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Artigo N.º 1771 - O CORDEIRO DE DEUS - Parte 8
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Postado em: 14/06/09 às 14:38:49 por: James
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07 Janeiro 2004

Como vimos no capítulo anterior, os malditos sumo sacerdotes, mesmo enfurecidos por não poderem eles mesmos aplicar a pena de morte, sob o risco de terem de se haver com os romanos, malignamente passaram a acusar Jesus de crimes contra o poder de Roma, na tentativa de darem uma certa “legalidade” ao processo iníquo que tramavam.

E assim, empurram o Senhor para diante do tribunal romano, mesmo sabendo que Pilatos não haveria de condená-lo sem culpa. Certamente satanás já os havia instruído de que poderiam pressionar o governador romano, de uma forma odiosa e maligna, obrigando-o a condenar Jesus, mesmo contra todas as evidências de crime. Sigamos!
 
Jesus é conduzido a Pilatos

Conduziram Jesus, entre muitas crueldades, da casa de Caifás à de Pilatos, através do trecho mais populoso da cidade, que nessa ocasião formigava de peregrinos de toda a parte do país, além de uma multidão de estrangeiros. (...)
Jesus estava vestido apenas de sua túnica, toda suja de escarro e imundície. Do pescoço pendia-Lhe até os joelhos a longa corrente, de largos anéis, que, ao andar, Lhe batia dolorosamente de encontro aos joelhos. Tinha as mãos amarradas como na véspera e quatro soldados conduziam-nO pelas cordas, que Lhe saiam do cinturão.
Estava todo desfigurado pelas crueldades, com que O haviam torturado durante a noite; andava cambaleando, cabelo e barba em desalinho, o rosto pálido, inchado e cheio de manchas escuras, causadas pelos socos. Impeliam-nO com pancadas e injúrias. Tinham instigado a muitos do populacho para escarnecê-Lo, imitando-Lhe a entrada triunfal no Domingo de Ramos. Aclamavam-nO com todos os títulos de rei, em tom de mofa, jogavam-Lhe diante dos pés pedras, pedaços de madeira, paus, trapos sujos e zombavam, em versos e motejos, de sua entrada festiva. Os soldados conduziam-nO aos arrancos, sobre os obstáculos jogados no caminho; era uma crueldade sem fim.
Não muito longe da casa de Caifás estava a dolorosa e santa Mãe de Jesus, com Madalena e João, encostados ao canto de um edifício, esperando a aproximação do cortejo. A alma de Maria estava sempre com Jesus, mas quando podia ficar também corporalmente perto dEle, não lhe dava descanso o amor, impelindo-a a seguir-Lhe o caminho e as pegadas. (...)
De fato via-Lhe sempre os horríveis sofrimentos, mas inteiramente penetrados pela luz da santidade, do amor e da paciência, da vontade que se oferecia vítima pelos homens. Mas nesse momento se lhe apresentou à vista a realidade terrível e ignominiosa. Passaram diante dela os orgulhosos e assanhados inimigos de Jesus, os sumos sacerdotes do verdadeiro Deus, nas vestes santas de gala; passaram com a intenção deicida, representantes da malícia, mentira e maldição.
Os sacerdotes de Deus haviam-se tornado sacerdotes de Satanás. Que aspecto horrível! Depois o tumulto e a alegria dos judeus, todos os perjuros inimigos e acusadores e afinal Jesus, Filho de Deus e do Homem, seu filho, horrivelmente desfigurado e maltratado, amarrado, batido, empurrado, cambaleando mais do que andando, arrastado pelas cordas por cruéis carrascos, no meio de uma nuvem de injúrias e maldições. Aí, se ele não fosse o mais pobrezinho, o mais desamparado, o único que se conservava calmo, a rezar no íntimo do coração, cheio de amor, no meio dessa tempestade do inferno desencadeado, a angustiada Mãe não O teria reconhecido, naquele estado, horrivelmente desfigurado. (...)
Jesus tinha de suportar, também nesse caminho, que os amigos nos abandonam na desgraça; pois os habitantes de Ofel estavam todos reunidos num certo lugar do caminho e quando viram Jesus tão humilhado e desfigurado, entre os soldados, levado com injúrias e maus tratos, ficaram também abalados na fé; não podiam imaginar o rei, o profeta, o Messias, o Filho de Deus em tão miserável estado. (...)
Jesus perante Pilatos

Eram talvez seis horas da manhã, segundo o nosso modo de contar, quando a comitiva dos sumos sacerdotes e dos fariseus, com o nosso Salvador, horrivelmente maltratado, chegou ao palácio de Pilatos. Entre o mercado e a entrada do tribunal havia assentos em ambos os lados do caminho, onde se divertiam Anás e Caifás, e os conselheiros que os acompanhavam. Jesus foi conduzido alguns passos adiante, até a escada de Pilatos, pelos soldados, que o seguravam pelas cordas.
Quando lá chegaram, estava Pilatos deitado sobre uma espécie de leito, na sacada do terraço; tinha ao lado uma mezinha de três pés, em que se viam algumas insígnias de sua dignidade e outros objetos, dos quais não me lembro mais. Cercavam-no oficiais e soldados, que também tinham colocado lá insígnias do poder romano. Os sumos sacerdotes e judeus ficaram afastados do tribunal, porque, aproximando-se mais, se teriam contaminado; segundo a lei havia um certo limite, que não transgrediam.
Quando Pilatos os viu chegar tão apressados, com tanto tumulto e gritaria, conduzindo Jesus maltratado, levantou-se e falou em tom tão cheio de desprezo, como talvez algum orgulhoso marechal francês falaria aos deputados de uma cidadezinha: “O que vindes fazer tão cedo? Como pusestes este homem em tão mísero estado? Começais cedo a esfolar e matar”. Eles, porém, gritaram aos soldados: “Adiante! Levai-O ao tribunal”. Depois se dirigiram a Pilatos: “Escutai as nossas acusações contra este criminoso; não podemos entrar no tribunal, para não nos tornarmos impuros”.(...)
Os soldados puxaram Jesus pelas cordas, escada acima, até o fundo do terraço, de onde Pilatos estava falando aos acusadores. O procurador romano já ouvira falar muito de Jesus. Quando O viu tão horrivelmente maltratado e desfigurado e, contudo conservando uma dignidade inabalável, sentiu cada vez mais nojo e desprezo dos sacerdotes e conselheiros judaicos, que lhe tinham já antes prevenido, que trariam Jesus de Nazaré, réu de morte, perante o tribunal, fazendo-lhes sentir que não estava disposto a condená-Lo sem culpa provada.
Disse-lhes, pois, em tom brusco e desdenhoso: “De que crime acusais este homem?”. A que responderam irritados: “Se não O conhecêssemos como malfeitor, não vo-Lo teríamos entregado”. Disse-lhes Pilatos: “Pois tomai e julgai-O segundo a vossa lei”. - “Sabeis, responderam os judeus, que não nos compete o direito absoluto de executar uma sentença de morte”.
Os inimigos de Jesus estavam cheios de escárnio e raiva; fizeram tudo com precipitação e violência, para acabar com Jesus antes de começar o tempo legal da festa, a fim de poderem sacrificar o cordeiro pascal. Mas não sabiam que Ele era o verdadeiro Cordeiro pascal, que eles mesmos conduziam ao tribunal do juiz pagão, servidor de falsos deuses, em cujo limiar não queriam contaminar-se, para poder nesse dia comer o cordeiro pascal.(...)
Quando Pilatos ouviu que Jesus se fazia chamar o Cristo, rei dos judeus, tornou-se pensativo. Saindo da sacada, entrou na sala contígua ao tribunal, lançando, ao passar um olhar atento a Jesus e deu ordem à guarda de trazê-Lo à sala do tribunal.
Pilatos era pagão supersticioso de espírito confuso e inconstante. (...) Já ouvira falar da promissão da vinda de um Messias, rei dos judeus, mas como pagão que era, não o acreditava, nem podia compreender que espécie de rei seria; quando muito, podia pensar, como os judeus instruídos e os herodianos daquele tempo, num rei poderoso e conquistador. Tanto mais ridícula lhe parecia por isso a acusação de que esse Jesus que estava diante dele, tão humilhado e desfigurado, pudesse declarar ser aquele Messias, aquele rei. Como, porém, os inimigos de Jesus apresentassem isso como crime contra os direitos do imperador, mandou conduzir o Salvador à sua presença, para interrogá-Lo.(...)
Pilatos saiu outra vez para o terraço; não podia compreender Jesus; mas sabia que não era um rei que quisesse prejudicar ao imperador, nem era pretendente a um reino deste mundo; o imperador, porém, não se importava com um reino do outro mundo. Pilatos gritou, pois, da sacada aos sumos sacerdotes: “Não acho nenhum crime neste homem”. - os inimigos de Jesus irritaram-se de novo e proferiram uma torrente de acusações contra Ele. O Senhor, porém, permanecia calado e rezava por esses pobres homens e quando Pilatos se Lhe dirigiu, perguntando-Lhe: “Não tens nada a responder a todas essas acusações?”. Jesus não proferiu uma só palavra, de modo que Pilatos, surpreso, Lhe disse: “Vejo bem que empregam mentiras contra ti” - (em vez de mentiras usou outra expressão, que, porém, esqueci). Os acusadores continuavam, cheios de raiva, a acusá-Lo, dizendo: “0 que? Não achais crime nEle? Não é então crime sublevar todo o povo, espalhar sua doutrina em todo o país, da Galiléia até aqui?”.
Quando Pilatos ouviu a palavra Galiléia, refletiu um momento e perguntou: “Esse homem é da Galiléia, súdito de Herodes?”. Os acusadores responderam: “Sim, seus pais moravam em Nazaré e Ele tem domicílio atual em Cafarnaum”. Então disse Pilatos: “Pois que é galileu e súdito de Herodes, conduzi-O a este; ele está aqui na festa e pode julgá-Lo”. (...)
Os inimigos de Jesus, furiosos por lhes haver Pilatos negado a demanda e terem de ir ao tribunal de Herodes, fizeram recair toda a raiva sobre Jesus. Cercaram-nO de novo de soldados e, irritadíssimos, amarraram-Lhe as mãos e com empurrões e pancadas, conduziram-nO à toda pressa, através da multidão que se apinhava no fórum e depois por uma rua, até o palácio de Herodes, que não ficava muito longe. Acompanharam-nos soldados romanos.
Cláudia Prócula, esposa de Pilatos, mandara-lhe dizer por um criado, durante as últimas discussões, que desejava falar-lhe urgentemente. Quando Jesus foi conduzido a Herodes, estava escondida numa galeria alta, olhando com grande angústia e tristeza para o cortejo que passava pelo fórum.

