitarão todos os dias o “Ave, Estrela do Mar” e as ladainhas. (Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem, p. 228)

Orações iniciais para todos os dias da segunda parte

- Ladainha do Espírito Santo. (P. 262)
- Ladainha de Nossa Senhora. (p. 267)
- Ave, Estrela do Mar. (p. 261)

13º Dia. Fazer as orações iniciais.

Um dia, num certo lugar, estava Jesus a rezar. Terminando a oração disse-Lhe um de seus discípulos: Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou a seus discípulos. Disse-lhes Ele, então: quando orardes, dizei: Pai, satificado seja o Vosso nome; venha o Vosso Reino; dai-nos hoje o pão necessário ao nosso sustento; perdoai-nos os nossos pecados, pois, também nós perdoamos aqueles que nos ofenderam; e não nos deixeis cair em tentação.

Em seguida ele continuou: se alguém de vós tiver um amigo e for procurá-lo à meia noite e lhe disser: amigo empresta-me três pães, pois, um amigo meu acaba de chegar à minha casa de uma viagem e não tenho nada para lhe oferecer. E se ele responder lá de dentro: não me encomodes, a porta já está fechada, meus filhos e eu já estamos deitados. Não posso levantar-me para te dar os pães. Eu vos digo: no caso de não se levantar para lhe dar os pães por ser seu amigo, certamente por causa da sua importunação se levantará e lhe dará quantos pães necessitar. Eu vos digo; pedi e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei e abrir-se-vos-á. Pois, todo aquele que pede, recebe; aquele que procura, acha; e ao que bater, se lhe abrirá. (Lc 11,1-10)

14º Dia. Fazer as orações iniciais.

Da obediência do súdito humilde, conforme o exemplo de Jesus Cristo. Filho, quem procura apartar-se da obediência, aparta-se também da graça. E quem procura o seu bem particular, priva-se dos bens comuns gerais. Quando alguém não se sujeita de bom grado a seu superior, sinal é que sua carne ainda não obedece perfeitamente, mas que se rebela ainda muitas vezes contra o espírito. Aprende, pois, a submeter-te prontamente a teu superior se desejas ter a tua carne sujeita. Porque o inimigo de fora é bem depressa vencido, quando o homem não tem a guerra dentro de si mesmo.

Não há inimigo maior nem mais perigoso para a tua alma do que tu mesmo. È necessário que te desprezes a ti mesmo, se queres vencer a carne e o sangue. Mas por que ainda te amas desordenadamente, por isso receias sujeitar-te de todo à vontade dos outros. Ora, que haverá de especial em que tu, pó e cinza, te submetas ao homem por amor de Deus, quando Eu, Onipotente e Altíssimo, que tudo criei do nada, Me sujeitei ao homem por teu amor? Fiz-Me o mais humilde e abatido de todos, para que minha humildade te ensinasse a vencer a tua soberba. Aprende a obedecer, pó soberbo, aprende, barro e lodo, a humilhar-te e a meter-te debaixo dos pés de todos. Aprende a quebrantar tua vontade e a fazer-te vítima da obediência. (Im. de Cristo, l. 3, c. 13, 1-2)

15º Dia. Fazer as orações iniciais.

Neste mesmo tempo contavam alguns o que tinha acontecido a certos galileus, cujo sangue Pilatos misturara com o seus sacrifícios. Jesus toma a palavra e lhes pergunta: pensai vós que estes galileus foram pecadores maiores do que todos os outros galileus, por terem sido tratados desse modo? Não, vos digo. Mas se não vos arrependerdes, perecereis todos do mesmo modo. Ou cuidais que aqueles dezoito homens, sobre os quais caíu a torre de Siloé e os matou, foram mais pecadores do que todos os demais habitantes de Jerusalém? Não, vos digo. Mas se não vos arrependerdes, perecereis todos do mesmo modo. (Lc 13, 1-5)

Precisamos de Maria para morrermos para nós mesmos. Para despojar-nos de nós mesmos é preciso que todos os dias morramos para nós. Isto é, impota renunciarmos às operações das faculdades da alma e dos sentidos do corpo. Precisamos ver como se não víssemos, ouvir como se não ouvíssemos, servir-nos das coisas deste mundo como se não o fizéssemos, (1Cor 7, 29-31) o que São Paulo chama morrer todos os dias: “morro a cada dia”. (1Cor 15,31)

“Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica só e não produz fruto apreciável”. (Jo 12,24-25) Se não morrermos a nós mesmos, se as mais santas devoções não nos levarem a esta morte necessária e fecunda, não produziremos fruto que valha, nossas devoções serão inúteis, todas as nossas obras de justiça ficarão manchadas por nosso amor próprio e nossa própria vontade e Deus abominará os maiores sacrifícios e as melhores ações que possamos fazer. Na hora da morte teremos as mãos vazias de virtudes e méritos e não brilhará em nós a menor centelha do puro amor, que só é comunicado às almas mortas a si mesmas, almas cuja vida está oculta com Jesus Cristo, em Deus. (Col 3,3”) (Trat. Da Verd. Devoção a Santíssima Virgem, p. 81)

É preciso escolher entre todas as devoções a Santíssima Virgem a que nos leva com mais certeza a este aniquilamento do próprio eu. Esta será a devoção melhor e mais santificante, pois, é mister reconhcer que nem tudo que luz é ouro, nem tudo que é doce é mel e nem tudo o que é fácil de fazer e praticar é o mais santificante. Do mesmo modo que a natureza tem segredos para fazer em pouco tempo, sem muitos gestos e com facilidade, certas operações naturais, há segredos na ordem da graça pelos quais se fazem em pouco tempo, com doçura e facilidade, operações sobrenaturais, como despojar-nos de nós mesmos, encher-nos de Deus e tornar-nos perfeitos. (Trat. Da Verd. Dev. A Santíssima Virgem, p. 82)

16º Dia. Fazer as orações iniciais.

Recordar que durante a primeira semana aplicarão todas as suas orações e atos de piedade para o conhecimento de si mesmos e a contrição por seus pecados. Tudo farão em espírito de humildade. Por isso poderão, se quiserem, meditar sobre o que ficou dito sobre o nosso fundo de maldade e considerar-se nos seis dias desta semana, como uma lesma, um sapo, um porco, uma serpente, um bode; ou então estas três palasvras de São Bernardo: “pensa no que foste: um pouco de lodo; no que es: vaso de escórias; no que serás: pasto de vermes”.

Pedirão a Nosso Senhor e ao Seu Espírito Santo que os esclareça, dizendo: “Senhor, fazei que eu veja”, (Lc 18,41); ou, “que eu me conheça”. (S. Agostinho); ou, “vinde Espirito Santo”. Recorrerão a Santíssima Virgem e Lhe pedirão esta grande graça que deve ser o fundamento das outras e para isso recitarão todos os dias o “Ave, Estrela do Mar” e as ladaínhas. Trat. da V. D. a Santíssima Virgem, p. 228)

Da consideração de si mesmo. Não devemos demasiadamente confiar em nós mesmos porque muitas vezes nos faltam a graça e o discernimento. Pouca luz há em nós e esse pouco perdemo-lo depressa por nosso descuido. Muitas vezes também agimos mal e, ainda pior, nos desculpamos. Outras vezes somos levados pela paixão e julgamos que é zelo. Repreendemos nos outros as faltas pequenas e desculpamos as nossas, mesmo as mais graves. Mui depressa sentimos e nos magoamos com o que sofremos dos outros. Mas não pensamos muito no quanto os outros sofrem por causa de nós. O que bem e retamente examinar as suas ações, não terá que julgar severamente as alheias. (Im. de Cristo, l. 2, c. 5, 1)

17º Dia. Fazer as orações iniciais.

