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A doce Vitória de Maria
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A Doce Vitória de Maria
A ti, Maria, como a general invencível,
meus cantos de vitória!
A ti, que me livraste de meus males,
ofereço meus cantos de reconhecimento.
Pois que tens uma força invencível,
livra-me de toda espécie de perigos,
a fim de que te aclame: Ave, Virgem e esposa!

Jamais cessaremos de celebrar-te
com os devidos hinos,
ó Mãe de Deus,
e de dizer-te:
Ave, Virgem e Esposa!

O Incorpóreo,
assim que conheceu a ordem que lhe foi dada,
dirigiu-se com solicitude à morada de José
e disse àquela que não conhecia matrimônio:
«Aquele que em sua descida inclina os céus
é todo e imutavelmente encerrado em teu seio.
Eu, contemplando-O feito escravo em teu ventre,
fico estático e exclamo: Ave, Virgem e Esposa!»



Hino Akathistos (que literalmente significa «estando de pé», porque se canta nesta posição) é o hino mariano mais famoso do Oriente cristão e, possivelmente, de toda a Igreja.

Composto originalmente em grego no final do século V, é de autor desconhecido. Sua autoria é atribuída a diversos personagens, porém na há nenhuma prova concludente e possivelmente, seja melhor assim.

Como disse um comentarista moderno, «é melhor que o hino seja anônimo. Assim é de todos porque é da Igreja».

Efetivamente, desde princípios do século VI a Igreja bizantina o incluiu em sua liturgia como a expressão mais alta do culto à Santíssima Virgem, e o canta em muitas ocasiões, de modo especialmente solene no sábado da 5ª semana da Quaresma.

A estrutura métrica do texto original é de uma suma perfeição, de difícil tradução para outras línguas. As 24 estrofes que o compõem (umas mais longas, outras mais breves, alternadamente) se distribuem por igual em duas partes: uma evangélica e outra dogmática. A primeira parte representa a narração evangélica em uma série de quadros que vão desde a Anunciação de Maria até o Encontro de Maria com Simeão no templo de Jerusalém. A segunda parte expõe os principais artigos da fé mariana da Igreja: virgindade perpétua, maternidade divina, medianeira das graças celestiais.

O Hino Akathistos é comum a todos os cristãos de rito bizantino, ortodoxos e católicos. Constitui pois, uma antiga e solene ponte para a plena comunhão entre a Igreja do Oriente e do Ocidente.

A Revista 30 Dias pediu a S. Santidade Bartolomeu I, Patriarca Ecumênico de Constantinopla, que comentasse o texto deste maravilhoso hino da Igreja Bizantina. Abaixo reproduzimos, portanto, esta entrevista de Gianni Valente, publicada na edição de janeiro/2005 de 30 Dias.



A Doce Vitória de Maria

A Natividade de Nosso Senhor
e Salvador Jesus Cristo
uando os bárbaros assediavam Constantinopla, seus cidadãos invocavam a ajuda de Maria, à qual a cidade era consagrada. E depois de experimentarem sua proteção, agradeciam a ela com cantos e vigílias em seu nome. Durante toda a noite, o povo cantava de pé o Akathistos, grande hino à Mãe de Deus, de autoria desconhecida. Quando o Império Bizantino ruiu, o patriarca Jorge Scholarios dirigiu-se a Maria dizendo que os fiéis não a importunariam mais para que salvasse a cidade, mas continuariam a invocá-la para que os preservasse sempre na fé dos Padres.

Ainda hoje, os cristãos das Igrejas do Oriente pertencentes à tradição bizantina dirigem suas súplicas e seus agradecimentos a Maria por meio do Akathistos. Durante quinze séculos, a recitação individual e comunitária do hino funcionou como instrumento precioso para preservá-los na fé simples dos apóstolos: o único tesouro que vale, ainda hoje, quando já não existem impérios cristãos.

Na entrevista a seguir, 30Dias pediu a Bartolomeu I, patriarca ecumênico de Constantinopla, que comentasse aquele que muitos consideram o mais belo hino de todos os tempos. Um hino no qual são contemplados também todos os mistérios que a liturgia reapresenta no tempo de Natal.