Pilatos e a Esposa

Enquanto Jesus era conduzido a Herodes e lá o cobriam de insultos e escárnio, vi Pilatos ir ao encontro da esposa, Cláudia Prócula. Encontraram-se numa pequena casa, construída sobre um terraço do jardim, atrás do palácio de Pilatos. Cláudia estava muito incomodada e comovida. (...) Conversou muito tempo com Pilatos, conjurando-o por tudo que lhe era santo a não fazer mal a Jesus, o Profeta, o mais Santo dos santos e contou-lhe parte das visões maravilhosas que vira, a respeito de Jesus, durante a noite. (...) De minha própria experiência sei bem quanto um coração compassivo sofre em tais visões; pois compreende melhor os sentimentos de outrem quem já os sentiu em si mesmo.(...)
Pilatos ficou muito admirado e até sobressaltado pelo que a esposa lhe contou, comparava-o com tudo que ouvia cá e lá sobre Jesus, com a raiva dos judeus, com o silêncio do Mestre e as firmes e maravilhosas respostas que lhe dera às perguntas; ficou perturbado e inquieto; deixou-se, porém, em pouco vencer pelas insistências da mulher e disse-lhe: “Já declarei que não acho crime nesse homem; não O condenarei, já percebi toda a maldade dos judeus”. Ainda falou sobre as declarações que Jesus tinha feito contra si mesmo e até tranqüilizou a mulher, dando-lhe um penhor, como garantia da promessa. Não sei mais se foi uma jóia ou um anel ou sinete que lhe deu por penhor. Assim se separaram.
Conheci Pilatos como homem confuso, ambicioso, indeciso, orgulhoso e vil ao mesmo tempo; sem verdadeiro temor de Deus, não recuava diante das ações mais vergonhosas, se delas esperava qualquer lucro e ao mesmo tempo era um vil covarde, que se entregava à toda espécie de ridículas superstições, procurando a proteção dos deuses, quando se achava em situação difícil.
“Talvez”, disse consigo, “seja uma espécie de Deus dos judeus, que deve reinar sobre tudo; alguns reis dos adoradores dos astros, vindos do oriente, já vieram uma vez a Jerusalém, procurar tal rei; talvez Este pudesse elevar-Se acima dos deuses e do imperador e eu teria uma grande responsabilidade, se Ele não morresse. Talvez a sua morte seja o triunfo dos meus deuses”. (...)
Juntava-se, no entanto cada vez mais povo no mercado e na vizinhança da rua pela qual Jesus fora conduzido a Herodes. Havia, porém, uma certa ordem, pois o povo reunia-se em certos grupos, segundo as cidades ou regiões donde vieram à festa. Os fariseus mais encarniçados de todas as regiões onde Jesus tinha ensinado estavam com os patrícios, esforçando-se por excitar contra Jesus o povo instável e perplexo. Os soldados romanos estavam reunidos em grande número no posto de guarda, diante do palácio de Pilatos, outros tinham ocupado todos os pontos importantes da cidade.