Do Juízo e penas dos pecadores. Em todas as coisas olha o fim e como te encontrarás diante daquele retíssimo Juiz, para quem nada está oculto, que não se abranda com presentes, nem admite desculpas, mas julgará segundo a justiça. Ó néscio e miserável pecador! Que responderás a Deus que sabe todas as tuas maldades, tu que às vezes temes o rosto de um homem irado? Por que não te acautelas para o dia do Juízo, quando ninguém poderá ser desculpado, nem defendido por outrem, mas cada um terá bastante que fazer por si? (Im. de Cristo. l. 1, c. 24,1)

Jesus disse também a Seus discípulos: havia um homem rico que tinha um administrador. Este lhe foi denunciado de ter dissipado os seus bens. Ele chamou o administrador e lhe disse: que é que ouço dizer de ti? Presta contas de tua administração, pois já não poderás administrar meus bens. O administrador refletiu, então, consigo: que farei, visto que meu patrão me tira o emprego. Lavrar a terra, não posso; mendigar, tenho vergonha, Já sei o que vou fazer para que haja quem me receba em sua casa, quando eu for despedido do emprego.

Chamou, pois, separadamente cada um dos devedores de seu patrão e perguntou ao primeiro: quanto deves ao teu patrão? Ele respondeu: cem medidas de azeite. Disse-lhe: toma a tua conta, senta-te depressa e escreve cinquenta. Depois, perguntou ao outro: tu, quanto deves? Respondeu: cem medidas de trigo. Disse-lhe o administrador: toma os teus papéis e escreve, oitenta. E o proprietário admirou a astúcia do administrador, porque os filhos deste mundo são mais prudentes do que os filhos da luz, no trato com os seus semelhantes. (Lc 16,1-8)

18º Dia. Fazer as orações iniciais.

Jesus disse também a Seus discípulos: é impossível que não haja escândalos, mas ai daquele por quem eles vêm! Melhor lhe seria que se lhe atasse em volta do pescoço uma pedra de moínho e que fosse lançado ao mar, do que levar para o mal a um só destes pequeninos. Tomai cuiado de vós mesmos. Se teu irmão pecar, reprende-o; se se arrepender, perdoa-lhe. Se pecar sete vezes por dia contra ti e se sete vezes no dia vier procurar-te, dizendo: estou arrependido, perdoar-lhe-ás.

Os Apóstolos disseram ao Senhor: aumenta-nos a fé! Disse o Senhor: se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta amoreira: arranca-te e transplanta-te no mar e ela vos obedecerá. Qual de vós, tendo um servo ocupado em lavrar ou em guardar o gado, quando voltar do campo lhe dirá: vem depressa sentar-te à mesa? E não lhe dirá ao contrário: prepara-me a ceia, cinge-te e serve-me, enquanto como e bebo e deppois disso comerás e beberás tu? E se o servo tiver feito tudo o que lhe ordena, por ventura fica-lhe o Senhor devendo alguma obrigação? Assim também vós, depois de terdes feito tudo o que vos for ordenado, dizei: somos servos como quaisquer outros; fizemos o que devíamos fazer. (Lc 17,1-10)

Devem sofrer todos os males temporais, na esperança dos bens eternos. Filho não esmoreças nos trabalhos que por Mim empreendeste, nem te desanimes com as tribulações, mas em tudo que te acontece, minhas promessas te consolem e te fortifiquem. Eu Sou assaz poderoso para te dar uma recompensa sem limite e sem medida. Os trabalhos que agora padeces não serão dilatados, nem sempre viverás oprimido de dores. Espera um pouco e verás como depressa passam os males. Virá uma hora em que cessará todo o trabalho e inquietação. Sempre é breve tudo o que passa com o tempo. (Im. de Cristo, l. 3, c.47,1)

19º Dia. Fazer as orações iniciais.

Trouxeram-lhe também criancinhas, pra que ele as tocasse. Vendo isso os discípulos as repreendiam. Jesus, porém, as chamou e dísse: deixai vir a mim as criancinhas e não as impessais, porque o Reino de Deus é daqueles que se parecem com elas. Em verdade vos digo: quem não receber o Reino de Deus como uma criancinha, nele não entrará. Um homem de posição perguntou então a Jesus: Bom Mestre, que devo fazer para possuir a vida eterna?

Jesus respondeu-lhe: por que me chamas bom? Ninguém é bom senão só Deus. Conheces os mandamentos: não cometerás adultério; não matarás; não dirás falso testemunho; honrarás pai e mãe. Disse ele: tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade. A esta palavra Jesus lhe falou: ainda te falta uma coisa: vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me. Ouvindo isso ele se entristeceu, pois era muito rico. Vendo-o entristecer-se, disse Jesus: como é difícil aos ricos entrar no Reino de Deus. É mais fácil passsar o camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus.

Perguntaram os ouvintes: quem, então, poderá salvar-se? Respondeu Jesus: o que é impossível aos homens é possível a Deus. Pedro, então, disse: vê, nós abandonamos tudo e te seguimos. Jesus respondeu: em verdade vos declaro: ninguém há que tendo abandonado por amor do Reino de Deus, sua casa, sua mulher, seus irmãos, seus pais e seus filhos, que não receba muito mais neste mundo e no mundo vindouro a vida eterna. (Lc 18,15-30) 



Terceira Parte

O conhecimento de Maria

Os atos de amor, os afetos piedosos a Santíssima Virgem, devem ser sempre acompanhados por um esforço de nossa parte em imitar suas virtudes.. Especialmente Sua humildade profunda, Sua fé viva, Sua obediência cega, Sua contínua oração mental, Sua mortificação em todas as coisas, Sua caridade ardebnte, Sua paciência heróica, Sua pureza incomparável, Sua doçura angelical e Sua sabedoria divina; que, como disse São Luis Maria Grignion de Monfort, constituem as dez virtudes principais da Santíssima Virgem.

Temos que nos unir a Jesus por Maria, esta é a característica de nossa devoção; portanto, Monfort nos pede que nos apliquemos a fundo para adquirir um conhecimento da Santíssima Virgem. Maria é nossa Soberana e nossa Medianeira, nossa Mãe e nossa Senhora. Esforcemo-nos, pois, em conhecer os efeitos dessa realeza, desta Mediação e desta Maternidade, assim como as grandezas e prerrogativas que são os fundamentos ou as consequências deles.

Nossa Mãe Santíssima também é perfeita. Um Molde no qual podemos ser moldados para poder fazer nossas Suas intenções e disposições. Mas não conseguiremos isto sem estudar a vida interior de Maria, ou seja, Suas virtudes, Seus sentimentos, Suas ações, Sua participação nos mistérios de Jesus Cristo e Sua união com Ele.

Orações iniciais Para todos os dias da terceira parte:

Ladaínha do Espírito Santo. p. 262.
Ladaínha de Nossa Senhora. p. 267.
Ave Estrela do Mar. p. 261.

Oração a Maria, de S. L. M. Grignion de Monfort:

Ave Maria Filha bem amada do Pai Eterno. Ave Maria Mãe Admirável do Filho. Ave Maria Esposa Fidelíssima do Espírito Santo. Ave Maria minha querida Mãe, minha amável Senhora e Poderosa Soberana. Ave minha alegria, minha glória, meu coração e minha alma. Vós me pertenceis toda por misericórdia e eu Vos pertenso todo por justiça. Mas não Vos pertenso bastante ainda. De novo me dou a Vós todo inteiro, na qualidade de escravo perpétuo, sem nada reservar para mim ou para outrem.

