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Artigo N.º 1770 - O CORDEIRO DE DEUS - Parte 7
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Postado em: 14/06/09 às 14:38:49 por: James
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06 Janeiro 2004

Começam, agora, os horríveis sofrimentos físicos de Jesus. À parte das dores do corpo, porém, certamente lhe foi difícil enfrentar duas figuras diabólicas: Anás e Caifás, os sumo sacerdotes daquele tempo de trevas.

Na verdade, o máximo de veneno, que uma dia satanás conseguiu colocar numa alma humana, estes dois homens certamente o puderam provar. Creio que poucas criaturas da terra conseguiram ser mais malignas. O sinédrio, certamente era composto, em sua maioria, de homens maus, de fariseus, hipócritas e fingidos. Mas com certeza, para que se cumprissem com fidelidade as escrituras, Deus permitiu que aquelas duas almas diabólicas estivessem ali, naquele ano, justo no posto de comando, para que tudo Jesus sofresse pelo máximo. E satanás pode prepará-los assim, também ao máximo.

Neste texto, vamos fazer alguns cortes, deixando o essencial.Vejamos o que aconteceu.      

Maus tratos que sofreu a caminho da cidade

Depois de acesas algumas lanternas, o cortejo se pôs em marcha. A frente marchavam dez soldados; depois seguiam os esbirros, arrastando Jesus pelas cordas, atrás vinham, insultando-O e escarnecendo-O, os fariseus e no fim os restantes 10 soldados, que formavam a retaguarda. Os discípulos andavam ainda pelas vizinhanças, como fora de si; João, porém, seguia a pouca distância os últimos soldados e os fariseus mandaram prendê-lo.
Voltaram por isso alguns soldados, correndo, para segurá-lo, mas ele pôs-se a fugir e, como o segurassem pelo sudário que tinha em volta do pescoço, abandonou-o nas mãos dos soldados e escapou. Já tinha despido o manto antes, vestindo só uma túnica arregaçada e sem mangas, para poder fugir mais ligeiramente. O pescoço, cabeça e braços tinha-os envolvido numa faixa estreita de pano, como os Judeus costumam usar.
Os soldados arrastavam e maltratavam Jesus da maneira mais cruel e praticavam muitas maldades, só para agradar e adular desse modo baixo aos seis agentes farisaicos, que eram cheios de ódio e maldade contra Jesus. Conduziram-nO pelo caminho incômodo, por todos os sulcos, sobre as pedras e pela lama.
Puxava as cordas compridas com força, escolhendo para si o melhor caminho; assim Jesus tinha de seguir onde as cordas o arrastavam. Tinham nas mãos pedaços de cordas nodosas, com que batiam e impeliam Nosso Senhor para frente, como costumam fazer os carniceiros, levando o gado ao matadouro; tudo isso faziam entre escárnios e insultos tão grosseiros, que seria contra a decência repetir-lhes as palavras.
Jesus ia descalço; além da roupa do corpo, vestia uma túnica de lã, tecida sem costura e um manto. Os discípulos, como os judeus em geral, usavam no corpo, sobre as costas e o peito, um escapulário, constando de duas peças de pano, unidas sobre os ombros por correias, deixando deste modo descobertos os lados; cingiam-se com um cinto, do qual pendiam quatro faixas de pano, as quais, enrolando as coxas, formavam uma espécie de calça. Devo acrescentar ainda que não vi os soldados apresentarem uma ordem escrita ou documento de prisão; procederam como se Jesus estivesse fora da lei e sem direitos.(...)
A ponte sobre a qual foi conduzido pelos soldados, era muito comprida, porque não se estendia somente sobre o leito do Cedron, que ali passa perto do monte, mas também a alguma distância, sobre os terrenos desiguais do vale, formando uma estrada calçada, transitável.
Antes de o cortejo chegar à ponte, vi Jesus cair duas vezes por terra, pelos arrancos cruéis que os soldados davam nas cordas. Chegando, porém, no meio da ponte, praticaram ainda maior crueldade. Empurraram o pobre Jesus amarrado, a quem seguravam pelas cordas, da ponte, que ali tinha a altura de um homem, ao leito do Cedron e insultaram-nO ainda, dizendo que aí bebesse à vontade.
Foi só por proteção divina que o Redentor não se feriu mortalmente. Caiu sobre os joelhos e depois sobre o rosto, que se teria machucado gravemente no leito, que tinha pouca água, se Ele não o tivesse protegido, estendendo as mãos ligadas. Essas não estavam mais amarradas no cinto; não sei se foi por assistência divina ou se os soldados mesmos lhas desamarraram.
As marcas dos joelhos, pés, cotovelos e dedos do Salvador imprimiram-se, pela vontade de Deus, no lugar em que tocaram, no fundo rochoso; mais tarde eram veneradas pelos cristãos. Hoje não se crê mais em tais efeitos; mas vi muitas vezes, em visões históricas, tais impressões feitas em rochas pelos pés, joelhos e mãos de patriarcas e profetas, de Jesus, da SS. Virgem e de outros santos. As rochas eram menos duras e mais crentes do que os corações dos homens e deram, em tais momentos, testemunho da impressão que a verdade sobre elas fez.
Eu não tinha visto Jesus beber durante as graves angústias no monte das Oliveiras, apesar da veemente sede; depois, porém, quando o empurraram no Cedron, eu O vi beber penosamente e recitar a passagem profética do salmo que fala em “beber do ribeiro ao lado do caminho”. (Sal. 109, 7).
Os soldados que ficaram na ponte, seguravam Jesus sempre pelas cordas e porque lhes era demasiadamente dificultoso puxá-Lo para cima e como a muralha na outra banda impedia que Jesus atravessasse o ribeiro, voltaram para trás, para o começo da ponte, arrastando Jesus através do Cedron; ali desceram à margem e puxaram-nO de costas, pela ribanceira acima.
Esses miseráveis empurraram então ao pobre Jesus pela segunda vez, sobre a longa ponte, arrastando e arrancando-O para frente, cobrindo-O de insultos e maldições, empurrões e pancadas. A longa túnica de lã, ensopada de água, caia-Lhe pesada sobre os ombros; movia-se com dificuldade e no outro lado da ponte caiu de novo por terra. Levantaram-nO aos arrancos, batendo-Lhe com as cordas nodosas, arregaçaram-Lhe no cinto o vestido molhado, entre vis escárnios e insultos; falaram, por exemplo, de arregaçar a veste, para matar o cordeiro pascal e zombarias semelhantes.
Ainda não era meia noite, quando vi Jesus caminhar, empurrado desumanamente pelos soldados, entre pragas e pancadas, sobre o pedregulho cortante e pedaços de rochas, através de cardos e espinheiros. O caminho passava para o outro lado do Cedron; era estreito e já muito estragado e havia atalhos paralelos a ele, ora mais acima, ora mais abaixo.
Os seis malvados fariseus ficavam onde o caminho o permitia, sempre perto de Jesus; cada um tinha na mão um instrumento de tortura, uma vara curta, com ponta aguda, com a qual Lhe batiam ou, empurrando-O, picavam. Nos lugares por onde Jesus andava, com os pés descalços e sangrentos, sobre as pedras cortantes, por urtigas e espinheiros, arrastado pelos soldados, que andavam nas veredas mais cômodas do lado, o coração terno do pobre Jesus ainda era ferido pelo malicioso escárnio dos seis fariseus, que diziam, por exemplo: “Aqui o teu precursor, João Batista, não te preparou um bom caminho”. ou: “Aqui não se cumpre a palavra do profeta Malaquias: “Eis aí mando o meu Anjo e ele preparará o caminho diante de ti”; ou: “Porque não ressuscita Ele a João Batista, para preparar-Lhe o caminho?”. Tais palavras escarnecedoras daqueles miseráveis, acompanhadas de risadas impertinentes dos outros, instigavam também os soldados a afligirem Jesus com novas crueldades.(..)
O cortejo tinha ainda um caminho de alguns minutos até a porta que, mais ao sul do Templo, conduzia, através de um arrabalde pequeno, ao monte Sião, onde moravam Anás e Caifás, quando vi sair dessa porta um pelotão de 50 soldados, para reforçar a guarda de Jesus. Marchavam em três grupos: o primeiro de dez, o último de quinze homens; esses contei, o do meio tinha, portanto, 25.
Traziam diversas lanternas e avançavam muito barulhentos e impertinentes, dando gritos altos, como para anunciar a sua vinda aos soldados do cortejo e dar-lhes os parabéns pela vitória. Aproximaram-se com grande vozeria. No momento em que o primeiro grupo se juntou ao cortejo de Jesus, vi Malcho e alguns outros da retaguarda aproveitarem a desordem, para se afastarem furtivamente, dirigindo-se de novo ao monte das Oliveiras.