— Santidade, o que é para o senhor o Akathistos?

BARTOLOMEU I: É um dos hinos mais belos e mais usados da Igreja Ortodoxa, que comove profundamente a alma de todo fiel. Nos santos mosteiros, ele é lido todos os dias durante o ofício das completas, e a maior parte dos monges e muitos leigos devotos o conhecem de cor e o recitam intimamente, nas circunstâncias felizes ou dolorosas da vida. É, sobretudo, uma oração de louvor, que exprime com força os sentimentos de maravilhamento, devoção, esperança, confiança e caridade de cada alma pela Toda Santa Mãe de Deus.


O Menino Jesus e Maria, detalhe da Natividade
Aquilo que o hino Akathistos é para todo fiel ortodoxo é também para nós, pessoalmente. Seu caráter não está limitado no tempo. É verdade que, segundo a Tradição, foi composto e cantado pela primeira vez num momento histórico concreto, durante uma vigília, pelo povo de Constantinopla de pé (akathistos significa, precisamente, "não sentado"), como ato de agradecimento pelo fato de que a cidade - então soberana - havia sido salva da invasão dos inimigos. Mas o coração devoto de cada fiel percebe que essa oração vale em todas as circunstâncias, felizes ou tristes, tanto pessoais quanto comunitárias. E é recitado todos os dias, com um sentimento claro de sua atualidade. Para a alma do fiel, que põe toda a sua confiança no socorro da Toda Santa Mãe de Deus, não importa a conjuntura histórica graças à qual o hino foi escrito, mas tão-somente a fé na ajuda que vem da Sempre Virgem Maria e a esperança segura de que, como aconteceu naquela época, hoje também a mesma ajuda é concedida a todos os que a invocam. Efetivamente, na última estrofe do Akathistos, os fiéis rezam fortemente à Toda Santa que os liberte a todos de qualquer mal. Dessa forma, expressa-se claramente a confiança em sua eficácia que têm os fiéis de todos os tempos.

— O que foi que inspirou o hino Akathistos?


O Banho do Menino Jesus (Detalhe da Natividade)
BARTOLOMEU I: O Akathistos pertence à categoria de hinos chamados "Kontakia". É composto, como se sabe, por vinte e quatro unidades, que se chamam "Oikoi" (estrofes), formando um acróstico alfabético. Metade delas, as ímpares, segundo a numeração - começam com uma exposição poética, que descreve um acontecimento, seguida por seis ações de graças à Toda Santa Mãe de Deus, cheias de admiração e louvor por ela, que se concluem com a exclamação doxológica: "Ave, Virgem e Esposa!"

A outra metade das estrofes - as pares, segundo a numeração - são compostas por um conjunto de versos que termina com a exclamação de louvor "Aleluia!"

Cada estrofe é inspirada por um acontecimento da vida da Toda Santa Mãe de Deus ou até, algumas vezes, pelos fatos da vida de Jesus Cristo, por ela gerado, ou de outros personagens ligados a eles, para exaltar a participação dela ou a de Jesus Cristo em determinado episódio e sua importância para a salvação dos homens.

Tudo começa com a Anunciação à Mãe de Deus por parte do Arcanjo. Depois se descreve o maravilhamento da Toda Santa e seu diálogo com ele. Anuncia-se a concepção do embrião em seu ventre por obra do Espírito Santo. Depois se conta a visita de Maria a Isabel, a dúvida de José, a adoração dos pastores, a visita dos Magos, a oferta dos dons e o louvor dos magos à Virgem Maria, sua fuga de Herodes...

— Os pastores e os Magos são as primeiras testemunhas do nascimento de Jesus do seio daquela menina judia. Como é contada a história deles?

BART0LOMEU I: A sétima estrofe nos introduz no evento que se deu com o nascimento de Cristo na gruta de Belém, testemunhado pelo hino dos anjos que maravilhou os pastores. Os pastores, segundo o hinógrafo, pensando de modo humano, acorreram para ver o Deus encarnado como um pastor majestoso, mas, em vez do semblante de pastor, eles o vêem como Cordeiro imaculado alimentado pelo seio de Maria, e exaltam a ela com estas palavras: "Ave, por ti o inferno foi despojado".