Se vedes em mim qualquer coisa que não Vos pertença, eu Vos suplico de tirá-la agora e de Vos tornar Senhora absoluta de tudo o que possuo.; de destruir e de desarraigar tudo o que desagrada a Deus e de plantar tudo e promover e operar tudo o que Vos agradar. Que a luz de Vossa fé dissipe as trevas do meu espírito; que Vossa humidade profunda tome o lugar do meu orgulho; que Vossa contemplação sublime suste as distrações de minha imaginação vagabunda; que Vossa vista contínua de Deus encha a minha memória de Sua presença; que o incêndio do Vosso Coração dilate e abrase a tibieza e frieza do meu; que Vossas virtudes substituam os meus pecados; que Vossos méritos sejam o meu ornamento e suplemente perante Deus.

Enfim, mui querida e bem amada Mãe, fazei, se possível for, que não tenha outro espírito senão o Vosso, para conhecer Jesus Cristo e Suas divinas vontades; que não tenha outra alma senão a Vossa, para louvar e glorificar o Senhor; que não tenha outro coração senão o Vosso para amar a Deus com um amor puro e ardente como Vós. Não Vos peço visões ou revelações, ou gozos, ou mesmo prazeres, nem mesmo espirituais. É privilégio Vosso ver claramente, sem amargor; triunfar gloriosamente à direita de Vosso Filho no Céu, sem humilhação alguma; dominar absolutamernte sobre os anjos, os homens e os demônios, sem resistência e, enfim, de dispor de todos os bens de Deus, sem restrição alguma.

Eis, Divina Maria a ótima parte que o Senhor Vos deu e que não Vos será tirada; e isto me deleita sobre maneira. Por minha parte não quero nesta terra senão o que Vós tivestes, a saber: crer puramente sem nada gozar ou ver; sofrer alegremente sem consolação de criaturas; morrer continuamente a mim mesmo sem relaxamento e trabalhar resolutamente até a morte por Vós, sem interesse algum, como o mais vil dos escravos.

A única classe que Vos peço, por pura misericórdia, e que, a todos os dias e momentos de minha vida, eu diga três vezes, amém: assim seja a tudo o qaue fizesrtes na terrra enquanto nela vivestes. Assim seja a tudo o que fazeis agora no Céu. Assim seja a tudo o que operais em minha alma a fim de que nela só Vós estejais para glorificar plenamente a Jesus em mim, no tempo e na eternidade. Assim seja.
(Rezar também, todos os dias antes ou depois destas orações, o Santo Rosário, meditando profundamente ao menos os cinco mistérios gozosos e os cinco mistérios correspondentes a cada dia)

Meditação

20º Dia. Fazer as orações iniciais.

Foram com grande pressa e acharam Maria, José e o Menino, deitado na mangedoura. Vendo-o contaram o que se lhes havia dito a respeito deste Menino. Todos os que O ouviam admiravam-se das coisas que lhes contavam os pastores. Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração. Voltaram os pastores glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham ouvido e visto e que estava de acordo com o que lhes fora dito.

Completados que foram, os oito dias para ser circumcisado o Menino, foi-Lhe posto o nome de Jesus, como Lhe tinha chamado o Anjo, antes de ser concebido no seio materno. (Lc 2,16-21) Tendo Ele atingido doze anos subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa. Acabados os dias da festa, quando voltavam, ficou o Menino Jesus em Jerusalém, sem que os pais o percebessem. Pensando que e Ele estivesse com seus companheiros de comitiva, andaram caminho de um dia e o buscaram entre os parentes e conhecidos.. Mas não O encontrando, voltaram a Jerusalém à procura dEle.

Três dias depois, o acharam no templo, sentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os. Todos os que o ouviam estavam maravilhados da sabedoria das suas respostas. Quando eles o viram, ficaram admirados. E Sua Mãe lhe disse: Meu Filho, que nos fizestes! Eis que teu Pai e Eu andávamos a Tua procura, cheios de aflição. Respondeu-lhes Ele: por que me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de Meu Pai? Eles, porém, não compreenderam o que Ele lhes dissera. Em seguida desceu com Eles a Nazaré e Lhes era submisso. Sua Mãe guardava todas estas coisas no Seu coração. E Jesus crescia em estatura, em sabedoria e graça diante de Deus e dos homens. (Lc 2,42-52)

21º Dia. Fazer as orações iniciais.

A verdadeira devoção a Santíssima Virgem. Para subir e unir-se a Jesus é preciso se valer do mesmo meio que Ele usou para descer a nós, para fazer-se homem e para nos comunicar Suas graças e este meio é a verdadeira devoção a Santíssima Virgem. Há muitas devoções a Santíssima Virgem e, verdadeiras: pois, não falo aqui das falsas. Consiste a primeira em cumprir com os deveres de cristão, evitando o pecado mortal, operando mais por amor do que por temor, rogando de tempo em tempo a Santíssima Virgem e honrando-A como Mãe de Deus, sem nenhuma outra devoção especial a Ela.

A Segunda, tem para com a Virgem mais altos sentimentos de estima, amor, veneração e confiança; induz a entrar nas confrarias do Santo Rosário e do Escapulário, a rezar a Coroa ou o Santo Rosário: a honrar as imagens e os altares de Maria, a publicar seus louvores, a alistar-se em suas congregações. Todas estas devoções são boas. Desde que nos abstenhamos de pecar é boa, santa e louvável. Mas não tanto como a que segue, para afastar as almas das criaturas e desprendê-las dc si mesmas, afim de uni-las a Jesus Cristo.

A terceira maneira de devoção a Santíssima Virgem, conhecida e praticada por muito poucas pessoas é, almas predestinadas, a que vou lhes revelar. Consiste em dar-se todo inteiro como escravo, a Maria e a Jesus por Ela. E além disso, a fazer todas as coisas com Maria, em Maria, por Maria e para Maria. É preciso escolher um dia determinado para entregar-se, consagrar-se e sacrificar-se; E isso terá que ser voluntariamente e por amor, por inteiro e sem reserva alguma: corpo e alma; bens exteriores e riqueza, tais como casa, família, rendimentos, etc. e bens interiores da alma a saber: seus méritos, graças, virtudes e satisfações.

22º Dia. Fazer as orações iniciais.
Características da verdadeira devoção.

Interior: a verdadeira devoção a Santíssima Virgem é interior, isto é, parte do espírito e do coração. Vem da estima em que se tem a Santíssima Virgem, da alta idéia que se formou das suas grandezas e do amor que se lhe consagra.

Terna: é terna, quer dizer, cheia de confiança na Santíssima Virgem, da confiança de um filho às sua Mãe. Impele a uma alma a recorrer a Ela em todas as necessidades do corpo e do espírito, com extremos de simplicidade, de confiança e de ternura.

Santa: a verdadeira devoção a Santíssima Virgem é santa: leva uma alma a evitar o pecado e a imitar as virtudes da Santíssima Virgem, principalmente Sua humildade profunda, Sua contínua oração, Sua obediência cega, Sua fé viva, Sua mortificação universal, Sua pureza divina, Sua caridade ardente, Sua paciência heróica, Sua doçura angélica e Sua sabedoria divina. Aí estão as dez virtudes principais da Santíssima Virgem.

Constante: a verdadeira devoção a Santíssima Virgem é constante, forma uma alma no bem e a ajuda a perseverar em suas práticas de devoção. Torna-a corajosa para se opor ao mundo em suas modas e máximas, à carne, em seus aborrecimentos e paixões e ao demônio, em suas tentações. Assim uma pessoa verdadeiramente devota da Santíssima Virgem não é volúvel, nem se deixa dominar pela melancolia, pelos escrúpulos ou pelos receios.