Lamentações dos habitantes de Ofel

Os cinqüenta soldados faziam parte de uma tropa de 300 homens, que haviam ocupado de improviso as portas e ruas de Ofel e arredores; pois Judas, o traidor, prevenira o Sumo Sacerdote que os habitantes de Ofel, na maior parte pobres operários, jornaleiros, carregadores de água e lenha, a serviço do Templo, eram os partidários mais convictos de Jesus e que era para recear que fizessem tentativas de livrá-Lo, ao ser conduzido por lá. (...)
Quando, porém, tiveram a informação dada por alguns soldados: “trazem preso o falso profeta, Jesus, o malfeitor; o Sumo Sacerdote quer acabar-Lhe com as práticas; provavelmente morrerá na cruz”, levantou-se alto pranto e lamentação em toda a vila, acordada do sono noturno. Essa pobre gente, homens e mulheres, correram pelas ruas, chorando ou caindo de joelhos, com os braços estendidos, clamando ao céu ou lembrando em alta voz os benefícios que Jesus lhes havia feito. (...)
     Era um espetáculo que dilacerava o coração: Jesus, pálido, desfigurado, ferido, o cabelo em desordem, o vestido molhado, sujo, mal arregaçado, puxado pelas cordas, empurrado a pauladas, impelido pelos soldados impertinentes, meio nus, como se conduz um animal meio morto ao sacrifício; vê-lo arrastado pela soldadesca arrogante, através da multidão dos habitantes de Ofel, cheios de gratidão e compaixão, que Lhe estendiam os braços, que curara de paralisia, que o aclamavam com as línguas a que restituíra a voz, que olhavam e choravam com os olhos a que dera a vista.(...)
Do monte das Oliveiras até a casa de Anás caiu Jesus sete vezes.
Pedro e João seguiam o cortejo...(...) Judas, no entanto, como um criminoso desvairado, que a seu lado vê o demônio, andava vagando pelas encostas íngremes ao sul de Jerusalém, para onde se jogavam o lixo e todas as imundícies.

Preparativos dos inimigos de Jesus

Anás e Caifás tinham imediatamente recebido notícia da prisão de Jesus. Em suas casas estava tudo em pleno movimento. As salas dos tribunais estavam iluminadas e todas as respectivas entradas e passagens guardadas; os mensageiros percorriam a cidade, para convocar os membros do Conselho, os escribas e todos quantos tinham voto no tribunal. Muitos, porém, já estavam reunidos com Caifás, desde a hora da traição de Judas, para esperar o resultado.
Foram também chamados os anciãos das três classes de cidadãos. Como os fariseus, saduceus e herodianos de todas as partes do país, tinham chegado para a festa a Jerusalém, já havia alguns dias e tendo sido combinado havia muito tempo, entre eles e o Sinédrio, a prisão de Jesus, foram chamados também entre eles os mais ferozes inimigos do Salvador (Caifás tinha uma lista com os nomes de todos); receberam a ordem de juntar, cada um no seu meio, todas as provas e testemunhas contra o Senhor e de trazê-las ao tribunal.(...)
Todos esses homens reuniram-se pouco a pouco no tribunal de Caifás e mais toda a multidão de inimigos de Jesus, entre os orgulhosos fariseus e escribas e toda a escória mentirosa de seus partidários em Jerusalém. Havia já alguns dos mercadores, furiosos porque Jesus os expulsara do Templo, muitos doutores vaidosos que Ele fizera emudecer no Templo, diante do povo e talvez ainda houvesse alguns que não Lhe podiam perdoar tê-los convencido de erros quando, menino de doze anos, ensinara pela primeira vez no Templo. (...)
Enquanto esse lodo do povo judaico se agitava, para enlamear o Salvador Imaculado, aproximavam-se também muitas pessoas piedosas e amigos de Jesus, acordados pelo tumulto e entristecidos pela terrível notícia; não estavam iniciados nas intenções secretas dos inimigos, e quando ouviam e choravam, eram enxotados, quando se calavam, olhavam-nos de canto. Outros, mais fracos, bem intencionados e outros meio convencidos, se escandalizavam ou caiam em tentações, duvidando de Jesus.
O número dos que ficaram firmes na fé, não era grande; aconteceu como ainda acontece hoje, que muitos querem ser bons cristãos, enquanto lhes convém, mas que se envergonham da cruz onde ela não é bem vista. Já no principio, porém, muitos se retiraram abatidos e calados; pois estavam enojados do processo injusto, da acusação infundada, dos insultos e ultrajes vis e revoltantes e também comovidos pela paciência resignada do Salvador.

