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"Eu preciso tanto de uma mãe!"
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Um dia conta-nos um vigário dos subúrbios de Paris, notei uma ovelha estranha misturada ao rebanho do meu catecismo. Aquela figurinha pálida e apoucada, que se insinuara na ponta do último banco, não me era totalmente desconhecida; minha memória lembrou-me logo que o intruso era filho do contramestre da fábrica, homem de opiniões violentas e exaltadas, orador de clube, inimigo de padres, etc. Aliás, o pequeno parecia deslocado no santo lugar.

Olhava para todos os lados e tinha uma atitude constrangida na extremidade do seu banco. Não aparentei reparar na presença dele, mas, após acabar de interrogar os meus meninos, fui a ele e fi-lo levantar. Ele segurava um gorro na mão e olhava-me com grandes olhos tristes. As suas roupas belas e bem feitas careciam de frescor. Ao vê-las, adivinhava-se que não as preparava um mãe. - Vais à escola, - disse-lhe eu, - já ouviste falar de Deus Nosso Senhor? - Silêncio, gesto vago e indiferente. - Da Santíssima Virgem? - O pequeno levantou a fronte e subitamente o semblante se lhe animou. - Ouvi, - disse-me ele baixinho, misteriosamente. - Ouvi dizer que os meninos do catecismo têm uma Mãe, a SS.Virgem. Foi por isso que eu vim... - E grossas lágrimas rolaram-lhe pelas faces, enquanto ele acrescentava: " Eu preciso tanto de uma mãe!" Esse grito comoveu-me. Assim que meus alunos saíram, voltei ao pequeno estranho, e lhe disse: " Vem cá, vou-te levar à tua Mãe." - Ele deitou-me um olhar profundo. " Aquela que substituirá tua mãe", continuei. E conduzi-o ao branco altar que as Filhas de Maria ornamentam com desvelo piedoso. Quando o menino avistou a bela imagem coroada do diadema de ouro, rodeada de flores e iluminada pelo reflexo dos vitrais, exclamou de mão postas: " Ah! lá está ela! Como é bela! O Sr. acha que ela quererá me tomar por seu filho? olhe, ela tem outro nos braços. Talvez não precise de mim; e eu, se o Sr. soubesse! Preciso muito de uma mãe...ainda mais depois que estou doente..." - e estás doente, meu filho? - Ele tocou o lado esquerdo. - Tenho uma dor aqui, não grande, mas não posso brincar ou correr como os outros, então o médico proibiu que eu fosse á escola. Sou infeliz sozinho em casa. Papai me quer muito bem, mas está sempre fora de casa. Disseram-me que os meninos que vêm aqui acham uma mãe muito boa e toda-poderosa, eu então fugi e vim cá. Eis aí mais um dos vossos benefícios, ó boa Mãe, pensei eu. Obrigado por me terdes trazido esta cara alminha, que pereceria na ignorância, e cuja voz, talvez em breve, se misturará aos concertos dos anjos. E ele repetia inquieto: "O Sr. acha que a santa Virgem quererá saber de mim? - Sem dúvida, meu amigo, mas é preciso fazer como os meninos que aqui vêm, e aprenderes o teu catecismo." Pus-lhe um catecismo nas mãos, e ele disse: " Obrigado, Sr., não deixo de o ler." Leu-o, aprendeu-o, mas a morte fazia lentamente a sua obra. Pouco tempo depois de fazer a primeira comunhão, ele morreu como um santo, e foi encontrar-se com sua Mãe no céu. (Relatos de Pe. J. Baeteman)

 

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