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Artigo N.º 6283 - Carta para um príncipe
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Postado em: 28/09/10 às 08:02:45 por: James
Categoria: Marisa Bueloni
Link: http://www.espacojames.com.br/?cat=123&id=6283
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(Marisa Bueloni)


Campestre, setembro de 2010.

Vai chegar a primavera. O Reino está atento?

Um hálito de frescor percorre a Terra. A vida cumpre um ciclo. Somos cíclicos, como as flores. Tangida pela dor, já dei 60 voltas em torno do Sol. Consta que Vossa Alteza também. Veja só, a gente em órbita, assim, em torno do Astro-rei esse tempo todo. Sessenta voltas – e eu nem percebi.

Nada disso importa, diante do acontecido. Nada aconteceu, fique sossegado – além do fato astronômico. No entanto, que acontecimento retumbante! Que grata revelação saber desta estima, deste apreço, deste sentimento. Meu coração dispara e se curva ante tal beleza, premido por metáforas obrigatórias.

Vossa Alteza trouxe sonho a minha vida – uma vida que já teve sua juventude, seu viço, sua plenitude. Agora, na fase da maturidade, depois de um casamento lindo e felicíssimo, de duas filhas adultas que são o meu orgulho, vivendo uma viuvez serena, agradeço que se apresente com esta solicitude reservada e anônima.

Lembra do poema? “Ofereço-te meu ombro/ meu assombro/ e minha amizade”? É isso. Oferta sem pretensões. A não ser estender minhas mãos cansadas, no outono das nossas existências. O inverno, de fato, virá dentro de alguns anos. Em todo o caso, esta carta é escrita na quase primavera do planeta azul. Mera coincidência?

Escrevo não só para os nossos, mas para todos os corações. Os que pulsam na maravilha do ato respiratório e batem vigorosamente e também para os que sentem a ameaça das arritmias da vida e seus sustos. Talvez sejam os mais longevos. Os que resistem bravamente às sacudidas. Porque, nos hospitais, querem ficar perto da janela e ver o sol lá fora.

Eu quero sempre ver o sol lá fora. 

Nosso corpo, de jovem, amadurece de uma forma fatal. Viramos pessoas fatais na lógica do implacável. Olho mesmo é para frente e para o alto. Diz o Senhor a uma mensageira: “Não te desvies, não olhes nem para a direita e nem para a esquerda; mantém-te fixa em Mim”. Tento fazer isso. Enfim. Como fugir de nossas rotinas absurdas? Devo ter algumas receitas alquímicas para não deixar morrer o fogo que nos queima a alma. Ele será nosso eterno farol.

A luz deste que me guia agora, localiza-se em alguma ilha deserta, onde nunca aportamos. Lá deixei meu coração. Tarde demais, eu sei. Meu barco passou. O seu barco passou. A aduaneira não viu. Uma carta náutica não registrou. E os peixes ovularam debaixo d´água um poema oceânico. Aprisionado dentro de uma garrafa, à deriva. Além mar. Além terra. Além tempo.

Esta carta é bem singela, pode ver. Porém, incandescente. Saiba que estou aqui, assustadíssima com tudo isso, pensando nas virtudes de quem conseguiu tão bem guardar os seus segredos. Guarde no cofre.

Nós, mulheres, também os guardamos, quando queremos – ou quando precisamos. Tenha a certeza de que o coração de uma mulher é um poço sem fundo de segredos e mistérios. Nele cabem - além dos brincos, do perfume e do batom -,  todas as lendas, as fantasias, as histórias e os contos de fadas mais belos – como estes, escritos a cada novo e-mail. Deus salve a internet!

É uma beleza! É uma beleza – eu sei. Vossa Alteza também sabe. Como é vasto este assombro! Nada pode ser desperdiçado. Nem uma vírgula pode se perder. Nesta fábula retardatária, uma vírgula é potencialmente um poema de amor. Um romance de Tolstoi. Uma ópera de Verdi. O Bolero de Ravel. A Carmina Burana, em toda a sua glória.

Vírgulas – eis a carta! -, elas fazem uma frase respirar mais bonito. E eu estou sem ar. Eu preciso respirar. Tudo o que tenho aprendido com Vossa Alteza, meu amigo da fase outonal, é a retomada de uma música antiga, que dançamos na sala do mais lindo castelo. Meu bem, já não precisa falar comigo dengosa assim. Você me tirou para dançar, um dia. Um dia, gatinha manhosa, eu prendo você no meu coração. Comportou-se como um príncipe. Quero ver você fazer manha então. Presa no meu coração. Quero ver você...ê.

Não podia ser diferente. Um príncipe tímido que não conseguiu se declarar. Tão nobre. Tão digno da realeza dos bons costumes e bons sentimentos. Já não se fazem príncipes como antigamente.

Vamos deixar tudo como está? Passei da idade de usar sapatinho de cristal. E já bateu meia-noite. Da minha torre, tenho uma visão perfeita da história. Contudo, ninguém sabe o que pode acontecer na próxima volta do relógio, porque tudo muda o tempo todo no mundo. Essa é mais atual.

Talvez, para um príncipe de contos de fadas que se preze, Vossa Alteza guarde como trunfo o outro pé do sapatinho. Aquele que deixei cair, perdido nas escadarias do tempo. Ié, ié, ié.

Na carta de agora, quero mais que dizer “olá!”. Não sei se fica bem um simpático “muito prazer em revê-lo”. Não sei direito qual é a sua turma, se do “data venia” e do “subscrevo-me atenciosamente”. Eu esculacho, assim, tipo “oi, cara”.

Contudo, Alteza, não queria, jamais, dizer “adeus”.

Sua Princesa


Marisa Bueloni mora em Piracicaba,
SP. Formada em Pedagogia e
Orientação Educacional –
marisabueloni@ig.com.br

 

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