Uma vista geral sobre a Situação em Jerusalém àquela hora

Ouve-se o fechar de portas e o puxar barulhento de ferrolhos e trancas. O povo é medroso e receia uma agitação. Cá e lá saem pessoas das casas, pedindo informações a conhecidos que passam ou esses entram apressadamente em casa de amigos; ouvem-se aí muitas conversas maliciosas, como em semelhantes ocasiões, também hoje em dia, são bastante comuns.(...)
Em outras partes o povo recebe as notícias de maneira mais digna; alguns se assustam e outros choram sozinhos ou procuram ocultamente um amigo que pense como eles, para desafogar o coração. Poucos, porém, se atrevem a manifestar compaixão franca e resolutamente.
Não é, porém, em toda a cidade que reina a excitação, mas apenas onde os mensageiros levam a chamada para o tribunal, onde os fariseus procuram as falsas testemunhas e especialmente no entroncamento das ruas que conduzem a Sião. É como se em diferentes partes de Jerusalém se alumiassem faíscas de fúria e raiva que, correndo pelas ruas, se tinissem à outras que encontrassem e, cada vez mais fortes e densas, se derramassem finalmente, como um rio lúgubre de fogo, no tribunal de Caifás sobre Sião. Em algumas partes da cidade reina ainda silêncio, mas também ali já começa a pouco o alarme.
Os soldados romanos não tomam parte; mas os guardas estão reforçados e as tropas reunidas; observam atentamente o que acontece. Nos dias da Páscoa estão sempre muito quietos, por causa do grande concurso do povo, mas ao mesmo tempo sempre prontos e de sobreaviso. O povo que percorre as ruas, evita os pontos onde estão os guardas; pois contraria muito aos judeus farisaicos ter de responder ao grito da sentinela. (...)
 Ai! Que espetáculo triste, a Mãe dilacerada pela dor e as amigas de Jesus, obrigadas a percorrer as ruas, inquietas e tímidas, à hora insólita da meia noite, refugiando-se de uma casa amiga à outra! Diversas vezes se vêm obrigadas a esconder-se num canto das casas, para deixar passar um grupo de impertinentes; outras vezes são insultadas como mulheres notívagas; freqüentemente ouvem ditos maliciosos dos transeuntes, raras vezes uma palavra de compaixão para com Jesus.
Chegadas afinal ao abrigo, caem abatidas por terra, chorando e torcendo as mãos, todas igualmente desconsoladas e sem forças; sustentam ou abraçam umas às outras, ou sentam-se, em dor silenciosa, apoiando sobre os joelhos a cabeça velada. Batem à porta, todas escutam em silêncio e medo; batem devagar e timidamente: não é um inimigo; abrem com receio: é um amigo ou um criado de um amigo de seu Senhor e Mestre; rodeiam-no, pedindo notícias e ouvem falar de novos sofrimentos; a compaixão não as deixa ficar em casa, saem de novo à rua, para se informar, mas voltam sempre com crescente tristeza.
A maior parte dos Apóstolos e discípulos andam vagando medrosos pelos vales em redor de Jerusalém e escondem-se nas cavernas do monte das Oliveiras. (...)
O silêncio da noite é cada vez mais interrompido pelo barulho em torno do tribunal de Caifás. Essa região é iluminada pela luz das lanternas e dos archotes. Nos arredores da cidade ressoa o mugido dos numerosos animais de carga ou de sacrifício, que tantos peregrinos de fora trouxeram para os acampamentos; como ressoa inocente e comovedor o balir desamparado e humilde dos inumeráveis cordeiros, que amanhã hão de ser imolados no Templo! Mas um só é imolado, porque Ele mesmo quis e não abre a boca, como a ovelha que é conduzida ao matadouro; e como um cordeiro, que emudece diante de quem o tosa, assim se cala o Cordeiro pascal, puro e sem mancha, - Jesus Cristo.(...)
Fora da cidade, porém, no íngreme vale de Hinon, anda vagando Judas Iscariotes, o traidor, - incitado pelo demônio, chicoteado pela consciência, fugindo da própria sombra, solitário, sem companheiro, em lugares malditos e sem caminhos, em pântanos lúgubres, cheios de lixo e imundícies; milhares de espíritos maus andam por toda à parte, desnorteando os homens e impelindo-os ao pecado. O inferno está solto e incita todos ao pecado: o fardo pesado do Cordeiro aumenta. A raiva de Satanás multiplica-se, semeando desordem e confusão. O Cordeiro tem sobre si todo o fardo; Satanás, porém, quer o pecado e, pois que não cai em pecado esse justo, a quem em vão tentou seduzir, quer pelo menos que os inimigos que O perseguem, pereçam no pecado.
Os Anjos, porém, vacilam entre tristeza e alegria; desejariam suplicar diante do trono de Deus a permissão de socorrer a Jesus, mas só podem admirar e adorar o milagre da justiça e misericórdia divina, que já existia, desde a eternidade, no Santíssimo do céu e começa a realizar-se agora no tempo.(...) Tal era a situação geral, quando o nosso querido Salvador foi conduzido à casa de Anás.