Desinteressada: a verdadeira devoção a Santíssima Virgem é desinteressada, leva a alma a buscar não a si mesma, mas somente a Deus em Sua Mãe Santíssima. O verdadeiro devoto de Maria não serve a esta augusta Raínha por espírito de lucro e de interesse, nem para seu bem temporal ou eterno, corporal ou espiritual, mas unicamente porque Ela merece ser servida e Deus exclusivamente nEla. (T. Da V. D. A Santíssima Virgem, n. 105-110)

23º Dia. Fazer as orações iniciais.

Em que consiste “a perfeita Consagração a Jesus por Maria”. A mais perfeita devoção é aquela pela qual nos conformamos, unimos e consagramos mais perfeitamente a Jesus Cristo, pois, toda a nossa perfeição consiste em sermos conformados, unidos e consagrados a Ele. Ora, pois, que Maria é de todas as criaturas, a mais conforme a Jesus Cristo, segue daí que, de todas as devoções, a que mais consagra e conforma uma alma a Nosso Senhor é a devoção a Santíssima Virgem, Sua santa Mãe e que, quanto mais uma alma se consagrar a Maria, mais consagrada estará a Jesus Cristo.

Eis porque a perfeita consagração a Jesus Cristo nada mais é que uma perfeita e inteira consagração a Santíssima Virgem e nisto consiste a devoção que eu ensino; ou por outra, uma perfeita renovação dos votos e promessas do Santo Batismo. Esta devoção consiste, portanto, em entregar-se inteiramente a Santíssima Virgem, a fim de, por Ela, pertencer inteiramente a Jesus Cristo. É preciso dar-lhe, primeiro, o nosso corpo, com todos os seus membros e sentidos; segundo, nossa alma, com todas as suas potências; terceiro, nossos bens exteriores que chamamos fortuna, presentes e futuros; quarta, nossos bens interiores e espirituais, que são nossos méritos, nossas virtudes e nossas boas obras passadas, presentes e futuras.

Numa palavra, tudo que temos na ordem da natureza e na ordem da graça e tudo que no porvir poderemos ter na ordem da natureza, da graça e da glória e isso, sem nenhuma reserva, sem a reserva sequer, de um real, de um cabelo, da menor boa ação, por toda a eternidade, sem pretender e esperar a mínima recompensa de sua oferenda e de seu serviço, a não ser a honra de pertencer a Jesus Cristo por Ela e nEla, mesno que esta amável Senhora não fosse, como é sempre, a mais liberal e reconhecida das criaturas. (T. Da V. D. A Santíssima Virgem, n.120-121)

24º Dia. Fazer as orações iniciais.

Esta devoção é um caminho difícil, curto, perfeito e seguro para chegar à união com Nosso Senhor e nisto consiste a perfeição do cristão.

É um caminho fácil: é um caminho que Jesus Cristo abriu quando veio a nós e no qual não há obstáculo que nos impeça de chegar a Ele. Pode-se, é verdade, chegar a Ele por outros caminhos, mas encontram-se muito mais cruzes e mortes estranhas e muito mais empecílios, que dificilmente se vencem.

É um caminho curto: Esta devoção a Santíssima Virgem é um caminho curto para encontrar a Jesus Cristo, seja porque dEle não nos extraviamos, seja porque, como acabo de dizer, nEle marchamos com mais alegria e facilidade e, consequentemente, com mais prontidão. Avançamos mais em pouco tempo de submissão e dependência a Maria, do que em anos inteiros de vontade própria e contando apenas com nosso próprio esforço.

É um caminho perfeito: esta prática de devoção a Santíssima Virgem é um caminho perfeiro para ir e unir-se a Jesus Cristo, pois, Maria é a mais perfeita e a mais santa das criaturas e Jesus Cristo que veio perfeitamente a nós, não tomou outro caminho em Sua grande e admirável viagem. O altíssimo, Incompreensível, o Inacessível, Aquele que é, quis vir a nós, pequeno verme da terra, que nada somos. Como se fez isto? O Altíssimo desceu perfeita e divinamente até nós por meio da humilde Maria, sem nada perder de Sua divindade e santidade. É por Maria que os pequeninos devem subir perfeita e divinamente ao Altíssimo sem recear coisa alguma.

É um caminho seguro: esta devoção a Santíssima Virgem é um caminuo seguro para irmos a Jesus Cristo e adquirirmos a perfeição, unindo-nos a Ele. Porque esta prática preconizada por mim, não é nova; é tão antiga que não se pode determinar-lhe com toda precisão os começos. Não seria possível condená-la sem derrubar os fundamentos do cristianismo. Fica, portanto, de pé que esta devoção não é nova e que não é comum, por ser preciosa demais para ser apreciada e praticada por todo mundo. Esta devoção é um meio seguro para ir a Jesus Cristo, porque pertence a Santíssima Virgem e Lhe é próprio conduzir-nos a Jesus Cristo, como compete a Jesus Cristo conduzir-nos ao Pai Celestial. (T. Da V. D. A Santíssima Virgem, n. 152,155,157,159,163,164)

25º Dia. Fazer as orações iniciais.

Efeitos maravilhosos desta devoção. Convencei-vos de que se vos tornardes fieis às práticas interiores e exteriores desta devoção que vos indico em seguida:

Primeiro efeito: pela luz que o Espírito Santo vos dará por intermédio de Maria, Sua Querida Esposa, conhecereis vosso fundo mau, vossa corrupção e vossa incapacidade para todo bem e, em consequência deste conhecimento, vos desprezareis e será com horror que pensareis em vós mesmos. A humildade de Maria vos dará, enfim, parte de Sua profunda humildade, com que vos desprezareis a vós mesmos, sem deprezar pessoa alguma e gostareis até de ser desprezados.

Segundo efeito: a Santíssima Virgem vos dará uma parte de Sua fé, a maior que já houve na terra, maior que a de todos os Patriarcas, Profetas, Apóstolos e todos os santos.

Terceiro efeito: Esta Mãe do “Amor Formoso” (Ecl 24,24) aliviará vosso coração de todo escrúpulo e de todo amor servil.

Quarto efeito: a Santíssima Virgem vos encherá de grande confiança em Deus e nEla, porque não vos aproximareis mais de Jesus Cristo por vós mesmos, mas sempre por intermédio dEsta bondosa Mãe.

Quinto efeito: a alma da Santíssima Virgem se comunicará a vós para glorificar o Senhor; seu Espírito tomará o lugar do vosso para regozijar-se em Deus, contanto que pratiqueis fielmente esta devoção.

Sexto efeito: se Maria, que é a Árvore da Vida, for bem cultivada em nossa alma pela fidelidade às práticas desta devoção, Ela dará fruto em Seu tempo e Seu fruto não é outro, senão Jesus Cristo.

Sétimo efeito: por esta prática fielmente observada, dareis a Jesus Cristo mais glória em um mês, que por qualquer outra, embora mais difícil, em muitos anos. (T. Da V. D a Santíssima Virgem, n. 213-217, 222)

26º Dia. Fazer as orações iniciais.

Se quiserdes compreender a Mãe – diz um santo – compreendei o Filho. Ela é uma digna Mãe de Deus. Toda língua aqui emudeça para demosntrar que Maria Santíssima tem sido, até aqui, deconhecida e que é esta uma das razões por que Jesus Cristo não é conhecido como deve ser. Quando, portanto, e é certo, o conhecimento e o Reino de Jesus Cristo tomarem o mundo, será como uma consequência necessária do conhecimento e do Reino da Santíssima Virgem. Ela o deu ao mundo a primeira vez e também da segunda o fará resplandecer.