Jesus perante Herodes

O palácio do Tetrarca Herodes estava situado ao norte do fórum, na cidade nova, não muito longe do palácio de Pilatos. Um destacamento de soldados romanos acompanhou o cortejo, a maior parte oriunda da região entre a Itália e a Suíça. Os inimigos de Jesus, furiosos por ter de fazer tantas caminhadas, não cessavam de ultrajá-Lo e de fazê-Lo empurrar e arrastar pelos soldados.
O mensageiro de Pilatos chegou antes do cortejo ao palácio de Herodes, que assim, já avisado, O esperava sentado numa espécie de trono, sobre almofadas, numa vasta sala; rodeavam-no muitos cortesãos e soldados. (...) Pilatos tinha-lhe também comunicado que não achara crime em Jesus; e o hipócrita tomou-o como aviso, para tratar os acusadores com certa frieza, o que ainda mais lhes aumentou a raiva.
Proferiram acusações tumultuosamente, logo ao entrarem; Herodes, porém, olhou com curiosidade para Jesus e quando O viu tão desfigurado e maltratado, o cabelo desgrenhado, o rosto dilacerado e coberto de sangue e imundícies, a túnica toda suja de lama, esse rei mole e libertino, sentiu dó e nojo. Exclamou um nome de Deus que me soou como “Jeovah”, virou o rosto, com um gesto de nojo e disse aos sacerdotes: “Levai-O daqui, limpai-O. Como podeis trazer à minha presença um homem tão sujo e maltratado?” Os soldados levaram então Jesus ao átrio; trouxeram água numa bacia e um esfregão e limparam-nO cruelmente; pois o rosto estava ferido e passavam o esfregão com brutalidade.(...)
Herodes dirigiu-se então com muita verbosidade e afabilidade, proferindo tudo que sabia dEle. A princípio Lhe fez várias perguntas e manifestou o desejo de vê-Lo fazer um milagre; como, porém, Jesus não respondesse palavra alguma e permanecesse com os olhos baixos, ficou Herodes irritado e envergonhado diante dos presentes, mas não quis mostrá-lo e continuou a fazer-Lhe uma torrente de perguntas.
(Segue um série de perguntas, às quais Jesus não respondeu e muitas constam dos Evangelhos)
À toda essa torrente de palavras não obteve resposta alguma de Jesus. Foi-me explicado agora e, já há mais tempo, que Jesus não lhe respondeu, porque Herodes foi excomungado, tanto pelas relações adúlteras com Herodíades, como também pelo assassínio de João Batista. Anás e Caifás aproveitaram a indignação que lhe causou o silêncio de Jesus, para de novo proferir as acusações. (...)
Herodes, ainda que irritado pelo silêncio de Jesus, não se esqueceu dos seus interesses políticos. Não quis condenar Jesus; pois Este lhe inspirava um terror secreto e já era torturado de remorsos, por causa da morte de João Batista; também odiava os sumos sacerdotes, porque não tinham querido desculpar-lhe o adultério e o haviam excluído dos sacrifícios pelo mesmo motivo.
Mas o motivo principal era que não queria condenar aquele a quem Pilatos declarara inocente; convinha-lhe aos interesses políticos aplaudir a opinião de Pilatos, diante dos príncipes dos sacerdotes. A Jesus, porém, cobriu de desprezo e insultos; disse aos criados e guardas, dos quais contava uns duzentos no palácio. “Levai para fora este tolo e prestai a este rei ridículo as honras que se Lhe devem; pois é mais um doido do que um criminoso”.
Conduziram então o Salvador a um vasto pátio, onde o cobriram de escárnio e indizíveis crueldades. Esse pátio estendia-se por entre as alas do palácio e Herodes, de pé num terraço, assistiu por algum tempo a esse espetáculo cruel. Anás e Caifás, porém, andavam sempre atrás dele e procuravam por todos os meios movê-lo a condenar Jesus; mas Herodes disse-lhes, de modo que os romanos da escolta o ouvissem: “Seria um crime de minha parte, se O condenasse”. Queria certamente dizer: “Seria um crime contra a sentença de Pilatos, que teve a gentileza de mandá-Lo a mim”.
Vendo que não conseguiam nada de Herodes, os sumos sacerdotes e os inimigos de Jesus enviaram alguns dos seus, com dinheiro, a Acra, bairro da cidade onde se achavam nessa ocasião muitos fariseus, aos quais mandaram dizer que fossem, com os respectivos partidários, às vizinhanças do palácio de Pilatos; fizeram também distribuir entre o povo muito dinheiro, para levá-lo a pedir tumultuosamente a morte de Jesus. (...).
Enquanto os fariseus estavam ocupados nesses negócios e intrigas, sofreu Nosso Senhor o escárnio e a brutalidade mais ignominiosa da soldadesca ímpia e grosseira, à qual Herodes O tinha entregue, para ser maltratado, como tolo que não lhe quisera responder. Empurraram-nO para o pátio e um deles trouxe um comprido saco branco, que achara no quarto do porteiro e em que, havia tempos, viera uma remessa de algodão. Cortaram com as espadas um buraco no fundo do saco e meteram-nO por entre grandes gargalhadas, sobre a cabeça de Jesus; outro trouxe um farrapo vermelho e pôs-Lhe em redor do pescoço, como um colar; o saco caia-Lhe sobre os pés. (...)
Havia lá cerca de duzentos soldados e servidores do palácio de Herodes, gente de todas as regiões e cada um dos mais perversos queria fazer honra a seu país e distinguir-se diante de Herodes, inventando um novo ultraje para Jesus. Faziam tudo precipitadamente, empurrando-se uns aos outros, entre escárnios; os inimigos de Jesus tinham pago dinheiro a alguns deles, que no tumulto Lhe deram diversas pauladas na santa cabeça. Jesus fitava-os com os olhos suplicantes, suspirando e gemendo de dor; mas zombavam dele, imitando-Lhe os gemidos; a cada nova brutalidade rompiam em gargalhadas e insultos, não havia nenhum que Lhe mostrasse piedade. Tinha a cabeça toda banhada em sangue e vi-O cair três vezes, sob as pauladas, mas vi também uma aparição como de Anjos, que, chorando, desceram sobre Ele e lhe ungiram a cabeça. Foi-me revelado que sem esse auxílio de Deus, as pauladas teriam sido mortais. Os filisteus, que fizeram o cego Sansão correr na Pista de Gaza, até cair morto de cansaço, não foram tão violentos e cruéis como esses perversos.
Urgia o tempo para os Sumos Sacerdotes, porque em pouco deviam ir ao Templo e quando receberam aviso de que todas as suas ordens tinham sido cumpridas, insistiram mais uma vez com Herodes, pedindo-lhe que condenasse Jesus. Mas o tetrarca tinha em vista apenas suas relações com Pilatos e mandou reconduzir-lhe Jesus, vestido do manto derrisório.

Jesus é reconduzido a Pilatos!

Cada vez mais enfurecidos, tornaram os príncipes dos sacerdotes e os inimigos de Jesus a trazê-Lo de novo de Herodes a Pilatos. Estavam envergonhados de não lhe ter conseguido a condenação e ter de voltar novamente para aquele que já O tinha declarado inocente. Por isso tomaram na volta outro caminho, cerca de duas vezes mais longo, para mostrá-Lo naquela humilhação em outra parte da cidade, para poder maltratá-Lo tanto mais pelo caminho e dar tempo aos agentes de concitarem o povo a agir conforme as maquinações tramadas.
O caminho pelo qual conduziram Jesus era mais áspero e desigual; acompanharam-nO, estimulando os soldados sem cessar a maltratá-Lo. A veste derrisória, o longo saco, impedia o Senhor de andar; arrastava-se na lama, várias vezes caiu, embaraçando-se nele e era levantado cada vez com arrancos nas cordas, pauladas na cabeça e pontapés. Sofreu nesse caminho indizíveis insultos e crueldades, tanto daqueles que o conduziam, como também do povo; mas Ele rezava, pedindo a Deus que não O deixasse morrer, para poder terminar a sua Paixão e nossa Redenção.(...)
Jesus foi novamente conduzido pela rua ao palácio de Pilatos; empurraram-nO, para subir a escada que conduzia ao terraço; mas pelos brutais arrancos dos soldados, pisou na longa veste e caiu com tal violência sobre os degraus de mármore, que os salpicou de sangue sagrado. Os inimigos do Mestre, que tinham de novo ocupado os assentos, ao lado do fórum e o populacho romperam na gargalhada por essa queda de Jesus e os soldados empurraram-nO a pontapés pelos últimos degraus.
Pilatos estava recostado no seu assento, que se parecia com um pequeno leito de repouso; a pequena mesa estava ao lado; como dantes, estavam também agora com ele alguns oficiais e outros homens, com rolos de pergaminho. Ele se dirigiu ao terraço, do qual falava ao povo e disse aos acusadores de Jesus: “Vós me entregastes este homem como agitador do povo à revolta; interroguei-O diante de vós e não O achei réu do crime de que O acusais.
Também Herodes não lhe achou crime algum; pois vos mandei a Herodes e vejo que não foi condenado à morte. Portanto mandá-Lo-ei açoitar e depois soltar”. Levantou-se, porém, entre os fariseus violenta murmuração e clamor e a agitação e distribuição de dinheiro entre o povo tomou mais intensidade. Pilatos tratou-os com muito desprezo e expressões satíricas; entre outras, disse essa: “Não vereis por acaso correr bastante sangue inocente ainda hoje, na hora dos sacrifícios?”