A oitava e a nona estrofes se referem ao caminho dos Magos conduzidos pela estrela e à oferta de dons reais que fazem ao Verbo de Deus que assumiu a forma de servo. O hinógrafo põe nos lábios dos Magos palavras de grande admiração pela Mãe de Deus: "Ave, Mãe da estrela que não se põe"; "Ave, tu és aquela que resgata dos ritos cruéis"; "Ave, tu fizeste cessar o culto do fogo". Na décima estrofe conta-se que os Magos, não dando atenção ao vaniloqüente Herodes, voltaram à Babilônia e ali começaram a anunciar Jesus Cristo.

— «Com o humano atraía os humanos.» É o que se lê na décima oitava estrofe do hino. Como se descreve no Akathistos essa atração despertada pela humanidade de Jesus Cristo?

BARTOLOMEU l: Há duas referências a isso no Akathistos. A primeira se encontra na décima quarta estrofe, e diz que o altíssimo Deus se manifestou neste mundo como humilde homem, querendo puxar para o alto "aqueles que alegres o aclamam: 'Aleluia!"'. A segunda se encontra na décima oitava estrofe, e diz assim: "Para salvar a criação, o Senhor do mundo de bom grado desceu a este mundo. Como Deus, era nosso Pastor, mas quis aparecer entre nós como Cordeiro: com o humano atraía os humanos, como Deus lhe aclamamos: 'Aleluia!"'.

Acreditamos que o compositor do Akathistos, levando em conta a Tradição ortodoxa, exprima com essas palavras a fé de que o Deus Verbo se encarnou e se fez homem para reconduzir a humanidade a Deus, dado que o homem, por suas forças, não era capaz de restaurar a relação que tinha com Deus antes da queda. Não acreditamos que se refira a uma impressão sentimental do homem, provocada pelo elemento humano de Jesus Cristo. Exprime muito mais uma realidade ontológica: Jesus, o Deus-Homem Jesus, assumindo o elemento humano, cura todas as suas imperfeições, o faz renascer, tornar-se um novo Adão, e quem se une a Ele se renova, sendo libertado da corrupção hereditária que provém do pecado original, e assim passa "da morte à vida". E isso levando em conta que a morte é a principal conseqüência da corrupção hereditária, à qual estão submetidos todos os homens, depois que sua vivificante relação com Deus se interrompeu pela desobediência do casal dos progenitores.

Deve-se notar como na décima quarta estrofe o hinógrafo nos chama a elevarmo-nos das coisas mundanas para as celestes, pois foi para isso que Deus desceu à terra: para atrair, ou seja, puxar para si, para sua altura, aqueles que crêem nele, por meio de uma graça que torna experimentável sua presença atrativa na terra, doando a todos os que a acolhem a fé e a experiência da vida espiritual.

Também na décima oitava estrofe, o hinógrafo sublinha que Deus, segundo seu querer, veio à terra como homem para salvar o mundo, oferecendo seu convite por meio do Deus-Homem, semelhante aos homens, que é capaz de realizar o que os simples homens não poderiam obter. Certamente, aqueles que amam a Cristo experimentam em sua pessoa uma ternura e uma beleza carregada de atração, mas nós acreditamos que o hinógrafo conformando-se também a sua época, muito amante das discussões dogmáticas - exprima verdades dogmáticas, e não sentimentalismos.

— No Natal, o Mistério que faz todas as coisas se torna uma criança, indefesa como todas as crianças. Jesus menino precisa de Maria e José, duas criaturas também humanamente indefesas diante de Herodes e da maldade do mundo. Com que observações se descreve a fuga para o Egito no Akathistos?