Confesso com toda a Igreja que Maria é uma pura criatura, saída das mãos do Altíssimo. Comparada portanto, à Magestasde Infinita, Ela é menos que um átmo é, antes, um nada, pois que só Ele é “Aquele que É”. Ex 3,14) Por conseguinte, este Grande Senhor, sempre independente e bastando-se a si mesmo, não tem, nem teve jamais, necessidade da Santíssima Virgem para a reallização das Suas vontades e manifestação de Sua glória. Basta-Lhe querer para tudo fazer.

Digo, entretanto, que supostas as coisas como são, já que Deus quis começar e acabar Suas maiores obras por meio da Santíssima Virgem, depois que A formou, e é de crer que não mudará a conduta nos séculos dos séculos, pois, É Deus, Imutável em Sua conduta e em Seus sentimentos. Maria é a Raínha do Céu e da Terra pela graça, como Jesus é o Rei por natureza e conquista. Ora, como o Reino de Jesus Cristo compreende principalemte o coração ou o interior do homem, conforme a palavra: “o Reino de Deus está no meio de vós”, (Lc 17,21) o Reino da Santíssima Virgem está principalmente no interior do homem, isto é, em sua alma. É principalmente nas almas que Ela é mais glorificada com Seu Filho do que em todas as criaturas visíveis e podemos chamá-la com os santos, a Raínha dos Corações.


Quarta Parte

O conhecimento de Jesus

Atos de amor a Deus, de ação de graças pelas bênçãos recebidas de Jesus, atos de contrição e propósito. Durante este período nos aplicaremos em estudar sobre Jesus Cristo.

Primeiro: O homem Deus, Sua graça e glória. Depois, Seus direitos de domínio soberano sobre nós, já que tendo renunciado a Satanás e ao mundo tomaremos a Jesus Cristo como nosso Senhor.

Segundo: Sua vida interior, as virtudes e os atos do Seu Sagrado Coração; Sua associação com Maria nos mistérios da Anunciação e Encarnação; durante Sua infância e vida oculta; na festa das Bodas de Caná e no Calvário.

Orações iniciais Para todos os dias da Quarta Parte:

Ladaínha do Espírito Santo. p. 262
Ave, Estrela do Mar. p.261
Ladaínha do Santíssimo Nome de Jesus. p. 271

Oração a Jesus
(de S. L. M. Grignion de Monfort.)

Meu amável Jesus permiti que me dirija a Vós para testemunhar o meu reconhecimento pela graça que me concedestes, dando-me a Vossa Santa Mãe pela devoção da Escravidão, para ser minha advogada junto à Vossa Majestade e meu suplemento universal em minha grandíssima miséria. Ai de mim, Senhor, sou tão miserável que sem esta boa Mãe estaria irremediavelmente perdido. Sim! Maria me é necessária junto de Vós, em toda parte: necessária para Vos aplacar em Vossa justa cólera, pois, Vos tenho ofendido todos os dias; necessária para sustar os castigos eternos de Vossa Justiça, que mereço; necessária para contemplar-Vos, falar-Vos, rogar-Vos, aproximar-me de Vós e Vos agradar; necesário para salvar minha alma e a dos outros; necessária em última palavra, para fazer sempre a Vossa vontade, procurar em tudo a Vossa maior glória.

Ah! quem me dera publicar por todo o universo esta misericórdia que tivestes para comigo! E que todo mundo soubesse que sem Maria, já estaria condenado! Pudesse eu render-Vos dignas ações de graças por tão grande benefício! Maria está em mim”ela foi feita para mim”. Oh! que tesouro! Que consolo! E eu não seria depois disso, todo dEla? Que ingratidão, meu Salvador Amado! Enviai-me a morte antes que me aconteça tal desgraça: pois, prefiro morrer que viver sem ser todo de Maria. Mil e mil vezes tomeia como São João Evangelista ao pé da Cruz, por todo meu bem! E outras tantas vezes dei-me a Ela; mas se até agora não o fiz bem, conforme desejo, ó Jesus amado, faço-o agora como o quereis que o faça e se vedes em minha alma e em meu corpo algo que não pertença a esta Augusta Princesa, eu Vos rogo que o arranqueis e jogueis para longe de mim, porque o que não é de Maria, não é digno de Vós.

Ó Espírito Santo! Concedei-me todas essas graças e plantai, regai e cultivai em minha alma a amável Maria, que é a Árvore da Vida Verdadeira, afim de que cresça e floresça e suscite frutos de vida, com abundância. Ó Espírito Santo, dai-me uma grande devoçao e uma grande inclinação para com Vossa Divina Esposa, um grande apoio sobre Seu Seio Maternal e recurso contínuo a Sua misericórdia, afim de que nEla formeis em mim a Jesus Cristo, grande e poderoso até a plenitude de Sua idade perfeita. Assim seja.

Ó Jesus que viveis em Maria vinde viver em Vossos servos, no espírito de Vossa santidade, na plenitude de Vossa força, na perfeição de Vossos caminhos, na verdade de Vossas virtudes, na comunhão de Vossos mistérios, dominai sobre todo o poder inimigo em Vosso espírito e para a glória do Pai. Amém.

Meditação

27º Dia. Fazer as orações iniciais.

Jesus Cristo, nosso Salvador, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem deve ser o fim último de todas as nossas devoções, de outro modo elas serão falsas e enganosas. Jesus Cristo é o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim de todas as coisas. Nós só trabalhamos, como diz o Apóstolo, para tornar todo homem perfeito em Jesus Cristo, pois, é em Jesus Cristo que habita toda a plenitude da Divindade e todas as outras plenitudes de graça, de virtudes, de perfeições: porque nEle somente fomos abençoados de toda bênção espiritual; porque é nosso Único Mestre que deve ensinar-nos; nosso Único Senhor a quem devemos depender; nosso Único Chefe ao qual devemos estar unidos; nosso Único Modelo, com o qual devemos conformar-nos; nosso Único Médico que nos há de curar; nosso Único Pastor que nos há de alimentar; nosso Único Caminho que devemos trilhar e nosso Tudo, em todas as coisas, que devem bastar-nos.

Abaixo do céu nenhum outro nome foi dado ao homem pelo qual devamos ser salvos. Deus não nos deu outro fundamento para nossa salvação, nossa perfeição e nossa glória, senão Jesus Cristo. Todo edifício cuja base não assentar sobre esta pedra firme, estará construído sobre areia movediça e ruirá fatalmente, mais cedo ou mais tarde. Por Jesus Cristo, com Jesus Cristo, em Jesus Cristo, podemos tudo: render toda honra e glória ao Pai, em unidade do Estírito Santo e tornar-nos perfeitos e ser para nosso próximo um bom odor de vida eterna.

Se estabelecermos, portanto, a sólida devoção a Satíssima Virgem, teremos contribuído para estabelecer com mais perfeição a devoção a Jesus Cristo, teremos proporcionado um meio fácil e seguro de achar Jesus Cristo; como já fiz ver e farei ver ainda, nas páginas seguintes, esta devoção só nos é necessária para encontrar Jesus Cristo, amá-Lo ternamente e fielmente servi-Lo. (T. Da V. D, a Santíssima Virgem, p. 61)

28º Dia. Fazer as orações iniciais.