Jesus diante de Anás

Cerca de meia noite chegou Jesus ao palácio de Anás e foi conduzido, pelo átrio iluminado, à grande sala que tinha o tamanho de uma pequena Igreja. No fundo, em frente à entrada, estava sentado Anás, rodeado de 28 conselheiros, num terraço, sob o qual podia passar, pelo lado. Em frente havia uma escada, interrompida por patamares, que conduzia a esse tribunal de Anás, no qual se entrava por uma porta própria, do fundo do edifício.
Jesus, cercado ainda por uma parte dos soldados que o prenderam, foi puxado pelos soldados, alguns degraus da escada para cima e seguro pelas cordas. A outra parte da sala foi ocupada por soldados e gentalha, judeus que insultavam Jesus, criados de Anás, e parte das testemunhas reunidas por este que depois se apresentaram em casa de Caifás.
Anás estava esperando impacientemente a chegada de Jesus: tudo nele revelava ódio, malícia e crueldade. Era então presidente de um certo tribunal e reunira ali a junta da comissão, que tinha a tarefa de velar pela pureza da doutrina e de exercer o ofício de procurador geral no tribunal do Sumo Sacerdote.
Jesus estava em pé diante de Anás, calado, de cabeça baixa, pálido, cansado, com as vestes molhadas e enlameadas, as mãos amarradas, seguro com cordas pelos soldados. Anás, velho malvado, magro, com pouca barba, cheio de impertinência e de orgulho farisaico, sorria hipocritamente, como se não soubesse de nada e se admirasse de ser Jesus o preso que lhe haviam anunciado.
O discurso enfadonho com que recebeu Jesus, não sei repetí-lo com as mesmas palavras, mas era mais ou menos o seguinte: “Olá! Jesus de Nazaré! És tu? Onde estão então os teus discípulos, os teus numerosos aderentes? Onde está o teu reino? Parece que tudo saiu muito diferente do que pensavas! Acabaram agora as injúrias; esperávamos pacientemente até que estivesse cheia a medida das tuas blasfêmias, dos teus insultos aos sacerdotes e violações do Sábado. Quem são os teus discípulos? Onde estão? Agora te calas? Fala, agitador e sedutor do povo? Já comeste o cordeiro pascal de modo insólito, à hora e em lugar fora de costume. Queres introduzir uma nova doutrina? Quem te deu o direito de ensinar? Onde estudaste? Qual é a tua doutrina, que excita a todos? Responde, fala! Qual é a tua doutrina?”.
Então levantou Jesus a cabeça fatigada e, fitando Anás, disse: “Tenho falado em público, diante de todo o mundo, em lugares onde todos os judeus costumam reunir-se. Não tenho dito nada em segredo. Porque me perguntas a mim? Pergunta àqueles que me ouviam, eles sabem o que tenho falado”.
Como o rosto de Anás, a essas palavras de Jesus, manifestasse ódio e raiva, um esbirro infame, miserável e adulador, que estava ao lado de Jesus e que o percebeu, bateu, com a mão de ferro, na boca e face de Nosso Senhor, dizendo: “Assim é que respondes ao Sumo Pontífice?” - Jesus, abalado pela veemência da pancada e arrancado e empurrado pelos soldados, caiu sobre a escada de lado e o sangue escorreu-lhe do rosto; a sala retumbou de escárnio, murmúrio, insultos e risadas. Levantaram Jesus com brutalidade e Ele disse calmamente: “Se falei mal, mostra-me em que; se eu disse a verdade, porque me feres?”
Anás, enfurecido pela calma de Jesus, convidou todos os presentes a dizer, como Ele próprio queria, o que dEle tinham ouvido, o que ensinava. Seguiu-se então uma grande vozeria e gritaria daquele populacho: Ele disse que era rei, que era Filho de Deus, que os fariseus eram adúlteros; Ele agitava o povo, curava no sábado, com auxílio do demônio; o povo de Ofel rodeava-O como dementes, chamava-O seu Salvador e Profeta; Ele se deixava chamar Filho de Deus; Ele mesmo se dizia enviado por Deus, chamava a maldição sobre Jerusalém, falava da destruição da cidade, não guardava o jejum, percorria o país seguido de multidões de povo, comia com ímpios, pagãos, publicanos e pecadores, levava em sua companhia mulheres de má vida, havia pouco tinha dito em Ofel que daria a quem lhe deu água a beber, água da vida eterna e ele não teria mais sede; seduzia o povo com palavras equívocas, desperdiçava o bem alheio, pregava ao povo muitas mentiras sobre seu reino e muitas outras coisas.
Todas essas acusações foram proferidas ao mesmo tempo, numa grande confusão. Os acusantes avançavam para Jesus, lançando-Lhe em rosto essas acusações, acompanhadas de insultos e os soldados empurravam-nO para cá e para lá, dizendo: “Fala! responde!” Anás e os conselheiros tomavam também parte, gritando-lhe, com riso sarcástico: “Ora, agora ouvimos a tua doutrina. É boa! Que respondes? É essa então a tua doutrina pública? O país está cheio dela. Aqui não tens nada que dizer? porque não ordenas? oh, rei? Oh, enviado de Deus, mostra a tua missão?”
A cada uma dessas exclamações dos superiores, seguiam-se arrancos, empurrões e insultos da parte dos soldados e de outros que estavam próximo, que todos de boa vontade teriam imitado o que Lhe batera na face.
Jesus cambaleava de um lado para o outro e Anás disse-lhe, com impertinência insultante: “Quem és? Que espécie de rei ou enviado? Eu julgava que fosses o filho de um marceneiro obscuro. Ou és acaso Elias, que foi levado ao Céu num carro de fogo? Dizem que ele ainda vive. Sabes também te tornar invisível, assim escapaste muitas vezes. Ou és por acaso Malaquias? Sempre tens feito gala com esse profeta, interpretando-lhe as palavras como se falasse de ti mesmo. Anda também a respeito dele um boato, que não tinha pai, que era um Anjo e não morreu; boa oportunidade para um embusteiro fazer-se passar por ele. Dize, que espécie de rei és? És maior do que Salomão? Esta é também uma afirmação tua. Está bem, não te quero privar mais tempo do título de teu reino”.
Anás mandou, pois, trazer uma tira de pergaminho, de 3/4 de côvado de comprimento e da largura de três dedos, pô-la sobre uma tabuinha, que seguravam diante dele e escreveu com uma pena de caniço uma série de letras grandes, cada uma das quais continha uma acusação contra o Senhor. Enrolou-a depois e pô-la numa pequena cabaça, fechando esta com uma rolha e amarrando-a a um caniço, mandou entregar-Lhe esse cetro irrisório e dirigiu-Lhe, com riso satírico, algumas palavras, como: “Eis aqui o cetro de teu reino; contém todos os teus títulos, dignidades e direitos. Leva-os ao Sumo Sacerdote, para que conheça a tua missão e o teu reino e te trate como convém à tua posição. Amarrai-Lhe as mãos e levai este rei ao Sumo Sacerdote”. Então amarraram de novo as mãos de Jesus, que antes tinham desligado, cruzando-lhas sobre o peito e pondo nelas o cetro afrontoso, que continha as acusações de Anás. Assim conduziram o Senhor, entre risadas, insultos e brutalidades, da grande sala de Anás para a casa de Caifás.

Jesus é conduzido de Anás a Caifás

Ao ser conduzido à casa de Anás, Jesus passara já pelo lado da casa de Caifás; reconduziram-nO depois para lá, descrevendo um ângulo. Da casa de Anás à de Caifás haveria talvez a distância de trezentos passos. O caminho, que passa entre muros e pequenos edifícios pertencentes ao tribunal de Caifás, era iluminado por braseiros, colocados em cima de paus e estava cheio de uma multidão clamorosa de frenéticos judeus. Mal podiam os soldados reter a multidão. Aqueles que tinham ultrajado a Jesus na casa de Anás, repetiram então a seu modo as palavras afrontosas desse último diante do povo e Jesus foi maltratado e injuriado em todo o percurso do caminho. Vi criados armados do tribunal afastarem pequenos grupos de pessoas que choravam, lastimando a Jesus, enquanto que deixavam entrar no pátio da casa de Caifás e davam dinheiro a outros que se distinguiam acusando e insultando o Divino Mestre.

O Tribunal de Caifás

A maior parte dos conselheiros convocados já estavam reunidos em torno do Sumo Sacerdote, no semicírculo elevado do tribunal; de vez em quando chegavam ainda alguns. Os acusadores e testemunhas falsas quase enchiam o átrio. Muita gente quis entrar à força, mas era repelida pelos soldados.(..)
Caifás já estava sentado no meio do semicírculo graduado; em roda se lhe sentavam cerca de setenta membros do Conselho Supremo. Muitos deputados comunais, anciãos e escribas estavam em pé ou sentados aos dois lados e em torno deles, muitas testemunhas e patifes. Do pé do tribunal, sob as colunatas, pelo átrio, até à porta pela qual se esperava a entrada de Jesus, foram dispostos soldados; aquela porta não era a que ficava em frente às cadeiras dos juízes, mas uma outra, à esquerda do átrio.
Caifás era um homem de aspecto sério, olhar colérico e ameaçador; estava vestido de um longo manto vermelho, ornado de florões e orlas de ouro, atado sobre os ombros, o peito e na frente, por muitas placas brilhantes. Na cabeça trazia um barrete, que na parte superior tinha semelhança com uma mitra; entre as partes, anterior e posterior desse, havia aberturas, dos lados, das quais pendiam pequenas faixas de pano, que caiam sobre os ombros. (...)