Jesus é posposto a Barrabás

Ora, era nesse tempo que o povo vinha, antes da festa da Páscoa, pedir, segundo um antigo costume, a liberdade de um preso. Os fariseus tinham enviado, justamente por isso, alguns agentes ao bairro de Acra, a oeste do Templo, para dar dinheiro ao povo, instigando-o a que não pedisse a libertação, mas a crucificação de Jesus. Pilatos, porém, esperava que o povo pedisse a liberdade de Jesus e resolveu dar-lhes a escolher entre Jesus e um terrível facínora, que já fora condenado à morte, para que quase não tivessem que escolher. Esse celerado chamava-se Barrabás e era amaldiçoado por todo o povo; tinha cometido assassinatos durante uma agitação; vi que também tinha feito muitos outros crimes.(...)
Houve um movimento entre o povo no fórum; um grupo avançou, com os oradores à frente; esses levantaram a voz e bradaram a Pilatos, que estava no terraço: “Pilatos, fazei-nos o que sempre fizestes, por ocasião da festa”. Pilatos, que só estava esperando por isso, respondeu-lhes: “Tendes o costume de receber de festas a liberdade de um preso. A quem quereis que solte, Barrabás ou Jesus, o rei dos judeus, que dizem ser o Ungido do Senhor?”
Pilatos, todo indeciso, chamava-O “rei dos judeus”, já como romano orgulhoso, que os desprezava, por terem um rei tão miserável, que tivessem de escolher entre Ele e um assassino; já com uma certa convicção de que Jesus pudesse ser de fato esse rei maravilhoso dos judeus, o Messias prometido; mas também esse pressentimento da verdade era em parte fingimento e mencionou esse título do Senhor porque bem sentia que a inveja era o motivo principal do ódio dos príncipes dos sacerdotes contra Jesus, a quem considerava inocente.
Após a pergunta de Pilatos, houve uma curta hesitação e deliberação entre o povo e só poucas vozes gritaram precipitadamente: “Barrabás!” Pilatos, porém, foi chamado por um criado da mulher; retirou-se um instante do terraço e o criado mostrou-lhe o penhor que ele dera de manhã à esposa e disse-lhe: “Cláudia Prócula manda lembrar-vos vossa promessa”. Os fariseus, no entanto, e os príncipes dos sacerdotes estavam em grande agitação; aproximaram-se do povo, ameaçando e instigando-o; mas não precisavam de tanto esforço.(...)
Pilatos, lembrando-se, à vista do penhor, da súplica da esposa, devolveu-lho, como sinal de que cumpria a promessa. Voltou ao terraço e sentou-se ao lado da mezinha; os sumos sacerdotes também tornaram a ocupar os respectivos assentos e Pilatos exclamou de novo: “Qual dos dois quereis que eu solte?” - Então se levantou um grito geral por todo o fórum e de todos os lados: “Não queremos Este; entregai-nos Barrabás!” Pilatos gritou mais uma vez: “Que farei então de Jesus, que é chamado o Cristo, o rei dos judeus?” - “Crucificai-O, Crucificai-O!” Pilatos perguntou então pela terceira vez: “Mas que mal tem feito? Eu pelo menos não Lhe acho crime de morte. Mas vou mandá-Lo açoitar e depois soltar”. Mas o grito “Crucificai-O! Crucificai-O!” rugia pelo fórum, como uma tempestade infernal e os sumos sacerdotes e fariseus agitavam-se e gritavam como loucos de raiva. Então Pilatos lhes entregou Barrabás, o malfeitor e condenou Jesus à flagelação.