Os Magos com o rei Herodes
BARTOLOMEU I: A fuga para o Egito não é contada logo e por extenso no Akathistos. A décima primeira estrofe lembra que Cristo fez resplandecer no Egito a luz da verdade, e aqueles que por meio do Salvador foram libertados dos ídolos aclamam a Mãe de Deus, partícipe da Divina Economia, com diversas saudações cheias de admiração e louvor. A maior parte dessas saudações aludem a eventos da história do povo hebraico no Egito, que simbolizam ou prefiguram a contribuição da Mãe de Deus à Divina Economia. Assim, a saudação "Ave, mar que engoles o grande Faraó", alude à passagem dos hebreus pelo Mar Vermelho e ao afogamento dos Egípcios que os perseguiam. Considera-se que aquele evento prefigura a Mãe de Deus porque como canta uma estrofe - "o mar, depois da passagem de Israel, se fechou novamente; a Imaculada, depois do parto do Emanuel, permaneceu incorrupta".

A saudação "Ave, pedra que deste de beber a todos os que têm sede de vida" alude, por sua vez, à pedra da qual brotou água vivificante para os hebreus no deserto, graças à oração de Moisés, e também à palavra do Senhor, que disse à Samaritana que possuía a água viva. Tal como da pedra brotou água vivificante, da mesma forma Cristo veio da Virgem, como nova água viva e vivificante. Assim também, a saudação que se dirige à Mãe de Deus como "coluna ardente que guia a todos que estão nas trevas" , e aquela na qual ela é exaltada como "defesa do mundo, mais ampla que nuvens", comparam a Toda Santa à coluna ardente e à nuvem que guiavam o povo hebreu no deserto, como relatado no Livro do Êxodo (Ex 13, 21). Enfim, o "alegra-te, alimento que sucedeu o maná" e o "alegra-te, mística terra prometida, fonte de leite e mel" se referem a fatos bem conhecidos do Antigo Testamento.

Dessa forma, muitos episódios da história do povo eleito prefiguram, segundo o compositor do Akathistos e também outros grandes poetas de Bizâncio, a poderosa ação da Toda Santa Mãe de Deus que se seguiria.

— Diante do acontecimento do Natal e do mistério da maternidade de Maria, o hino Akathistos descreve duas atitudes, duas reações diferentes. De um lado, estão os pastores, os anjos, os Magos. Do outro, aqueles que são definidos como "oradores" ou "sofistas" ("por ti desfalecem os autores dos mitos, [...] despedaças as tramas de todos os sofistas"), aqueles que pensam apoderar-se do Mistério...

BARTOLOMEU I: Os pastores, os anjos, os Magos e os fiéis em geral admiram e reconhecem o evento da Divina Economia e glorificam por ele a Deus e à Toda Santa Mãe de Deus, Sua cooperadora. Os sábios deste mundo - que querem submeter as ações de Deus ao pensamento humano - não conseguem se maravilhar e se abandonar a esse evento. Estão preocupados em explicar e entender os eventos da Divina Economia, que, porém, superam o conhecimento dos sábios, ao passo que resplandecem diante do coração dos fiéis, como é cantado na terceira estrofe. Nós, os fiéis, então, "admirando o mistério da encarnação de Deus, cantamos com fé": "Ave, tu que mostras carentes de sabedoria os filósofos; Ave, pois se tornaram estultos os sutis pensadores" (estrofe 17). Aquilo que para a mente é incompreensível é tornado próximo pela fé - substância de coisas esperadas, prova de coisas não vistas -, que torna o coração seguro de sua existência real e não imaginária.

— Jesus é fonte de vida e de perdão para os pecadores, doa-lhes a graça perdida. Mas Maria também está envolvida nessa obra, como "perdão para todos os transviados", "veste para os despidos de graça", pois foi ela quem Lhe deu a carne. Como se expressa, no Akathistos, a obra de Maria nesse inimaginável socorro à condição humana, decaída depois do pecado original?