Jesus diante de Caifás

Entre frenéticos gritos de insulto, com empurrões e arrancos, foi Jesus conduzido pelo átrio, onde a desenfreada fúria do populacho se moderou, reduzindo-se a um sussurro e murmúrio surdo de raiva contida. Da entrada dirigiu-se o cortejo à direita, para o tribunal. Passando por Pedro e João, o querido Salvador, olhou-os, mas sem virar a cabeça para eles, para não os trair. Mal Jesus tinha chegado, por entre as colunas, em frente do tribunal, Caifás já lhe gritou: “Então chegaste, blasfemador de Deus, que nos tens profanado esta santa noite”.(...)
 Os soldados quiseram forçá-Lo a falar, davam-Lhe murros na nuca e nos lados, batiam-Lhe nas mãos e picavam-nO com sovelas; houve até um vil patife que lhe apertou com o polegar o lábio inferior sobre os dentes, dizendo: “Agora morde!”
Seguiu-se a audição das falsas testemunhas. (...) Contudo não eram capazes de encontrar qualquer acusação solidamente provada. Os grupos de testemunhas que entravam e saiam, começaram a insultar Jesus, em lugar de depor contra Ele. Discutiam veementemente uns com os outros e nos intervalos Caifás e alguns dos conselheiros continuavam incessantemente a insultar Jesus, gritando-Lhe, entre as várias acusações: “Que rei és tu? Mostra teu poder. Manda vir as legiões de Anjos, das quais falaste..(...)
Todas essas perguntas eram acompanhadas de incessantes crueldades dos soldados, que, com pancadas e murros, queriam forçar Jesus a responder. Só por milagre de Deus pôde Jesus agüentar tudo isso, para expiar os pecados do mundo. Algumas testemunhas infames afirmaram que Jesus era filho ilegítimo, mas imediatamente replicaram outros: “É mentira; pois sua mãe era uma moça piedosa do Templo e nós assistimos à cerimônia do seu casamento com um homem muito religioso”. Essas testemunhas começaram a discutir.(...)
Depois de muitos depoimentos falsos, vis e mentirosos, se apresentaram mais duas testemunhas, dizendo: Jesus disse que queria destruir o Templo feito pelas mãos de homens e construir em três dias outro, que não seria feito por mãos de homens. Mas também esses dois não estavam de acordo; um disse que Jesus queria construir um templo novo; por isso teria celebrado a Páscoa num outro edifício, porque queria destruir o antigo Templo; o outro, porém, disse que aquele edifício também fora construído por mãos de homens e que, portanto não se referia a ele.
Caifás chegou então ao auge da cólera; pois as crueldades praticadas para com Jesus, as afirmações contraditórias das testemunhas, a inefável paciência e o silêncio do Salvador, causaram impressão desfavorável a muitos dos presentes. Algumas vezes foram as testemunhas até vaiadas. Muitos ficaram inquietos no coração, vendo o silêncio de Jesus e cerca de dez soldados afastaram-se, sob pretexto de se sentirem indispostos. Esses, passando diante de Pedro e João, lhes disseram: “Este silêncio do Galileu, num processo tão infame, dói no coração, é como se a terra se fosse abrir e tragar-nos; dizei-nos aonde nos devemos dirigir”.
Caifás, furioso pelos depoimentos contraditórios e a confusão das duas últimas testemunhas, levantou-se do assento, desceu alguns degraus, até onde estava Jesus e disse: “Não respondes nada a esta acusação?” Indignou-se, porém, de Jesus não o fitar; os soldados puxaram então, pelos cabelos, a cabeça de Nosso Senhor, para trás e bateram-lhe com os punhos por baixo do queixo. Mas o Senhor não levantou os olhos. Caifás, porém, estendeu com veemência as mãos e disse em tom furioso: “Conjuro-Te pelo Deus vivo, que nos digas se és o Cristo, o Messias, o Filho de Deus Bendito!”
Acalmara-se a vozeria e seguiu-se um silêncio solene em todo o átrio; Jesus, fortalecido por Deus, disse, com uma voz cheia de inefável majestade, que fazia estremecer a todos, com a voz do Verbo Eterno: “Eu o sou, disseste-o bem. E eu vos digo que em breve vereis o Filho do homem assentado à mão direita da majestade de Deus, vindo sobre as nuvens do céu”.
Durante essas palavras vi Jesus como que luminoso e sobre Ele, no céu aberto, Deus Pai Todo-poderoso, numa visão inexprimível; vi os Anjos e as orações dos justos, suplicando e orando em favor de Jesus. Vi, porém, como se a divindade de Jesus falasse simultaneamente do Pai e do Filho: “Se eu pudesse sofrer, queria sofrer; mas porque sou misericordioso, aceitei a natureza humana no Filho, para que nela sofresse o Filho do Homem; pois sou justo e ei-Lo que toma sobre si os pecados de todos estes homens, os pecados de todo o mundo”.
Por baixo de Caifás, porém, vi aberto todo o inferno, um círculo lúgubre de fogo, cheio de figuras hediondas e ele por cima desse círculo, sustentado apenas como por um crepe fino. Vi-o penetrado pela fúria do inferno. Toda a casa me parecia um inferno agitado por baixo. Quando o Senhor declarou que era o Filho de Deus, o Cristo, foi como se o inferno tremesse diante dEle e fizesse subir a essa casa toda a sua fúria contra o Salvador.
Mas como tudo me é mostrado em imagens e figuras (cuja linguagem é para mim também mais verdadeira, curta e clara do que outras explicações, pois os homens também são formas corporais e sensíveis e não somente palavras abstratas), vi o medo e o ódio do inferno manifestar-se sob inúmeras figuras horríveis, que subiam em muitos lugares, como saindo da terra.
Entre outras me lembro ainda de bandos de pequenas figuras escuras, semelhantes a cães, que andavam nas patas traseiras, curtas e com garras compridas, mas não me lembro mais que espécie de vicio representavam essas figuras; sabia-o naquele tempo, mas agora só me lembro da forma. Tais figuras horrendas vi entrar na maior parte dos assistentes, ou sentar-se nos ombros ou sobre a cabeça deles. A assembléia estava cheia dessas figuras e a fúria aumentava cada vez mais em todos os maus. Nesse momento vi também muitas figuras hediondas, saindo dos sepulcros, além de Sião; creio que eram espíritos maus.
Vi também, perto do Templo, saírem da terra muitas aparições e entre essas, diversas que pareciam arrastar-se com cadeias, como presos; não sei mais se essas últimas aparições eram espíritos maus ou almas condenadas a habitarem certos lugares da terra e que talvez se dirigissem ao limbo, que o Senhor abriu pela sua própria condenação à morte. - Não se podem exprimir exatamente essas coisas, nem quero escandalizar aos que as ignoram, mas ao vê-las, sente-se um arrepio.
Esse momento tinha algo de horrível. Creio que também João deve ter visto alguma coisa, pois ouvi-o falar disso mais tarde; pelo menos todos os que não eram ainda inteiramente maus, sentiram, com um medo profundo, o horror desse momento; os maus, porém, sentiram-se numa violenta erupção de ódio.
Caifás, como inspirado pelo inferno, apanhou a orla do manto oficial, cortou-a com uma faca e rasgou o manto, com um ruído sibilante, gritando: “Ele blasfemou! Para que precisamos de testemunhas? Vós mesmos ouvistes a blasfêmia; que julgais?” Então se levantaram todos quantos ainda estavam presentes e gritaram, com voz terrível: “É réu de morte. É réu de morte”.
A esse grito, a fúria do inferno tornou-se naquela casa verdadeiramente terrível: os inimigos de Jesus estavam como embriagados por Satanás e do mesmo modo os servos aduladores e abjetos. Era como se as trevas proclamassem o seu triunfo sobre a luz. Causou tal horror aos que ainda conservavam um pouco de bom sentimento, que muitos destes saíram furtivamente, envolvidos nos mantos. Também as testemunhas mais notáveis, como não lhes fosse mais necessária a presença, saíram do tribunal, sentindo remorsos da consciência. Outros, mais vis, vadiavam pelo átrio e em redor da fogueira, onde, depois de recebido dinheiro, começaram a comer e beber.
O Sumo Sacerdote disse, porém, aos soldados: “Entrego-vos este rei; prestai a este blasfemo a devida honra”. Depois se retirou com os membros do Conselho, à sala circular, situada atrás do tribunal, cujo interior não se podia ver do átrio.
João, cheio de profunda tristeza, lembrou-se então da pobre Mãe de Jesus. Receou que a terrível notícia, comunicada por um inimigo, pudesse feri-la ainda mais e por isso, lançando mais um olhar ao Santo dos santos, disse no seu coração: “Mestre, bem sabeis porque me vou embora” e saiu apressadamente do tribunal, indo à SS. Virgem, como se fosse enviado por Jesus mesmo.
Pedro, porém, todo abalado pela angústia e pela dor e sentindo, devido à fadiga, ainda mais o frio penetrante da manhã, ocultava a tristeza e o desespero o mais que podia e aproximou-se timidamente da fogueira no átrio, rodeada pelo populacho, que ali se aquecia. Não sabia o que estava fazendo, mas não podia separar-se do Mestre.