Quando Jesus acabou todos esses discursos, disse a Seus discípulos: sabei que daqui a dois dias será a Páscoa e o Filho do Homem será traído para ser crucificado. Durante a refeição Jesus tomou o Pão, benzeu-O, partiu-O e deu a Seus discípulos, dizendo: “Tomai e Comei, isto é Meu Corpo”. Tomou depois, o Cállice, rendeu graças e deu-Lho, dizendo: “Bebei Dele todos, porque isto é Meu Sangue, o Sangue da Nova Alianças, derramado por muitos em remissão dos pecados. Digo-vos: doravante não beberei mais desse fruto da vinha até o dia em que o beberei de novo convosco no Reino de Meu Pai.

Retirou-se Jesus para um lugar chamado Getsêmani e disse-lhes: assentai-vos aqui, enquanto Eu vou ali orar. E tomando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se. Disse-lhes, então: minha alma está triste até a morte. Ficai aqui e vigiai comigo. Adiantou-se um pouco e, prostrando-se com a face por terra, assim rezou: Meu Pai, se possível, afasta de mim este cálice. Todavia, não se faça o que Eu quero, mas sim o que Tu queres. Foi ter então com os discípulos e os encontrou dormindo. E disse a Pedro: então não pudeste vigiar uma hora Comigo? Vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca. Afastou-se pela segunda vez e orou, dizendo: Meu Pai, se não é possível que este Cálice passe sem que Eu o beba, faça-se a Tua vontade. Voltou ainda e os encontrou novamente dormindo, porque seus olhos estavam pesados. Deixou-os e foi orar pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras. Voltou então, para os Seus discípulos e disse-lhes. Dormi, agora, e repousai! Chegou a hora: o Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores. Levantai-vos, vamos! Aquele que me trai está perto daqui. (Mt 26,1-2- 29-36- 46)

29º Dia. Fazer as orações iniciais.

Da imitação de Cristo e do desapego das vaidades do mundo. “Quem Me segue não anda nas trevas”. (Jo 8,12) São palaras de Cristo com as quais nos admoesta para que imitemos Sua vida e costumes se quisermos verdadeiramente ser esclarecidos e livres de toda cegueira do coração. Seja, pois, nosso principal desempenho meditar a vida de Jesus Cristo. A Sua doutrina excede a de todos os santos e quem possuir o Seu Espírito, nele achará o maná escondido.

Acontece, porém, que muitos, ainda que amiúde ouçam o Evangelho, sentem nEle pouco gosto e tiram pouco proveito, porque não têm o Espírito de Cristo. Quem quiser compreender com satisfação e proveito as palavras de Jesus Cristo, deve conformar sua vida com a dEle. Que te aproveita discorrer com sabedoria sobre a Trindade, se não es humilde e, por isso, Lhe desagradas? A verdade é que não são palavras sábias que fazem o homem santo e justo, mas sim, é a vida virtuosa que o faz agradável a Deus. É preferível sentir a compunção do que saber defini-la.

Ainda que soubesses de cor toda a Bíblia e os ditos de todos os filósofos, que te aproveitaria tudo isso sem o amor e a graça de Deus? Vaidade das vaidades, tudo é vaidade, exceto amar a Deus e só a Ele servir. (Ecl 1,2) A suma sabedoria é, pelo desprezo do mundo, caminhar para o Reino dos Céus. (I. De Cristo, l. 1, c. 1, 1-3)

30º Dia. Fazer as orações iniciais.
Sentaram-se e montaram guarda. Por cima de Sua cabeça penduraram um escrito, trazendo o motivo de Sua Crucificção: Este é Jesus, o Rei dos judeus. Ao mesmo tempo foram crucificados com Ele dois ladrões, um à Sau direita, o outro à Sua esquerda. Os que passavam o injuriavam, sacudiam a cabeça e diziam: Tu que destróis o Templo e O reconstróis em três dias, salva-Te a Ti mesmo! Se Es o Filho de Deus, desce da Cruz.

Os Príncipes dos Sacerdotes, os Escribas e os Anciões também zombavam Dele: Ele salvou a outros e não pode salvar a Si mesmo! Se é Rei de Israel desça agora da Cruz e nós creremos nEle! Confiou em Deus, Deus O livre agora, se O ama, porque Ele disse: Eu sou o Filho de Deus! E os ladrões crucificados com Ele O ultrajavam. (Mt 27, 36-44) A muitos parecem duras estas palavras do Salvador: renuncia a tí mesmo, toma a tua Cruz e segue-Me. (Lc 9,23) Porém, muito mais duras parecerão aquelas que Ele pronunciará no dia do juízo; “Apartai-vos de Mim malditos, ide para o fogo eterno! (Mt 25, 41)

Os que agora ouvem e seguem de boa vontade a palavra da Cruz não temerão então, a sentença da eterna condenação. Este sinal da Cruz aparecerá no Céu quando o Senhor vier julgar. Mt 24,30) Então, todos os servos da Cruz, que se conformaram na vida com Cristo Crucificado, se achegarão a Cristo Juíz com grande confiança. Por que temes, pois, tomar a Cruz pela qual se vai ao Céu? Na Cruz está a salvação e a vida, na Cruz a proteção contra nossos inimigos. Da Cruz manam as suavidades celestiais; na Cruz estão a foraleza da alma, a alegria do coração, o compêndio da virtude, a perfeição da santidade.

Não há salvação da alma, nem esperança da via eterna, sem a Cruz. Toma, pois, a tua Cruz, segue a Jesus e chegarás à vida eterna. Este Senhor foi adiante, levando às costas a Sua Cruz e nela morreu por ti para que tu leves também a tua e nela desejes morrer. Porque se morreres com ele, também com Ele viverás (Rm 6,8) e se fores Seu companheiro nos trabalhos, o serás também na glória. (I. De Cristo, l. 2 c.c12, 1-2)

31º Dia. Fazer as orações iniciais.

Deus manifesta ao homem Sua bondade e seu amor ao Sacramento da Eucaristia. Senhor, confiado em Vossa bondade e misericórdia infinita, venho a Vós como enfermo ao Médico; como faminto sequioso, á Fonte da Vida, como pobre ao Rei do Céu.; como escravo ao Senhor Soberano, como criatura ao seu Criador; como, aflito a meu Piedoso Consolador.

Mas donde me vem, meu Deus, a graça de virdes a mim? Quem sou eu para que Vós mesmo Vos deis a mim? Como se atreve o pecador a aparecer em Vossa presença? Como Vos dignais ouvir o pecador? Vós conheceis Vosso servo e sabeis que não há em mim bem algum que mereça esta graça. Confesso, pois, minha vileza, reconheço Vossa bondade, louvo Vossa piedade e Vos dou graças por Vossa caridade infinita. (I. De Cristo, l, 4, c.2, 1-2)

Os que tomarem esta santa escravião terão uma devoção especial pelo mistério da Encarnação do Verbo a 25 de março que é o mistério adequado a esta devoção, pois que esta devoção foi inspirada pelo Espírito Santo: Primeiro, para honrar e imitar a dependência em que Deus Filho quis estar de Maria, para a glória de Deus, Seu Pai e para nossa salvação. Dependencia que tranparece particularmente neste mistério em que Jesus Cristo se torna cativo e escravo do Seio de Maria Santíssima, aí dependendo dEla em tudo; Segundo, para agradecer a Deus as graças incomparáveis que concedeu a Maria, principalmente por tê-La escolhido para Sua Mãe Dignissima, escolha feita neste mistério. São estes os dois fins principais da escravisação a Jesus Cristo em Maria.

