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Destaque



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Postado em: 21/10/15 às 13:22:29 por: James
Categoria: Destaque
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O determinismo bem que tentou negar, mas nós continuamos livres e responsáveis pelas nossas próprias decisões

No passado, o estudo da natureza era chamado de “Filosofia Natural”. A obra prima de Newton, publicada no final do século XVII, levava esse nome: Princípios Matemáticos da Filosofia Natural. A publicação de Newton é um marco já bem sólido da Revolução Científica, que começara e se desenvolvera por volta de um século antes, com Bacon, Descartes, Copérnico, Galileu, entre outros. É interessante relacionar o título da obra de Newton com o período em que ela foi publicada porque foi justamente a Revolução Científica que sagrou a separação entre a Filosofia Natural (que se tornou Ciência) e a Filosofia propriamente dita. Pensando Newton como ápice desta revolução, não é bem curioso que ainda tenha classificado seu trabalho como “Filosofia Natural”?

Na verdade, não. Nem um pouco! A realidade é bem mais colorida do que o preto-e-branco com que a pintamos e Newton é o sujeito ideal para retratarmos nesse quadro. Genial, seu trabalho seria o pilar da Física e da Matemática pelos próximos dois séculos. Entretanto, ele passou a maior parte da vida como alquimista e intérprete da Bíblia, bem longe do que hoje consideramos ciência.

As descobertas de Newton foram a base (e também boa parte da estrutura!) do que na Física é conhecido por “Mecânica”. A Mecânica é o estudo dos movimentos e, principalmente, das suas causas: ou seja, como e por que um objeto se move. Esta é uma discussão que já vinha desde os pensadores gregos, especialmente Aristóteles. Mas foi Galileu quem começou a grande revolução científica nessa área ao dar o passo inicial e descrever o movimento de um objeto sob a ação da gravidade da Terra. Depois, Newton propôs suas famosas três leis da Mecânica, que são capazes de explicar e prever o movimento de qualquer corpo. Para isso, basta conhecer a sua posição e velocidade em um dado instante e, desse momento em diante, as forças que atuam sobre ele ao longo de toda a sua trajetória. Posteriormente, com a lei da gravitação universal e as três leis de Kepler, o homem passou a ser capaz de explicar todos os movimentos, nos céus e na Terra.

O sucesso destas teorias foi enorme. Tão grande que passou a imperar um sentimento de triunfalismo da mecânica, uma posição filosófica que ficou conhecida por “determinismo”. Basicamente, os deterministas acreditavam que, com a nova mecânica, era possível (pelo menos em teoria) prever tudo o que aconteceu e acontecerá no Universo. A dificuldade está em conhecer todas as forças que regem o nosso mundo e, num dado instante, todas as posições e velocidades de todos os objetos do Universo. Naturalmente, todos estavam cientes de que isso nunca seria alcançado. Mas, na verdade, não ligavam muito. O princípio de “poder conhecer” é que era fundamental, pois ele enterrava o livre arbítrio!

O homem deixava de ter liberdade sobre suas próprias decisões: todas elas eram, conforme esta visão, frutos de meras condições físicas que podiam ser previstas pelas leis da natureza. Em outras palavras, você não toma suas próprias decisões: tudo o que você faz já está traçado no livro da natureza; tudo foi determinado desde o início dos tempos. Daí o nome “determinismo”. Ora, a conclusão óbvia de não ser responsável pelas suas ações é que você também não pode ser responsabilizado; portanto, nem punido.

O corolário continua, pois outro personagem relevante suplantado pelo determinismo é Deus. Se tudo o que acontece aqui neste mundo já está bem determinado e você não é sujeito das suas ações, então Deus passa a ter, na melhor das hipóteses, um papel secundário no começo dos tempos, como primeira causa. Esta é a posição defendida pelos “deístas” – claramente uma heresia para os católicos que sempre defenderam que Deus não só cria o mundo, mas o sustenta e age nele através da história. O “cientificismo” (o triunfalismo da ciência, supostamente capaz de explicar tudo) nasce junto com a ciência: é um efeito colateral, que tem raiz na soberba de acharmos que somos capazes de conhecer tudo sem precisar de Deus. Temos o conhecimento e somos como deuses. O pecado original se perpetua.

Os deterministas, no entanto, jamais poderiam imaginar que a própria física de Sir Isaac Newton iria provar que eles estavam errados. Quem primeiro percebeu isso foi o grande matemático francês Henri Poincaré, no final do século XIX. Ele lançou as bases teóricas do que viria a ser conhecido por “Teoria do Caos”. Poincaré demonstrou que, para certas classes de problemas físicos, não é possível prever as posições e velocidades dos corpos após um determinado lapso de tempo. A causa deste comportamento não é difícil de entender. Como falei antes, para prever um movimento precisamos conhecer as leis de força e, num dado instante, a posição e velocidade do objeto. Mas tanto a posição quanto a velocidade precisam ser medidas, e não podemos medi-las com precisão infinita. Ainda que seja possível medir sempre com mais precisão com o progresso da técnica, sempre fica uma incerteza. O que Poincaré mostrou é que, por menor que seja esta incerteza, em certos problemas ela se amplia de tal forma depois de um tempo que é impossível prever o que acontecerá dali em diante. Isso acontece, por exemplo, no movimento orbital de mais de dois corpos, como no Sistema Solar. Também acontece nas previsões meteorológicas ou no simples gotejar de uma torneira. Os deterministas estavam errados: a natureza nos prega peças e, usando as próprias leis de Newton, é possível mostrar que nem sempre se pode determinar o que acontecerá no futuro.

A verdade é que, apesar das pretensões cientificistas, o método científico não tem o poder de compreender toda a realidade. A Ciência é só uma das possíveis leituras da realidade. Uma leitura muito rica e que já demonstrou ser capaz de coisas incríveis, sem dúvida; no entanto, querer transformar as conclusões pontuais das teorias, que se aplicam a contextos bem específicos, em conclusões gerais sobre a nossa existência é, inexoravelmente, uma atitude que leva ao fracasso. Na Ciência, todas as teorias são transitórias. Mais cedo ou mais tarde, descobre-se que elas estavam incompletas – ou erradas.

Aqui eu só mostrei esse processo dentro do próprio escopo da mecânica newtoniana: nem cheguei a falar sobre a Mecânica Quântica ou a Relativística. Nestas duas há muitos outros exemplos de como a natureza não nos permite traçar o futuro passo a passo. Continuamos livres, donos e responsáveis pelas nossas próprias decisões. E Deus parece que joga mesmo dados com o Universo… Mas essa é outra conversa: precisamos falar sobre Mecânica Quântica.

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O prof. Alexandre Zabot, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), é físico e doutor em Astrofísica. Aleteia lhe agradece pela generosidade de compartilhar conosco os seus artigos sobre as relações entre fé e ciência e convida os leitores a conhecerem o rico blog do professor, AlexandreZabot.

Fonte: www.aleteia.org