Jesus é escarnecido e maltratado em casa de Caifás

 Quando Caifás saiu, com todo o conselho do tribunal, deixando Jesus entregue aos soldados, lançou-se o bando de todos os malvados patifes aí presentes, como um enxame de vespas irritadas, sobre Nosso Senhor, que até então estava seguro com cordas por dois dos quatro primeiros soldados; os outros tinham se afastado antes do interrogatório, para se revezarem com outros. Já durante a audição os soldados e outros malvados arrancaram tufos inteiros do cabelo e da barba do Senhor.
Alguns homens bons apanharam parte do cabelo do chão e afastaram-se furtivamente com ele; mas depois lhes desapareceu. O bando vil dos soldados também já tinham cuspido em Jesus, durante o interrogatório que lhe tinham dado inúmeros murros, batido com paus que terminavam em bulbos munidos de pontas e picado com alfinetes; mas depois descarregaram a raiva de um modo insensato sobre o pobre Jesus. Punham-Lhe na cabeça várias coroas, trançadas de palha e cortiça, de formas ridículas e tiravam-nas novamente, com palavras maldosas de escárnio. (...)

Depois arrastaram e empurraram Jesus, com murros e pancadas, por toda a sala, passando em frente dos membros do Conselho, ainda reunidos, que todos O insultavam e escarneciam. Vi tudo cheio de figuras diabólicas; era um movimento sinistro, confuso e horrível. Mas em redor de Jesus maltratado vi muitas vezes um esplendor luminoso, desde que dissera que era o Filho de Deus. Muitos dos presentes pareciam sentí-Lo também mais ou menos, vendo com certa inquietação que todos os insultos e maus tratos não Lhe podiam tirar a majestade inexprimível.
Os inimigos obcecados pareciam sentir esse esplendor somente pela erupção mais forte de sua ira e de seu ódio; a mim, porém, parecia esse esplendor tão manifesto, que não podia deixar de pensar que velavam o rosto de Jesus, só porque o Sumo Sacerdote, desde que ouvira a palavra: “Eu o sou”, não podia mais suportar o olhar do Salvador.

    Segue a negação de Pedro, conforme está nos Evangelhos.

Quando Jesus disse, em tom solene: “Eu o sou”, quando Caifás rasgou o próprio manto, quando o grito: “É réu de morte!” interrompeu os insultos e ultraje da gentalha, quando se abriu sobre Jesus o céu da justiça e o inferno desencadeou sua fúria e dos sepulcros saíram os espíritos presos, quando tudo estava cheio de medo e horror; (...)
Quem se atreveria a dizer, que em tais perigos, angústias, em tal pavor e confusão, numa tal luta entre amor e medo, cansado, insone, prestes a perder a razão pela dor de tantos e tão tristes acontecimentos dessa noite horrível, com uma natureza tão simples como ardente, quem se atreveria a dizer que, em iguais condições, teria sido mais forte do que Pedro? O Senhor abandonou-o às próprias forças; tornou-se então tão fraco como o são todos os que esquecem as palavras: “Vigiai e orai, para não cairdes em tentação”.

Seguem as descrições do sofrimento da Santíssima Virgem. Mas as omitimos, porque na verdade, misteriosamente ela sofria as mesmas dores de Jesus.
 