A flagelação de Jesus

Pilatos, juiz covarde e indeciso, pronunciara várias vezes a palavra: “Não lhe acho crime algum; por isso vou mandá-Lo açoitar (1) e depois soltar”. A gritaria dos judeus, porém, continuava: “Crucificai-O! Crucificai-O!”. Contudo queria Pilatos tentar ainda fazer sua vontade e deu ordem de açoitar Jesus à maneira dos romanos. Então entraram os soldados e, batendo e empurrando a Jesus brutalmente, com os curtos bastões, conduziram nosso pobre Salvador, já tão maltratado e ultrajado, através da multidão tumultuosa e furiosa, para o fórum, até a coluna de flagelação, que ficava em frente de uma das arcadas do mercado, ao norte do palácio de Pilatos e não longe do posto da guarda.
Os carrascos, jogando os açoites, varas e cordas no chão, ao pé da coluna, vieram ao encontro de Jesus. Eram seis homens de cor parda, mais baixos do que Jesus, de cabelo crespo e eriçado, barba muito rala e curta; vestiam apenas um pano ao redor da cintura, sandálias rotas e uma peça de couro ou outra fazenda ordinária, que lhes cobria peito e costas como um escapulário, aberto dos lados; tinham os braços nus. Eram criminosos comuns, das regiões do Egito, que trabalhavam como escravos ou degredados na construção de canais e edifícios públicos; escolhiam-se os mais ignóbeis e perversos, para tais serviços de carrascos no pretório.
Amarrados à mesma coluna, alguns pobres condenados tinham sido açoitados até à morte, por esses homens horríveis, cujo aspecto tinha algo de bruto e diabólico e pareciam meio embriagados. Bateram em Nosso Senhor com os punhos e com cordas, apesar de não lhes opor resistência alguma, arrastaram-nO com brutalidade furiosa, até à coluna da flagelação. É uma coluna isolada, que não serve para sustentar o edifício. É de tamanho tal, que um homem alto, com o braço estendido, lhe pode tocar a extremidade superior, arredondada e munida de uma argola de ferro; na parte de trás, no meio da altura, há também argolas ou ganchos. É impossível descrever a brutalidade bárbara com que esses cães danados maltrataram a Jesus, nesse curto caminho; tiraram-Lhe o manto derrisório de Herodes e quase jogaram nosso Salvador por terra.
Jesus trepidava e tremia diante da coluna. Ele mesmo se apressou a despir a roupa, com as mãos inchadas e ensangüentadas pelas cordas, enquanto os carrascos O empurravam e puxavam. Orava de um modo comovente e volveu a cabeça por um momento para a Mãe SS. que, dilacerada de dor, estava com as mulheres piedosas num canto das arcadas do mercado, não longe do lugar de flagelação e disse, voltando-se para a coluna, porque O obrigaram a despir-se também do pano que lhe cingia os rins: “Desvia os teus olhos de mim”. Não sei se pronunciou essas palavras ou as disse só interiormente, mas percebi que Maria as entendeu; pois a vi nesse momento desviar o rosto e cair sem sentidos nos braços das santas mulheres veladas, que a rodeavam.
Então abraçou Jesus a coluna e os algozes ataram-Lhe as mãos levantadas à argola de cima, dando-Lhe arrancos brutais e praguejando horrivelmente todo o tempo; puxaram-Lhe assim todo o corpo para cima, de modo que os pés, amarrados em baixo à coluna, quase não tocavam no chão. O Santo dos Santos estava cruelmente estendido sobre a coluna dos malfeitores, em ignominiosa nudez e indizível angústia e dois dos homens furiosos começaram, com crueldade sanguinária, a flagelar-Lhe todo o santo corpo, da cabeça aos pés. Os primeiros açoites ou varas que usaram, pareciam ser de madeira branca e dura; talvez fossem também feixes de tendões secos de boi ou tiras duras de couro branco.
Nosso Senhor e Salvador, o Filho de Deus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, contraia-se e torcia-se, como um verme, sob os açoites dos criminosos; ouviam-se-Lhe os gemidos e lamentos, doces e claros, como uma prece afetuosa no meio de dores dilacerantes, entre o sibilar e estalar dos açoites dos carrascos. (...)
A multidão dos judeus mantinha-se afastada do lugar da flagelação, numa distância, talvez, da largura de uma rua. Soldados romanos estavam postos em diferentes lugares, especialmente pelo lado do posto de guarda; perto da coluna de flagelação havia grupos de populacho, que iam e vinham silenciosos ou zombando; vi alguns que se sentiram comovidos; era como se os tocasse um raio de luz saindo de Jesus.(...)
O corpo de Jesus estava todo coberto de contusões vermelhas, pardas e roxas e o sangue sagrado corria-Lhe por terra; agitava-se em movimentos convulsivos. De todos os lados se ouviam insultos e motejos.
Durante a noite tinha feito muito frio. Desde a madrugada até essa hora, não clareara o céu e, com grande espanto do povo, caíram algumas curtas chuvas de pedra. Pelo meio dia clareou e apareceu o sol.
O segundo par de carrascos caiu então com novo furor sobre Jesus; tinham outra espécie de açoites; eram como varas de espinheiro, com nós e esporões. Os violentos golpes rasgaram todas as pisaduras do santo corpo de Jesus; o sangue regou o chão, em redor da coluna e salpicou os braços dos carrascos. Jesus gemia, rezava, torcia-se de dor.
(...) Os dois seguintes carrascos bateram em Jesus com flagelos: eram curtas correntes ou correias, fixas num cabo, cujas extremidades estavam munidas de ganchos de ferro, que arrancavam, a cada golpe, pedaços de pele e carne das costas. Oh! Quem pode descrever o aspecto horrível e doloroso deste suplício?
Mas a crueldade dos carrascos ainda não estava satisfeita; desligaram Jesus e amarraram-nO de novo, mas com as costas viradas para a coluna. Como, porém, estivesse tão enfraquecido, que não podia manter-se em pé, passaram-Lhe cordas finas sobre o peito e sob os braços e debaixo dos joelhos, amarrando-O assim todo à coluna; também Lhe ataram as mãos atrás da coluna, a meia altura.
Todo o corpo sagrado contraia-se-Lhe dolorosamente, as chagas e o sangue cobriam-Lhe a nudez. Como cães raivosos, caíram-Lhe os carrascos em cima, com os açoites; um tinha uma vara mais delgada na mão esquerda, com que Lhe batia no rosto. O corpo de Nosso Senhor formava uma só chaga, não havia mais lugar são. Ele olhava para os carrascos, com os olhos cheios de sangue, que suplicavam misericórdia, mas redobravam os golpes furiosos e Jesus gemia, cada vez mais fracamente: “Ai!”
A horrível flagelação durara cerca de três quartos de hora (2), quando um estrangeiro, homem do povo, parente do cego Ctesifon, curado por Jesus, se aproximou precipitadamente da coluna, pelo lado de trás e, com uma faca em forma de foice na mão, gritou indignado: “Parai! Não flageleis este homem inocente até morrer!” Os carrascos, meio embriagados, pararam espantados e o homem cortou rapidamente, como de um único golpe, as cordas de Jesus, que todas estavam seguras num prego de ferro, atrás da coluna; depois o estrangeiro fugiu e perdeu-se na multidão. Jesus, porém, caiu desfalecido, ao pé da coluna, sobre a terra empapada de sangue. Os carrascos deixaram-nO lá e foram beber, depois de chamar os auxiliares do carrasco, que estavam no posto de guarda, ocupados em trançar a coroa de espinhos.
Jesus torcia-se ainda de dor, ao pé da coluna, as chagas a sangrar; nesse momento vi passar perto algumas raparigas libertinas, com as vestes imprudentemente arregaçadas; estavam de mãos dadas e pararam diante de Jesus, olhando-O com repugnância melindrosa; com isso sentiu Jesus ainda mais as feridas e levantou para elas o rosto ensangüentado, com um olhar suplicante; então se afastaram, continuando o caminho e os carrascos e soldados dirigiram-lhes, entre gargalhadas, palavras indecentes.
Vi várias vezes, durante a flagelação, aparecerem Anjos tristes em redor de Jesus; ouvi a oração que o Senhor dirigia ao Pai eterno, no meio dos tormentos e insultos, oferecendo-se para expiação dos pecados dos homens. Mas nesse momento, quando jazia, banhado em sangue, ao pé da coluna, vi um anjo, que lhe restituía as forças; parecia dar-Lhe um alimento luminoso.
Então se aproximaram novamente os carrascos e dando-Lhe pontapés, mandaram-nO levantar-se, dizendo que ainda não tinham acabado com o rei, querendo ainda bater-Lhe, arrastou-se Jesus pelo chão, para alcançar a faixa de pano e cobrir a nudez; mas os perversos celerados empurravam-na com os pés para lá e para cá, rindo-se de ver Jesus em sangrenta nudez arrastar-se penosamente, como um verme esmagado, para alcançar o pano e cobrir o corpo dilacerado.
Depois O impeliram, a pontapés e pauladas, a levantar-se sobre as pernas vacilantes; não Lhe deram tempo de vestir a túnica, mas lançaram-lha sobre os ombros e Jesus enxugou nela o sangue do rosto, enquanto O conduziram apressadamente ao corpo da guarda, dando uma volta. Podiam tê-Lo levado por um caminho mais curto, porque as arcadas e edifícios em redor do fórum eram abertos, de modo que se podia enxergar o corredor sob o qual jaziam presos os dois ladrões e Barrabás; mas passaram com Jesus diante dos sumos sacerdotes, que gritaram: “Levai-O à morte! Levai-O à morte!” e viraram a cabeça com nojo. Conduziram-nO para o pátio interior do corpo da guarda. Quando Jesus entrou, não havia lá soldados, mas escravos, soldados e marotos, a escória do povo.
Vendo que o povo estava tão agitado, Pilatos mandara vir reforço da cidadela Antônia. Essas forças cercavam em boa ordem o corpo da guarda; podiam falar, rir e insultar a Jesus, mas não sair das fileiras. Pilatos queria com eles manter o povo em respeito. Podia bem haver lá mil homens.(..)

(1) A flagelação, precisa de uma explicação. Normalmente a flagelação romana consistia em aplicar 40 chibatadas – os cidadãos romanos levavam uma a menos – e que era feita quase sempre por dois algozes, cada um batendo da sua vez e com força. O chicote era feito de couro, com três tentos, mas cada tendão tinha na ponta um mordente, que era feito ou de osso do dedo de carneiro, ou de chumbo. Na cabeça do mordente era feito um corte de serra, em forma de cruz, de tal modo que, quando batesse no corpo da vítima, ele cravava e arrancava sempre pedaços de carne. Este processo era de tal forma doloroso, que muitos morriam, antes mesmo de acabar a tortura. Na verdade, era preciso um intervalo regular entre cada chibatada, para que a vítima pudesse respirar, e depois expelir o ar, porque o máximo que um ser humano conseguiu suportar, sem morrer, foram 16 golpes sem parar. Com Jesus, o ódio dos algozes era tanto – porque Ele não gritava – que eles não respeitaram estes limites, e bateram sem cessar, em dois, até que ele quase desmaiasse. Foi preciso que os anjos interviessem, várias vezes, com aquele alimento celeste que lhe davam, para que Jesus conseguisse suportar aquela saraivada de golpes. É que, se a vítima não puder respirar entre os intervalos, a cada golpe ela instintivamente puxava o fôlego, só inspira, e assim sucessivamente, acaba tendo uma parada respiratória, pois não consegue afrouxar os músculos para expelir o ar.
(2) Outra explicação é sobre o número de golpes que Jesus recebeu. Para Santa Brígida – está nas 15 orações – Jesus falou que recebeu ao todo na flagelação, 5.480 golpes em todo o corpo. Isso aconteceu mais na noite e madrugada de quinta feira, pelos carrascos dos sumos sacerdotes. Mas para São Simão, Ele falou que no total fora 6.666 golpes, contando os que ele recebeu desde o momento da prisão no Horto das Oliveiras, até os que Ele recebeu pelas ruas, sendo levado de um lado para outro no julgamento, e também na subida final ao Calvário. Imaginem uma pessoa, levando 6.666 golpes, apenas de mão aberta, sem precisar tirar sangue. Como não ficaria? Então, pensemos nos sofrimentos de Jesus! Tudo por causa dos nossos pecados.