Visto estarmos num século orgulhoso em que pululam os sábios enfatuados, os espíritos fortes e críticos que sempre acham o que falar das mais sólidas e bem estabelecidas práticas de piedade é preferível, para evitar-lhes ocasião de crítica desnecessária, dizer “Escravidão de Jesus em Maria” e dizer-se “escravo de Jesus Cristo” do que escravo de Maria Assim a denominação desta devoção será dada antes pela sua finalidade, Jesus Cristo, que pelo caminho e meio para para atingir este fim, Maria Santíssima. Pode-se entretanto usar uma ou outra sem o menor escúpulo, como eu faço.

Como o principal mistério que se celebra e honra nesta devoção é o Mistério da Encarnação, no qual só se pode contemplar Jesus em Maria, encarnado em Seu Seio, é mais adequado dizer-se “a escravidão de Jesus em Maria”, de Jesus residindo e reinando em Maria, conforme a bela oração de tantos homens célebres: “ó Jesus, vivendo em Maria, vinde e vivei em nós, em Vosso espírito de santidade. (T. Da V. D. A Santíssima Virgem, 243 a 246-249)

32º Dia. Fazer as orações iniciais.

Do amor de Jesus sobre todas as coisas. Bemaventurado o que conhece o que é amar Jesus e desprezar-se a si mesmo por amor a Jesus! Nosso amor para com Ele deve apartar-nos de qualqueer outro amor, porque Jesus quer ser amado sobre todas as coisas. O amor da criatura é enganoso e mutável, o amor de Jesus é fiel e constante. O que se prende à criatura cairá com ela; o que se abraça com Jesus estará firme para sempre. Ama e tem por amigo Aquele que não te faltará quando todos te desaparecerem, nem te deixará perecer quando chegar o fim da vida.

De todos hás de te separar um dia, queiras ou não queiras. Teu Amado é de tal condição que não quer admitir companhia no amor; Ele só quer possuir teu coração e nele reinar como soberano em seu trono. A experiência te mostrará que toda a afeição que não puseres em Jesus, mas nos homens, é perdida. (I. De Cristo, l. 2, c. 7, 1-2) Eis aqui algumas práticas interiores assaz santificantes para aqueles chamados pelo Espítito Santo à mais alta perfeição. Consiste em quatro palavras, em fazer todas as suas ações por Maria, com Maria, em Maria e para Maria a fim de fazê-las mais perfeitamente por Jesus, com Jesus, em Jesus e para Jesus.

É preciso fazer todas as ações por Maria, quer dizer, em todas as coisas obedecer a Santíssima Virgem e em tudo conduzir-se por Seu Espírito, que é o Santo Espírito de Deus. São filhos de Deus os que se conduzem pelo Espírito de Deus. (Rm 8,14) E os que pautam a sua conduta pelo Espírito de Maria, são filhos de Maria e, por conseguinte, filhos de Deus, como já demonstramos. Entre tantos devotos da Santíssima Virgem, só os que se conduzem por Seu Espírito é que são devotos verdadeiros e fiéis. Disse que o Espírito de Maria é o Espírito de Deus, porque Ela jamais se conduziu por Seu próprio Espírito e sempre pelo Espírito de Deus, e este de tal modo a dominou que acabou tornando-se Seu próprio Espírito.

Quão feliz é uma alma quando, ao exemplo do bom irmão jesuíta Rodrìguez, é toda possuída e governada pelo Espírito de Maria, que é um Espírito suave e forte, zeloso e prudente, humilde e corajoso, puro e fecundo! É mister fazer todas as ações com Maria, isto é, em todas as ações olhar Maria como um Modelo Acabado de todas as virtudes e perfeições que o Espírito Santo formou numa pura criatura e imitá-lo na medida de nossa capacidade. Cumpre, portanto, que em cada ação consideremos como Maria a fez ou faria, se estivesse em nosso lugar. Devemos por isso, examinar e meditar as grandes virtudes que Ela praticou durante a vida, especialmente – 1º - Sua viva fé, pela qual creu fiel e constantemente até ao pé da Cruz, sobre o Calvário. – 2º - Sua humildade profunda, que A levou a esconder-se, a calar-se, a submeter-se e a colocar-se em último lugar. (T. Da V. D. A Santíssima Virgem, p. 257, 258, 260)

33º Dia. Fazer as orações iniciais.

Que o corpo de Jesus Cristo e a Sagrada Escritura são de grande necessidade à alma fiel. Ò dulcíssimo Jesus que delícias inundam a alma fiel admitida ao Vosso Banquete, onde não se lhe apresenta outro Alimento senão Vós Mesmo, seu Unico Amado o mais caro objeto de seus desejos. Oh! quão suave seria para mim derramar em Vossa presença copiosas lágrimas de amor e regar com ela Vossos divinos pés como a Madalena? Mas onde se achará devoção tão viva, esta efusão tão copiosa de santas lágrimas?

Na verdade, o meu coração deveria abrasar-se em lágrimas de gosto, diante de Vós e de Vossos Santos Anjos; pois que em Vosso Sacramento, Vos tenho verdadeiramente presente, posto que, oculto debaixo das espécies sacramentais. Meus olhos não poderiam suportar o resplendor da Vossa luz divina e o mundo inteiro se esvaeceria em Vossa presença se aparecêsseis com toda a majestade da Vossa glória. É pois, por uma graça que fazeis a minha fraqueza, que vos escondeis neste Sacramento. (I. De Cristo, l. 4, c. 11, 1-2)

É preciso fazer todas as ações em Maria. A Santíssima Virgem é o verdadeiro Paraíso Terrestre do Novo Adão, de que o antigo paraíso terrestre é apenas a figura. Há, portanto, neste Paraíso Terrestre, riquezas, belezas, raridades e doçuras inexplicáveis que o Novo Adão, Jesus Cristo, aí deixou. Neste Paraíso Ele pôs Suas complacências, durante nove meses, aí operou Suas maravilhas e ali acumulou riquezas com a magnificência de um Deus. É neste Paraíso Terrestre que está em verdade, a Árvore da Vida que produziu Jesus Cristo, o Fruto da Vida; a Árvore da Ciência do Bem e do Mal, que deu a luz ao mundo.

Há neste Lugar Divino, árvores plantadas pela mão de Deus e orvalhadas por Sua unção divina, árvores que produziram e produzem, todos os dias, frutos maravilhosos de um sabor divino. O Espírito Santo, pela boca dos Santos Padres, chama também a Santíssima Virgem a Porta Oriental, por onde o Sumo Sacerdote Jesus Cristo entra e vem ao mundo (Ex 44, 2-3); por Ela entrou da primeira vez e por Ela virá da segunda.

É preciso fazer, finalmente, todas as ações para Maria Não A tomamos porém, como fim último de nossos serviços, que é somente Jesus Cristo. Mas como fim próximo, intermediário, misterioso e o fim mais fácil de chegar a Ele. É preciso que não fiquemos ociosos e sim, que apoiados por Sua proteção, empreendamos e realizemos grandes coisas para tão augusta Soberana. É preciso defender Seus privilégios quando alguém lhes disputar; sustentar Sua glória quando alguém A atacar; atrair todo mundo se for possível, ao Seu serviço e a esta verdaderia e sólida devoção; falar, clamar contra todos os que abusem de Sua devoção para ultrajar Seu Filho e, ao mesmo tempo, estabelecer esta verdadeira devoção. Como recompensa destes pequenos serviços, não devemos pretender mais que a honra de pertencer a uma Princesa tão amável e a felicidade de, por meio dEla, ficarmos unidos a Jesus Cristo, Seu Filho, com um liame indisolúvel no tempo e na eternidade. (T. da V. D. A Santíssima Virgem, p. 261, 262, 265)



A Consagração

Ao fim das três semanas confessar-se-ão e comungarão na intenção de se darem a Jesus Cristo na condição de Escravos por amor, pelas mãos de Maria. E depois da Comunhão, recitarão a fórmula da Consagração, e a assinarão no mesmo dia em que a fizezem. Nesse dia, será bem renderem algum tributo a Jesus e à Sua Mãe Santíssima, seja em penitência de sua infidelidade passada às promessas do Batismo, seja em sinal de sua dependência do domínio de Jesus e Maria. Ora, esse tributo será conforme a devoçãso e capacidade de cada um: um jejum, uma mortificação, uma esmola, um círio. Ainda que não dêem mais que um alfinete em homenagem, contanto que o dêem de bom coração, é o bastante pra Jesus, que só olha a boa vontade. Todos os anos, ao menos no mesmo dia, renovarão a Consagração, observando as mesmas práticas durante três semanas. (T. daV. D. A Sasntíssima Virgem, p. 231-233) 


Consagração de si mesmo a Jesus Cristo, Sabedoria Encarnada, por meio de Maria.