Os Magos com o rei Herodes (Detalhe)
BARTOLOMEU I: De fato, o sublime amor de Deus pelos homens escolheu uma forma de salvação que não podia ser prevista pela mente do homem, acostumado a pensar Deus em sua imensidão. A kenosis, ou seja, o esvaziamento de Deus, sua manifestação como homem, era inimaginável. Ainda mais inconcebível era e é sua concepção no ventre de uma mulher, e a própria existência de uma mulher digna de acolher a divindade dentro de seu corpo e de se tornar Mãe do Deus encarnado. Isso constituía escândalo ou estultícia, e para muitos o representa ainda hoje. A lógica humana atribui a Deus as qualidades que imagina que o homem forte possua ou tenha de possuir; portanto, não a humildade, o rebaixamento, o amor até o sacrifício de si.

Apesar disso, o inimaginável que, no entanto, havia sido profetizado - aconteceu. Por um lado, encontrou-se uma mulher de tal pureza que pudesse ser digna de conceber, de dar à luz e de criar o Deus-Homem Jesus Cristo. Por outro lado, Deus esvaziou a si mesmo da glória de sua magnificência e manifestou-se no mundo como "humilde homem" . Esse evento enche de admiração e maravilhamento o autor do Akathistos, que, por isso, ao longo de todo o hino manifesta sua infinita admiração tanto por Deus quanto pela Toda Santa Mãe de Deus, por meio de extraordinárias expressões poéticas, como: "Alegra-te, doutrina incerta para os ímpios; alegra-te, dos pios certíssimo orgulho". "Alegra-te, tu que levas os opostos de volta à unidade; alegra-te, tu que uniste a virgindade e a maternidade." "Alegra-te, tu, por quem foi desmanchada a transgressão; alegra-te, tu, por quem é aberto o paraíso". Com frases como essas, a salvação não é atribuída à Virgem Maria, mas exalta-se sua cooperação, por benevolência de Deus. Celebra-se o fato de que Deus, que quer que o homem seja salvo, buscou e encontrou na pessoa da Mãe de Deus - a incondicional e imediata colaboração do homem. Depois da corrupção da estirpe humana, em razão do pecado dos progenitores, Deus se encarna no homem novo, o Deus-Homem Jesus, aquele que é estranho à corrupção, e chama todos a unirem-se a Jesus Cristo para participar da incorruptibilidade e da eternidade de sua vida e de sua verdade. E essa encarnação acontece por meio de uma mulher. É realmente grande e magnífica a obra de Deus e a participação da Toda Santa nela, que se canta com o Akathistos.

— Como diz a Carta aos Hebreus, depois do único e perfeito sacrifício de Jesus não é mais preciso outros sacrifícios. O Akathistos canta também a participação de Maria, mãe de Deus, nessa obra de libertação: "Alegra-te, tu és aquela que resgata dos ritos cruéis." "Alegra-te, tu que revelas a fraude dos ídolos". "Alegra-te, das bordas dos demônios odiado flagelo".


A Virgem Maria com o Menino Jesus
BARTOLOMEU I: Não é possível relacionar todas as muitíssimas referências do Akathistos à contribuição da Sempre Virgem Maria para a obra salvífica de Jesus Cristo. A começar por aquele "alegra-te, tu, por quem resplandecerá a alegria; alegra-te, tu, por quem cessará a maldição" posto na boca do Anjo. Esses e todos os outros apelativos da Mãe de Deus que enchem todo o hino Akathistos são belas formas poéticas de apresentar a participação da Toda Santa no mistério da salvação. Assim, a Toda Santa é chamada: cátedra do Rei, renovação do criado, mãe do Criador, estrela que mostra o sol, prelúdio dos milagres de Cristo, escada celeste pela qual desceu Deus, ponte pela qual atravessa para o céu quem está neste mundo, aquela que produziu a abundância das misericórdias, aquela que apagou a fornalha do engano, aquela que tirou do poder o tirano desumano, aquela que provocou a queda dos demônios, aquela que deu à luz o guia daqueles que eram enganados, a mãe daquele que liberta os prisioneiros, o perdão de muitos culpados, e assim por diante.

— A Igreja reconheceu desde o início que na virgindade de Maria se manifesta sua beleza esplendorosa, que apaixona a Deus e o atrai entre nós. Como é expressa, nesse hino, a predileção de Deus pela beleza virginal de Maria?