Jesus é coroado de espinhos e escarnecido pelos soldados

Durante a flagelação falou Pilatos ainda várias vezes ao povo, que uma vez até gritou: “Ele deve morrer, ainda que todos nós também pereçamos”. Quando Jesus foi conduzido ao corpo da guarda, para ser coroado de espinhos, ainda gritaram: “Morra! Morra!” pois chegavam cada vez novas turbas de judeus, que pelos emissários dos sumos sacerdotes eram incitados a gritar assim.
Houve depois uma curta pausa. Pilatos deu ordens aos soldados. Os sumos sacerdotes e os conselheiros, que estavam sentados em bancos, de ambos os lados da rua, à sombra das árvores ou sob lonas estendidas, diante do terraço de Pilatos, mandaram os criados trazerem alimentos e bebida. Vi também Pilatos de novo perturbado pela superstição; retirou-se sozinho, para oferecer incenso aos deuses e por certos sinais descobrir-lhes a vontade.
Vi que depois da flagelação a SS. Virgem e as amigas, tendo enxugado o sangue de Jesus, se afastaram do fórum. Vi-as com os panos ensangüentados, numa pequena casa encostada a um muro; não era longe do fórum; não me lembro mais de quem era. Não me recordo de ter visto João durante a flagelação.
Jesus foi coroado de espinhos e escarnecido no pátio interior do corpo da guarda, construído sobre os cárceres, ao lado do fórum. Esse pátio era cercado de colunas e todas as entradas tinham sido abertas. Havia ali cerca de cinqüenta miseráveis patifes, sequazes dos soldados, servos dos carcereiros, soldados e auxiliares dos carrascos, escravos e os criminosos que flagelaram Nosso Senhor; esses todos tomaram parte ativa nas crueldades praticadas em Jesus. No começo o povo tentou entrar, mas pouco depois cercaram mil soldados romanos o edifício. Permaneciam nas fileiras, mas com as zombarias e risos provocavam ainda o cruel exibicionismo dos carrascos para redobrarem as torturas de Jesus, animando-os com as risadas, como o aplauso anima os atores no palco.
Não posso relatar todas as torturas e ultrajes que os carrascos inventaram, para escarnecer o pobre Salvador. Ai! Jesus sofreu horrível sede; pois em conseqüência das feridas, causadas pela desumana flagelação, estava com febre e tremia; a pele e os músculos dos lados estavam dilacerados e deixavam entrever as costelas em vários lugares; a língua contraíra-se-Lhe espasmodicamente; somente o sangue sagrado que lhe corria da fronte, compadecia-se da boca ardente, que se abria ansiosa. Mas aqueles homens horríveis tomaram-Lhe a boca divina por alvo de nojentos escarros. Jesus foi assim maltratado por cerca de meia hora e a tropa, cujas fileiras cercavam o pretório, aplaudia com gritos e gargalhadas.

Ecce Homo

Reconduziram então Jesus ao palácio de Pilatos, a coroa de espinhos sobre a cabeça, o caniço nas mãos amarradas, coberto do manto vermelho. Jesus estava desfigurado, pelo sangue que Lhe enchia os olhos e Lhe escorria na boca e sobre a barba. O corpo, coberto de pisaduras e feridas, parecia-se-Lhe com um pano ensopado de sangue. Andava curvado e cambaleando; o manto era tão curto, que Jesus precisava curvar-se, para cobrir a nudez, porque Lhe tinham arrancado toda a roupa, no ato da coroação de espinhos.
Quando o pobre Jesus chegou ao primeiro degrau da escada, diante de Pilatos, até esse homem cruel estremeceu de horror e compaixão. Apoiou-se a um dos oficiais e como o povo e os sacerdotes ainda gritassem e insultassem, exclamou: “Se o demônio dos judeus é tão cruel, então não deve ser bom morar com ele no inferno”. Quando Jesus foi puxado penosamente, escada acima e conduzido ao fundo, Pilatos saiu para a sacada; foi dado um toque de trombeta, para chamar a atenção do povo, a que Pilatos queria falar. Disse, pois, aos príncipes dos sacerdotes e a todos os presentes: “Escutai, vou mandá-Lo conduzir mais uma vez para diante de vós, para que conheçais que não Lhe achei culpa alguma”.
Jesus foi então conduzido pelos soldados à sacada, ao lado de Pilatos, de modo que todo o povo reunido no fórum podia vê-Lo. Era um aspecto terrível, pungente, que primeiro causou no povo horror e penoso silêncio. O Filho de Deus ensangüentado dirigiu os olhos cheios de sangue, sob a coroa de espinhos, para o povo e Pilatos, que, ao lado, indicando-O com a mão, gritou aos judeus: “Eis aqui o Homem!”
Enquanto Jesus, com o corpo dilacerado, coberto do manto vermelho derrisório, abaixando a cabeça traspassada de espinhos e inundada de sangue, segurando nas mãos atadas o cetro de caniço, curvado para cobrir a nudez com as mãos, aniquilado pela dor e tristeza, mas ainda respirando infinito amor e mansidão, estava diante do palácio de Pilatos, como um espectro sangrento, exposto aos gritos furiosos dos sacerdotes e do povo, passaram pelo fórum grupos de forasteiros, homens e mulheres, com as vestes arregaçadas, em direção à piscina das Ovelhas, para ajudar a lavar os cordeiros da Páscoa, cujos balidos tristes se misturavam com os clamores sanguinários da multidão, como para dar testemunho em favor da Verdade, que se calava. Somente o verdadeiro cordeiro pascal de Deus, o revelado, mas não conhecido mistério desse santo dia, cumpriu a profecia e curvou-se em silêncio sobre o matadouro.
(...) Nos textos cortados, estavam inseridas muitas das frases que constam dos santos Evangelhos, mas que, por motivo de espaço foram reduzidas pelo Espírito Santo apenas ao essencial.
Cláudia Prócula, que estava muito angustiada pela hesitação do marido, mandou novamente um mensageiro a Pilatos mostrar-lhe o penhor e lembrar-lhe a promessa; ele, porém, lhe mandou uma resposta muito confusa e supersticiosa, da qual me lembro apenas que se referia aos deuses.
Quando os príncipes dos sacerdotes e os fariseus tiveram conhecimento da intervenção da mulher de Pilatos em favor de Jesus, mandaram espalhar entre o povo: “Os partidários de Jesus subornaram a mulher de Pilatos; se Ele ficar livre, unir-se-á aos romanos e nós todos pereceremos”.(..)
Pilatos, meio assustado, meio irritado pelas palavras de Jesus, saiu para a sacada e exclamou mais uma vez que queria soltar Jesus. Então gritaram: “Se o soltares, não és amigo de César; pois quem se declara rei, é inimigo de César”. Outros gritaram que o acusariam perante o imperador por perturbar-lhes a festa; que devia terminar a causa, porque eram obrigados, sob graves penas, a estar no Templo às dez horas. - O grito: “Morra! Crucificai-O!” levantou-se novamente de todos os lados; subiram até sobre os tetos planos das casas em redor do fórum e gritavam dali.
Então viu Pilatos que contra essa fúria não conseguiria nada; os gritos e o tumulto tinham algo de terrível e toda a multidão diante do palácio estava em tal estado de agitação, que era para recear uma rebelião. Pilatos mandou trazer água; o criado derramou-lhe água da bacia sobre as mãos, à vista de todo o povo e Pilatos gritou do pretório à multidão: “Sou inocente do sangue deste justo; vós tendes que responder pela sua morte”. Então se levantou um grito horrível, unânime, do povo reunido, no meio do qual havia gente de todos os lugares da Palestina: “Que o seu sangue caia sobre nós e nossos, filhos!”