Ó sabedoria eterna e Encarnada! Ó amabilíssimo e adorável Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, Unigênito Filho do Eterno Pai e da sempre Virgem Maria, adoro-Vos profundamente no Seio e nos Esplendores do Vosso Pai, durante a eternidade e no Seio Virginal de Maria, Vossa Mãe Digníssima, no tempo da Vossa Encarnação. Eu Vos dou graças por terdes aniquilado a Vós mesmo, tomando a forma de escravo, para livrar-me do cruel cativeiro do Demônio. Eu Vos louvo e glorifico por Vos terdes querido submeter a Maria, Vossa Mãe Santíssima em todas as coisas, a fim de por Ela tornar-me Vosso fiel escravo.

Mas, ai de mim, criatura ingrata e infiel! Não cumpri as promessas que Vos fiz solenemente no Batismo; não cumpri com minhas obrigações; não mereço ser chamado Vosso Filho, nem Vosso Escravo e, como nada há em mim que de Vós tenha merecido repulsa e cólera, já não ouso aproximar-me por mim memo de Vossa Santíssima e Augustíssima Majestade. É por esta razão que recorro à intercessão de Vossa Mãe Santíssima que me deste por Medianeira junto a Vós e é por este meio que espero obter de Vós a contrição e o perdão de meus pecados, a aquisição e conservação da Sabedoria.

Ave, pois, ó Maria Imaculada, tabernáculo vivo da Divindade, onde a Eterna Sabedoria escondida quer ser adorada pelos anjos e pelos homens! Ave, ó Raínha do céu e da terra, a cujo império está sujeito tudo o que está abaixo de Deus. Ave, ó Refúgio Seguro dos pecadores, cuja misericórdia jamais a ninguém falece! Atendei ao desejo que tenho da Divina Sabedoria e recebei para este fim, os votos e as oferendas apresentadas pela minha baixeza.

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Eu, ................................., infiel pecador, renovo e ratifico hoje em Vossas mãos, os votos do Batismo. Renuncio para sempre a Satanás, suas pompas e suas obras e dou-me inteiramente a Jesus Cristo, Sabedoria Encarnada, para segui-lo, levando minha Cruz em todos os dias de minha vida. E, a fim de lhe ser mais fiel do que até agora tenho sido, escolho-Vos nesse dia, ó Maria Santíssima, em presença de toda a Corte Celeste, para minha Mãe e minha Senhora.

Entrego-Vos e consagro-Vos, na qualidade de escravo, meu corpo e minha alma, meus bens interiores e exteriores e até o valor de minhas boas obras passadas, presentes e futuras, deixando-Vos direito pleno e inteiro de dispor de mim e de tudo o que me pertence, sem exceção, a Vosso gosto, para a maior glória de Deus, no tempo e na eternidade.

Recebei, ó benigníssima Virgem, esta pequena oferenda de minha escravidão, em união e honra à submissão que a Sabedoria Eterna quiz ter à Vossa Maternidade; em homenagen ao poder que tendes Ambos sobre este vermezinho e miserável pecador; em ação de graças pelos privilégios com que Vos favoreceu a Santíssima Trindade. Protesto que quero, de agora em diante, como Vosso verdadeiro Escravo, procurar Vossa honra e obedecer-vos em todas as coisas.

Ó Mãe admirável, apresentai-me a Vosso amado Filho, na qualidade de Escravo Pérpétuo, para que, tendo-me remido por Vós, por Vós também me receba favoravelmente. Ó Mãe de Misercórdia, concedei-me a graça de obter a Verdadeira Sabedoria de Deus e de colocar-me para este fim, no número daqueles a quem amais, ensinais, guiais, sustentais e portegeis como Filhos e Escravos Vossos. Ó Virgem Fiel, tornai-me em todos os pontos, um tão perfeito Discípulo, Imitador e Escravo da Sabedoria Encarnada, Jesus Cristo, Vosso Filho, que eu chegue um dia, por Vossa intercessão e a Vosso exemplo às plenitude de Sua idade na terra e de Sua glória nos Céus. Assim seja.

As 15 Orações de Santa Brígida

As 15 orações de Santa Brígida foram reveladas por Jesus na Igreja de São Paulo, em Roma. Estas orações foram aprovadas pelo Papa Pio IX em 31/05/1862, que as reconheceu como autênticas e de grande proveito para as almas.

VEJA AS PROMESSAS DE JESUS

Como já há muito tempo Santa Brígida desejasse saber o número de golpes que Jesus levara durante a Paixão, certo dia Ele lhe apareceu dizendo: "Recebi em todo o Meu Corpo 5.480 golpes. Se desejais honras as chagas que eles Me produziram mediante uma veneração particular, deveis recitar 15 Pai Nossos e 15 Ave-Marias, acrescentando as seguintes orações, durante um ano inteiro; quando o ano terminar, tereis prestado homenagem a cada uma das Minhas Chagas. Quem recitar estas oração durante um ano inteiro conseguirá livrar do Purgatório 15 almas de sua família, 15 justos também de sua linhagem serão conservados em graça e 15 pecadores de sua família serão convertidos.

A pessoa que as recitar será elevada ao mais eminente grau de perfeição e 15 dias antes da sua morte Eu lhe darei meu Precioso Corpo, para que ela seja livre da fome eterna. Eu lhe darei também de beber o Meu Precioso Sangue, afim de que não padeça sede eternamente e 15 dias antes da morte ela experimentará uma profunda contrição de todos os seus pecados e um perfeito conhecimento deles. Diante dela colocarei o sinal da Minha Cruz vitoriosa como socorro e defesa contra os embustes dos seus inimigos. Antes da sua morte, Eu virei em companhia de Minha muito cara e bem amada Mãe para receber a sua alma e conduzi-la às alegrias eternas. E tendo-a levado até lá, Eu lhe darei a beber um trago singular da fonte da Minha Divindade, o que não farei, absolutamente, a outros que não tenham recitado as Minhas Orações.

Aquele que disser estas Orações pode estar seguro de ser associado ao supremo coro dos Anjos e todo aquele que as ensinar a alguém, terá assegurado para sempre sua felicidade e seus méritos. Sim, eles serão estáveis e durarão perpetuamente. No lugar onde se encontrarem e onde forem recitadas essas Orações, Deus estará também presente com as Suas Graças. Todos esses privilégios foram prometidos à Santa Brígida por Nosso Senhor Crucificado com a condição de que as orações fossem recitadas diariamente. São, igualmente, prometidas a todos os q








Postado por: James - www.espacojames.com.br em: 07/03/11 às 19:57:09 h.


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