BARTOLOMEU I: A virgindade da Mãe de Deus, como profundíssima, existencial, gratuita e total dedicação de seu amor por Deus, como situação espiritual durante a qual a mente e seu coração não são dirigidos para outro ser terreno, é continuamente cantada no hino Akathistos, ao lado da predileção de Deus por essa dedicação virginal da Toda Santa por Ele. Numa estrofe se diz até que o Senhor que habitou em seu ventre, Ele, que contém todas as coisas, a "santificou e glorificou". Numa outra se diz que o Criador do céu e da terra moldou a ela, a Toda Pura, morando depois em seu útero.

— A Igreja Católica lembrou em 2004 os cento e cinqüenta anos da proclamação do dogma da Imaculada Conceição. Como é celebrada, na tradição cristã oriental e bizantina, a Concepção de Maria e sua santidade plena e imaculada?


O rei Herodes ordena o massacre dos inocentes.
BARTOLOMEU I: A Igreja Católica viu-se na necessidade de instituir um dogma novo para a cristandade, cerca de mil e oitocentos anos depois do aparecimento do cristianismo, porque aceitou uma percepção do pecado original - para nós, ortodoxos, errada - segundo a qual o pecado original transmite uma mácula moral ou uma responsabilidade jurídica aos descendentes de Adão, no lugar daquela reconhecida como correta pela fé ortodoxa - segundo a qual o pecado transmitiu hereditariamente a corrupção, provocada pelo distanciamento do homem da graça incriada de Deus, que lhe dá vida espiritual e corporal. O homem moldado à imagem de Deus, com a possibilidade e o destino de se assemelhar a Deus, escolhendo livremente o amor a Ele e a observância de seus mandamentos, mesmo depois da queda de Adão e Eva pode-se tornar, se tem essa intenção, amigo de Deus; então, Deus o santifica, como santificou a tantos pais antes de Cristo, ainda que o cumprimento de seu resgate da corrupção, ou seja, sua salvação, tenha sido realizada depois da encarnação de Cristo e por meio dEle.

Como conseqüência, segundo a fé ortodoxa, a Toda Santa Mãe de Deus Maria não foi concebida isenta da corrupção do pecado original, mas amou a Deus acima de todas as coisas e observou seus mandamentos, e assim foi santificada por Deus por meio de Jesus Cristo, que por ela se encarnou. A Ele obedecia como uma dos fiéis, e a Ele se dirigia com confidência de Mãe. Sua santidade e sua pureza não foram impedidas pela corrupção, que também lhe foi transmitida pelo pecado original como a todos os homens, pois em Cristo renasceu como todos os santos, santificada acima de todos os santos.


O Retorno do Egito
Não é necessário que sua reintegração à condição anterior à queda aconteça no momento de sua concepção. Nós acreditamos que tenha acontecido depois, como conseqüência da progressão, nela, da ação da incriada graça divina por meio da visita do Espírito Santo, que operou nela a concepção do Senhor, purificando-a de qualquer mancha.

Como já se disse, o pecado original pesa sobre os descendentes de Adão e Eva como corrupção, e não como responsabilidade legal ou mancha moral. O pecado trouxe a corrupção hereditária e não uma responsabilidade jurídica hereditária ou uma mancha moral hereditária. Como conseqüência, a Toda Santa participou da corrupção hereditária, como todos os homens, mas, com seu amor por Deus e sua pureza - entendida como uma dedicação imperturbável e sem hesitações de seu amor a Deus apenas -, conseguiu, com a graça de Deus, santificar-se em Cristo e fez-se digna de se tornar habitação de Deus, como Deus quer que nos tornemos todos nós, seres humanos. Por isso, na Igreja Ortodoxa veneramos a Toda Santa Mãe de Deus acima de todos os santos, ainda que não aceitemos o novo dogma de sua Imaculada Conceição. A não aceitação desse dogma não diminui absolutamente nosso amor e nossa veneração pela Toda Santa Mãe de Deus.

Texto completo do Ofício «Akathistos»

 

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