Reflexão sobre estas visões

Todas as vezes que, nas meditações da dolorosa Paixão de Jesus Cristo, ouço esse grito espantoso dos judeus: “Que o seu sangue caia sobre nós e nossos filhos”, o efeito dessa solene maldição me é revelado e tornado sensível, em quadros maravilhosos e terríveis.
 Vejo acima do povo, que grita, um céu escuro, coberto de nuvens cor de sangue, das quais saem flagelos e espadas de fogo.
Vejo como se os raios dessa maldição atravessassem todos até os ossos e neles também os filhos.
Vejo o povo como envolvido em trevas e o grito sair-lhes das bocas como um fogo tenebroso e maligno, unir-se por cima das cabeças e cair de novo sobre eles, entrando mais profundo em alguns, pairando sobre outros.
Esses últimos eram aqueles que depois da morte de Jesus se converteram. O número destes não era, porém, pequeno; pois vejo Jesus e Maria, durante todos esses terríveis sofrimentos rezarem sempre pela salvação dos carrascos e todos esses horríveis tormentos não lhes causaram nenhum ressentimento. (...)
Vejo então inúmeras figuras diabólicas, cada uma diferente, conforme o vício que representa, em terrível ação entre a multidão; vejo-as correr, instigar a raiva, causar confusão dos espíritos, entrar na boca das pessoas; vejo-as sair da multidão, reunir-se em grande número e atiçar a raiva do povo contra Jesus, mas à vista do amor e da paciência do Mestre tremem e desaparecem de novo entre o povo.
Toda essa atividade tem algo de desesperado, confuso, contraditório; é um movimento confuso e insensato. Acima e em redor de Jesus e Maria e do pequeno número de santos vejo também se moverem muitos Anjos, cujas figuras e vestimentas variam, conforme as respectivas funções e ação; representam consolação, oração, unção, conforto por comida e bebida e outras obras de misericórdia.
De modo semelhante vejo freqüentemente vozes consoladoras ou ameaçadoras saírem, como palavras de diferentes cores e luzes, da boca de tais aparições; (...) Tudo que há de mau no mundo, contribuiu para atormentar Jesus. Tudo que é amor, nEle sofreu. Como Cordeiro de Deus, tomou sobre si os pecados do mundo: - Que infinidade de coisas, tanto abomináveis como também santas, se podem ver e contar. Se, portanto, as visões e contemplações de muitas pessoas piedosas não concordam em tudo, é porque não tiveram o mesmo grau de graça para ver, contar e fazer-se compreender.

Jesus condenado à morte na Cruz

Pilatos, que não procurava a verdade, mas apenas uma saída para a dificuldade, estava mais indeciso que nunca. A consciência dizia-lhe: “Jesus é inocente”. A esposa mandara dizer-lhe: “Jesus é santo”. A superstição dizia-lhe: “É um inimigo de teus deuses”. A covardia dizia-lhe: “É um deus e vingar-se-á”. Interroga mais uma vez a Jesus, em tom inquieto e solene e Jesus lhe fala dos seus mais ocultos crimes, prediz-lhe um futuro e uma morte miseráveis e que um dia virá, sentado sobre as nuvens do céu, pronunciar sobre ele um juízo justo, o que deita na falsa balança da justiça de Pilatos um novo peso contra a intenção de soltar Jesus. Ficou furioso por se ver em toda a nudez de sua ignomínia interior diante de Jesus, a quem não podia compreender; (...)
O celerado covarde e irresoluto pensava consigo: “Se Ele morrer, morrerá também com Ele o que sabe de mim e o que me predisse”. À ameaça dos judeus de acusá-lo perante o imperador, decidiu-se Pilatos a fazer-lhes a vontade, contrariamente à promessa que fizera à esposa, contrariamente à justiça e à própria convicção. (...)
Ouvindo esses gritos sanguinários, Pilatos mandou preparar tudo para pronunciar a sentença. Deu ordem para trazer outras vestes solenes e vestiu-as; (...). Somente Anás e Caifás, com cerca de vinte e oito outros, se dirigiram ao tribunal no fórum, logo que Pilatos começou a vestir as vestimentas oficiais. Os dois ladrões já haviam sido conduzidos ao tribunal, quando Pilatos apresentou Jesus ao povo, dizendo: Ecce homo! O assento de Pilatos estava coberto de uma manta vermelha e sobre essa havia uma almofada azul, com galões amarelos.
Jesus, ainda vestido do rubro manto derrisório, com a coroa de espinhos na cabeça, as mãos atadas, foi então conduzido pelos esbirros e soldados que O cercavam, entre as vaias do povo, para o tribunal, onde O colocaram entre os dois ladrões. Pilatos, sentado no tribunal, disse mais uma vez, em voz alta, aos inimigos de Jesus: “Eis aí o vosso rei!” Eles, porém, gritaram: “Fora! Morra! Crucifica-O!” - Pilatos disse: “Devo então crucificar vosso rei?” - Mas os príncipes dos sacerdotes gritaram: “Não temos outro rei senão o César”.
 Então Pilatos não disse mais palavra em favor de Jesus, nem mais Lhe falou, mas começou a pronunciar a sentença. Os dois ladrões tinham sido condenados, já havia mais tempo, à morte na cruz, mas a execução fora adiada para esse dia, a pedido dos Sumos Sacerdotes, porque queriam ultrajar Jesus, crucificando-O entre assassinos ordinários. As cruzes dos ladrões já estavam ao lado deles, no chão, trazidas pelos ajudantes dos carrascos. A Cruz de Nosso Senhor ainda não estava lá, provavelmente porque a sentença ainda não fora pronunciada.
A Santíssima Virgem, que se tinha afastado depois da apresentação de Jesus por Pilatos e da gritaria sanguinária dos judeus, abriu caminho, em companhia de algumas mulheres, por entre a multidão e aproximou-se do tribunal, para ouvir a sentença de morte, proferida contra seu Filho e Deus; Jesus estava nos degraus da escada, diante de Pilatos, rodeado de soldados e os inimigos lançavam-Lhe olhares cheios de ódio e escárnio. Um toque de trombeta ordenou silêncio e Pilatos pronunciou, com a raiva de um covarde, a sentença de morte contra o Salvador.
Senti-me sufocada de indignação, diante de tanta baixeza e duplicidade; o aspecto desse celerado arrogante, do triunfo e ódio sanguinário dos príncipes dos sacerdotes, satisfeitos após tantos esforços fatigantes, o estado lastimoso e os sofrimentos do pacientíssimo Salvador, a indizível angústia e os tormentos da Mãe Santíssima e das santas mulheres, a furiosa ansiedade com que os judeus esperavam a morte da presa, o frio orgulho dos soldados e minha visão das horrendas figuras diabólicas entre a multidão do povo, tudo isso me tinha aniquilado completamente. Ai! Percebi que eu devia estar no lugar de Jesus, meu querido esposo; então a sentença seria justa. Eu estava tão dilacerada pela dor, que não me lembro mais da ordem exata das coisas. Vou contar mais ou menos o que me lembro.
Pilatos começou por um longo preâmbulo, em que se referiu com os mais pomposos títulos ao imperador Cláudio Tibério. Depois expôs a acusação contra Jesus, que fora condenado à morte pelos Sumos Sacerdotes e cuja crucificação tinha sido unanimemente exigida pelo povo, por ser um rebelde, perturbador da paz pública, violador da lei judaica, por se fazer chamar Filho de Deus e rei dos judeus. Quando, porém, acrescentou ainda que achava essa sentença justa, - ele que por várias horas continuara a declarar Jesus inocente, quase não pude conter-me mais, à vista desse homem infame e mentiroso. Ele disse ainda: “Por isso condeno Jesus Nazareno, rei dos judeus, a ser pregado na Cruz”. Depois deu ordem aos carrascos que fossem buscar a cruz.
À essas palavras a Mãe de Jesus caiu por terra sem sentidos e como morta; agora então estava decidida, era certa a morte de seu santíssimo e amantíssimo Filho e Salvador, morte horrível, dolorosa, ignominiosa.(...)
A sentença foi escrita, mesmo no tribunal, por Pilatos e copiada mais de três vezes, por aqueles que lhe estavam atrás. Enviaram vários mensageiros, porque alguns dos documentos precisavam ser assinados por outras pessoas; não me lembro se esses documentos faziam parte da sentença ou se eram outras ordens. Contudo foram também alguns desses documentos levados a lugares distantes.
Havia, porém, ainda outra sentença, escrita por Pilatos mesmo e que lhe provava claramente a duplicidade; pois tinha teor totalmente diferente da sentença que pronunciara; vi como a escreveu contra a vontade, com o espírito atormentado e um anjo irado a dirigir-lhe a mão. Esse documento, de cujo conteúdo tenho apenas uma lembrança vaga, dizia mais ou menos o seguinte:
“Compelido pelos Sumos Sacerdotes e o Sinédrio e ameaçado por uma iminente insurreição do povo, que acusavam Jesus de Nazaré de agitação contra a autoridade, de blasfêmia e de desprezo da lei judaica, exigindo-Lhe a morte, entreguei-lhes o mesmo Jesus, para ser crucificado, não tanto movido pelas acusações, que em verdade não achei fundadas, mas para não ser acusado perante o imperador, de favorecer a insurreição e negar justiça aos judeus. Entreguei-O porque exigiram com violência a morte, como transgressor da lei; e com Ele dois ladrões, já antes condenados, cuja execução fora adiada por maquinações dos judeus, porque queriam que fossem executados junto com Jesus”.
Enquanto Pilatos pronunciava a sentença injusta, vi Cláudia Prócula, sua mulher, remeter-lhe o penhor e separar-se dele. Na mesma noite fugiu ocultamente do palácio e foi para junto dos amigos de Jesus, que a levaram a um esconderijo, num subterrâneo da casa de Lázaro, em Jerusalém.
Vi também um amigo de Jesus gravar, numa pedra esverdeada atrás do tribunal do Gábata, duas linhas, que diziam respeito à sentença injusta de Pilatos e à separação da mulher do Procurador; ainda me lembro das palavras “judex injustus” e do nome “Cláudia Prócula”. Mas não me recordo se foi no mesmo dia ou alguns dias mais tarde; lembro-me apenas que nesse lugar do fórum estava um numeroso grupo de homens conversando, enquanto o outro homem, encoberto por eles, gravou aquelas linhas, sem ser visto. Vi que aquela pedra ainda está, desconhecida embora, em Jerusalém, nos alicerces duma casa ou duma Igreja, situada onde antigamente era o Gábata. Cláudia Prócula tornou-se cristã e depois de se ter encontrado com S. Paulo, tornou-se-lhe amiga dedicada.(...)
Os dois ladrões estavam um ao lado direito, outro ao lado esquerdo de Jesus; tinham as mãos amarradas e pendia-lhes, como a Jesus diante do tribunal, uma cadeia de ferro do pescoço. (...)
Os carrascos estavam ocupados em juntar todas as ferramentas; preparavam-se para a triste e terrível marcha, em que o nosso amado e doloroso Salvador quis carregar o peso dos pecados de nós todos, homens ingratos e para os expiar, ia derramar o santíssimo Sangue do cálice de seu Corpo, transpassado pelos homens mais abomináveis.
Anás e Caifás terminaram afinal a discussão acalorada com Pilatos; receberam algumas tiras compridas ou rolos de pergaminho, com cópias dos documentos e dirigiram-se apressadamente ao Templo; e só por pouco não chegaram tarde.
Então se separaram os Sumos Sacerdotes do verdadeiro Cordeiro pascal; correram ao Templo de pedra, para imolar e comer o cordeiro simbólico e a realização do símbolo, o verdadeiro Cordeiro de Deus, fizeram-nO conduzir por vis carrascos ao altar da cruz. Separaram-se ali os dois caminhos, dos quais um conduzia ao símbolo e outro à realização do Sacrifício; abandonaram o Cordeiro de Deus, a pura Vítima expiatória, que tentaram macular exteriormente e insultar com todo o horror da perversidade, entregaram-nO a carrascos ímpios e desumanos e correram ao Templo de pedra, para imolar cordeiros lavados, purificados e bentos.
Haviam tomado todo o cuidado para não se sujarem exteriormente e tinham as almas todas sujas, transbordantes de ódio, inveja e ultrajes. - “Que o seu sangue caia sobre nós e nossos filhos”, tinham exclamado e com essas palavras cumpriram a cerimônia, impuseram a mão de sacrificador sobre a cabeça da vítima. Separaram-se ali os dois caminhos, que conduziam ao altar da lei e ao altar da graça.