Jesus no cárcere

A cadeia em que estava Jesus, era um lugar pequeno, abobadado, sob o tribunal de Caifás. Vi que ainda existe parte desse lugar. Dos quatro, só dois soldados ficavam com Ele; revezavam-se com os outros, várias vezes, em pouco tempo. Ainda não tinham restituído a roupa a Jesus, que estava vestido apenas daquele manto rasgado, coberto de escarro e com as mãos novamente amarradas.
Ao entrar na prisão, Jesus pediu ao Pai Celeste que aceitasse toda a crueldade e escárnio que sofreu e ainda ia sofrer, como sacrifício expiatório por todos os homens que no futuro pecassem por impaciência e ira, em igual sofrimento. Também nesse lugar os soldados não deixavam descansar o Senhor. Amarraram-nO a uma coluna baixa, no meio do cárcere e não Lhe permitiam encostar-se, de modo que cambaleava com os pés feridos e inchados pelas quedas e pelas pancadas das cadeias, que Lhe pendiam até os joelhos. Não deixavam de insultar e maltratá-Lo e sempre que os dois estavam cansados, eram revezados por outros, que entrando, começavam a fazer-Lhe novas injúrias.
Não me é possível contar todas as baixezas que proferiram contra o mais Puro e Santo de todos os Seres; fiquei doente demais e então quase morri de compaixão. Ai! Que vergonha para nós, que por moleza e nojo nem podemos contar ou escutar as crueldades inumeráveis que o Salvador sofreu por nós! Sentimos um terror semelhante ao do assassino a quem mandam pôr a mão nas feridas do assassinado.
Jesus sofria tudo sem abrir a boca: Eram os homens, que soltavam a fúria contra seu irmão, seu Redentor, seu Deus. (1) Também sou pecadora, também por minha causa Ele teve de sofrer. No dia do Juízo há de manifestar-se tudo. Então veremos que parte nos maus tratos do Filho de Deus tivemos, pelos nossos pecados, que continuamente cometemos e pelos quais consentimos e nos unimos às crueldades perpetradas por aquele bando de soldados diabólicos. Ai! Se considerássemos isso, pronunciaríamos muito mais seriamente aquelas palavras contidas nas fórmulas de contrição: “Senhor! Faze-me antes morrer do que vos ofender mais uma vez pelo pecado”.
Estando em pé no cárcere, Jesus rezava continuamente pelos carrascos. Quando esses ficaram enfim cansados e mais calmos, vi Jesus encostado ao pilar e rodeado de luz. Amanheceu o dia, o dia de sua imensa Paixão e expiação; o dia da nossa redenção espiava timidamente por um orifício no alto da parede, contemplando o nosso Cordeiro Pascal, tão santo e maltratado, que tomara sobre si todos os pecados do mundo. J
Jesus levantou as mãos amarradas ao novo dia, rezando alto e distinto uma oração tocante ao Pai Celestial, na qual agradeceu a missão desse dia, que almejavam os Patriarcas, pelo qual Ele tanto suspirara, desde a sua vinda ao mundo, como disse: “Devo ser batizado com um batismo e quanto desejo que se realize!” Com que fervor agradeceu o Senhor esse dia, em que devia alcançar o alvo de sua vida, nossa salvação, abrir o Céu, vencer o inferno, abrir para os homens a fonte da graça e cumprir a vontade do Pai Celeste!
Rezei com Ele, mas não sei mais repetir a oração, pois eu estava extenuada de compaixão e de chorar, vendo-Lhe os sofrimentos e ouvindo-O ainda agradecer os horríveis tormentos, que tomou sobre si também por minha causa; eu suplicava sem cessar: “Ah! Dai me as vossas dores; pertencem-me a mim, pois são a expiação das minhas culpas”.
Amanheceu o dia e Jesus saudou-o com uma ação de graças tão comovente, que fiquei como aniquilada de amor e compaixão e repeti-Lhe as palavras como uma criança. Era um espetáculo indizivelmente triste, afetuoso, santo e imponente, ver Jesus, depois desse tumulto da noite, amarrado à coluna, no meio do estreito cárcere, rodeado de luz, saudando com palavras de agradecimento os primeiros raios do grande dia de seu sacrifício.
Ai! Parecia-me que esse raio Lhe entrou no cárcere, como um juiz vem visitar um condenado à morte, para reconciliar-se com ele antes da execução. E Ele ainda Lhe agradeceu tão docemente! - Os soldados, que de cansaço tinham adormecido um pouco, acordaram surpresos, olhando para Ele; mas não O incomodaram, pois pareciam admirados e assustados. Jesus ficou nesse cárcere pouco mais de uma hora.

(1) Foi nas mãos destes carrascos, especialmente de dois deles, servos dos sumo sacerdotes, que Jesus sofreu as suas 15 Dores Secretas, confiadas por Ele mais tarde a Irmã Clarissa Maria Madalena, conforme a devoção hoje amplamente divulgada. Estes dois monstros flagelaram Jesus por horas seguidas, até caírem de exaustão, de tal forma se haviam entregado a satanás. Eles tudo fizeram para que Jesus gritasse por clemência, mas como o divino e mando Cordeiro não abria a boca, mais se enfureciam. Todo este processo era ilegal, e esta tortura era proibida a um condenado, antes do julgamento, mesmo entre os povos mais diabólicos da terra, e mesmo entre os juizes mais iníquos.


Judas aproxima-se da casa do tribunal

 Judas, tomado de desespero, impelido pelo demônio, vagueara pelo vale Hinom, no lado íngreme, ao sul de Jerusalém, lugar onde se jogava o lixo, ossos e cadáveres; enquanto Jesus estava no cárcere, ele veio aproximar-se da casa do tribunal de Caifás. Rodeava-a, espreitando; ainda lhe pendia, preso ao cinto, o prêmio da traição, as moedas de prata encadeadas num molho.
A noite já se tornara silenciosa e o infeliz perguntou aos guardas, que não o conheciam, o que seria feito do Nazareno. Responderam-lhe: “Foi condenado à morte e será crucificado”. Ainda ouviu outros falarem entre si que Jesus fora tratado tão cruelmente e sofrera tudo com paciência e resignação; ao amanhecer seria levado outra vez perante o Supremo Conselho, para ser condenado solenemente.
Enquanto o traidor colhia cá e lá essas notícias, para não ser reconhecido, amanheceu o dia e já se via muito movimento dentro e em redor da casa. Então, para não ser visto, retirou-se Judas para os fundos da casa; pois fugia dos homens como Caim e o desespero tomava-lhe cada vez mais posse da alma. Mas eis o que se lhe apresentou ante os olhos: - Achou-se no lugar onde tinham trabalhado preparando a cruz; lá estavam as várias peças já arrumadas e entre elas, envolvidos nos cobertores, estavam os operários dormindo.
Por sobre o monte das Oliveiras cintilava a pálida luz da manhã; parecia tremer de horror, ao ver o instrumento da nossa salvação. Judas, ao deparar essa cena, fugiu, preso de horror: vira o madeiro do suplício, para o qual vendera o Senhor. Escondeu-se, porém, nos arredores, esperando pelo fim do julgamento da madrugada.