     Eis aí um pouco do que foi realmente a condenação de Jesus. Quando meditamos esta primeira estação da Via Sacra, certamente jamais imaginamos que fosse algo assim terrível. Lembro, porém, ao leitor, que nos cortes foram suprimidas ainda nove páginas apenas no que se refere à condenação, porque preservamos apenas a parte mais dolorosa, tirando as partes descritivas. Entretanto, vale lembrar que mesmo as visões de Ana Catarina aqui descritas, ainda assim deixaram passar milhares de detalhes escabrosos, que afligiram ainda mais a Jesus. E estes, quem sabe nem na eternidade os saberemos a todos.

     Depois de haver lido estas descrições, há alguns anos atrás, com certeza jamais fui o mesmo. E mil meditações já me surgiram neste tempo. Entretanto, o que mais me chocou de tudo isso, não foi em si a atitude covarde de Pilatos, condenando a um inocente, mas sim a maldade extrema dos sumo sacerdotes e a covardia inaudita dos carrascos. Não me pode caber na idéia, que uma pessoa pode se sentir ainda gente, depois de bater num corpo indefeso até vê-lo virar frangalhos. Não me pode caber na inteligência que alguém, tendo plena consciência como tinham os sacerdotes, de que Jesus era inocente, mesmo vendo-O daquela forma dilacerado, não sentissem em suas almas um sinal sequer de arrependimento.

    E foram certamente milhares de pessoas a insultar Jesus. Mesmo muitos daqueles aos quais Ele havia ajudado, ou curado, a eles ou a parentes seus, acabaram por covardemente participar daquela monumental farsa – a maior da história do homem – apenas para darem vazão aos instintos bestiais da maioria. Na verdade, pelas revelações ao Cláudio, muitas daqueles judeus que cuspiram, escarraram ou bateram em Jesus, ainda se encontram hoje no purgatório, aguardando que seja quebrada a maldição que sobre eles atraiu aquela frase:  “Que o seu sangue caia sobre nós e nossos filhos”!  E quando pessoas ficam escandalizadas, querendo dizer que Deus é cruel por condenar pessoas a tanto tempo de purgatório, eu lhes aponto duas coisas: Primeiro que olhem para a imensidão dos tormentos que eles infringiram a Jesus, deixados levar por aquele clima de terror. Segundo, que pensem na misericórdia de Deus, que mesmo assim ainda os perdoou, uma vez que, quem está no purgatório, com certeza um dia se salvará.

      Para nós, esta remissão só acontecerá depois da Missa no Calvário, conforme temos anunciado no livro Milagre do Fim. Só quando os judeus – os vivos hoje – se converterem, aceitando a Jesus como o Messias, é que se abrirão as portas do Céu para eles. Por isso, com certeza existem milhões de judeus ainda no purgatório. Eu não me espantaria se fosse desta nação, a maioria dos mais de 900 milhões de almas que ainda estão no purgatório. Hoje, os que de lá saem, é somente pela misericórdia de Deus. Tenho um sentimento mais ou menos assim: Na primeira vinda de Jesus, ao deixar este mundo, Jesus levou consigo os patriarcas e os santos antigos deste povo. Os outros, depois dali, em sua maioria aguardam no purgatório ou limbo, até que se converta a maioria. Só então irão à gloria, com Jesus que desce na hora da Missa, celebrada por João Paulo II. Como disse, este é meu sentimento. 


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