O julgamento de Jesus na madrugada

Ao romper do dia, quando já clareara, reuniram-se novamente Anás e Caifás, os anciãos e os escribas, na grande sala do tribunal, para uma sessão perfeitamente legal; pois o julgamento feito durante a noite não era válido e era considerado apenas um depoimento preparatório das testemunhas, porque urgia o tempo, por causa da festa iminente.
A maior parte dos membros do conselho passaram o resto da noite na casa de Caifás, seja em aposentos contíguos, seja na própria sala do tribunal, onde foram colocados leitos para esse fim. Muitos, entre eles Nicodemos e José de Arimatéia, chegaram ao romper do dia. Foi uma assembléia numerosa e em cuja ação houve muita precipitação.
Como os membros do conselho se incitassem uns aos outros a condenar Jesus à morte, levantaram-se Nicodemos, José de Arimatéia e alguns outros contra os inimigos de Jesus, exigindo que a causa fosse adiada até depois da festa, para não provocar tumultos; também porque não se podia basear um julgamento justo sobre as acusações até então proferidas, por serem contraditórios os depoimentos das testemunhas.
Os sumos sacerdotes e seu partido forte irritaram-se com essa oposição e deixaram ver claramente aos adversários que estes também eram suspeitos de favorecerem a doutrina do galileu e que por isso naturalmente não lhes agradava esse julgamento, porque se dirigia também contra eles mesmos; assim decidiram eliminar do Conselho todos que eram a favor de Jesus; esses, porém, protestaram contra tal processo e, declarando-se alheios a tudo que o Conselho ainda decidisse, retiraram-se da sala do tribunal e dirigiram-se ao Templo. Depois desse fato, nunca mais tomaram parte nas sessões do conselho.
Caifás, porém, mandou tirar Jesus do cárcere e conduzi-Lo, fraco, maltratado e amarrado, como estava, diante do Conselho e preparar tudo de modo que depois do julgamento, pudessem levá-lo imediatamente a Pilatos. Os soldados correram tumultuosamente ao cárcere, lançaram-se com insultos sobre Jesus, desamarraram-nO da coluna e tiraram-Lhe o manto esfarrapado dos ombros, obrigaram-nO, entre golpes, a vestir sua comprida túnica, ainda coberta de toda a imundície e amarrando-O de novo com as cordas pela cintura, conduziram-nO para fora do cárcere. Isso foi feito, como tudo, com grande pressa e horrível brutalidade.
Conduziram-nO como um pobre animal de sacrifício, entre insultos e golpes, através das fileiras dos soldados, que já estavam reunidos diante da casa, à sala do tribunal. Quando Ele, horrivelmente desfigurado pelos maus tratos, pela extenuação e imundície, vestido apenas da túnica toda suja, apareceu diante do Conselho, o nojo aumentou ainda o ódio desses homens. Nesses corações duros de judeus não, havia lugar para a compaixão.
Caifás, porém, cheio de escárnio e raiva de Jesus, que estava em pé diante dele, tão desfigurado, disse-Lhe: “Se és o Cristo do Senhor, o Messias, dize-no-lo”. Jesus levantou o rosto e disse, com santa paciência e solene gravidade: “Se vo-lo disser, não acreditareis e se vos perguntar, não me respondereis, nem me dareis a liberdade; de hoje em diante o Filho do homem sentará à direita do poder de Deus”. Entreolharam-se então e com um riso de desprezo, disseram a Jesus: “És então o Filho de Deus?” Jesus respondeu, com a voz da verdade eterna: “Sim, é como dissestes, eu o sou”. A essa palavra de Nosso Senhor gritaram todos: “Que provas precisamos ainda? Ouvimo-Lo nós mesmos da sua própria boca”.
Levantaram-se todos, cobrindo Jesus de escárnio e insultos, chamando-O de vagabundo, miserável, de obscuro nascimento, que queria ser o Messias e sentar-se à direita de Deus. Deram ordem aos soldados de amarrá-Lo de novo, pôr-Lhe uma cadeia de ferro em redor do pescoço, como aos condenados à morte, para levá-Lo assim ao tribunal de Pilatos. Já antes tinham enviado um mensageiro ao Procurador, avisando-lhe que preparasse tudo para julgar um criminoso, porque deviam apressar-se, por causa da festa.
Ainda murmuravam contra o governador romano, por serem obrigados a levar Jesus ainda ao tribunal do mesmo; porque, quando se tratava de coisas estranhas às leis da religião e do Templo, não podiam aplicar a pena de morte; querendo, pois, condenar Jesus com mais aparência de justiça, acusaram-nO de crime contra o imperador, mas diante disso competia o julgamento ao governador romano.
Os soldados já estavam alinhados no adro e até fora da casa e muitos inimigos de Jesus já se tinham reunido diante da casa, com o populacho. Os sumos sacerdotes e parte do conselho abriam o séquito, seguia-se depois o nosso pobre Salvador, entre os soldados e cercado da soldadesca e por fim toda a corja do populacho. Assim desceram do monte Sião à cidade baixa, onde ficava o palácio de Pilatos. Uma parte dos sacerdotes que assistiram ao Conselho, dirigiram-se ao Templo, onde nesse dia tinham muito serviço a fazer.

Desespero de Judas

Judas, o traidor, que não se tinha afastado muito, ouviu então o barulho do séquito, como também as palavras de algumas pessoas, que seguiam de mais,longe; entre outras coisas disseram: “Agora vão levá-Lo a Pilatos; o Conselho supremo condenou-O à morte; vai ser crucificado; também não pode mais viver, nesse horrível estado em que O deixaram os maus tratos. Tem uma paciência incrível, não diz nada, apenas que é o Messias e se sentará à direita de Deus; outra coisa não disse e por isso vai morrer na cruz; se não o tivesse dito, não O podiam condenar à morte, mas assim deve morrer.
“O patife que O vendeu, foi seu discípulo e pouco antes ainda comeu com ele o cordeiro pascal; eu não queria ter parte nesta ação; seja como for, o Galileu pelo menos nunca entregou um amigo à morte por dinheiro. Deveras, esse patife de traidor merece também ser enforcado”. Então o arrependimento tardio, a angústia e o desespero começaram a lutar na alma de Judas. O demônio impeliu-o a correr. O molho das trinta moedas de prata, no cinto, sob o manto, era-lhe como uma espora do inferno: segurou-o com a mão, para que não fizesse tanto barulho, batendo-lhe na perna ao correr.
Correu à toda a pressa, não atrás do cortejo, para lançar-se aos pés de Jesus, pedindo perdão ao Salvador misericordioso, não para morrer com Ele, nem para confessar a culpa diante de Deus; mas para se limpar diante dos homens da culpa e desfazer-se do prêmio da traição; correu como um insensato ao Templo, aonde diversos membros do supremo conselho como chefes dos sacerdotes em exercício e alguns dos anciãos se tinham dirigido, depois do julgamento de Jesus.
Olharam-se mutuamente, admirados e com um sorriso desprezível, dirigiram olhares altivos a Judas que, impelido pelo arrependimento do desespero e fora de si, correu para eles; arrancou o feixe das moedas de prata do cinto e, estendendo-lhes a mão direita com o dinheiro, disse, em tom de violenta angústia: “Tomai aqui o vosso dinheiro, com o qual me seduzistes a entregar-vos o Justo; retomai o vosso dinheiro e soltai Jesus; eu rompo o nosso pacto; pequei gravemente, traindo sangue inocente”.
Mas os sacerdotes mostraram-lhe então todo o seu desprezo; retiraram as mãos do dinheiro que lhes oferecia, como se não quisessem manchar-se com o prêmio da traição, dizendo: “Que nos importa que pecasses? Se julgas ter vendido sangue inocente, é lá contigo; sabemos o que compramos de ti e julgamo-Lo réu de morte; é teu dinheiro, não temos nada com isso. Etc”..
Disseram-lhe essas palavras no tom que usam os homens que estão muito ocupados e querem livrar-se de um importuno e viraram as costas a Judas. Esse, vendo-se assim tratado, foi tomado de tal raiva e desespero, que ficou como louco; eriçaram-se-lhe os cabelos e rompendo com as duas mãos o molho das moedas de prata, espalhou-as com veemência no templo e fugiu para fora da cidade.
     Vi-o de novo, correndo como louco, no vale de Hinom e o demônio em figura horrível ao seu lado, segredando-lhe ao ouvido, para levá-lo ao desespero, todas as maldições dos profetas sobre esse vale, onde antigamente os judeus sacrificavam os próprios filhos aos deuses. Parecia-lhe que todas essas palavras o indicavam com o dedo, dizendo, por exemplo: “Eles sairão para ver os cadáveres daqueles que contra mim pecaram, cujo verme não morre, cujo fogo não se apaga”.
     Depois lhe soou aos ouvidos.: “Caim, onde está Abel, teu Irmão? Que fizestes? O sangue de teu irmão clama a mim; agora, pois, serás maldito sobre a terra, vagabundo e fugitivo”. Quando chegou à torrente doe Cedron e olhou na direção do monte das Oliveiras, estremeceu e virou os olhos. Então ouviu de novo as palavras: “Amigo, para que vieste? Judas, é com um beijo que entregas o Filho do homem?”
     Então um imenso horror lhe penetrou no fundo da alma, confundiram-se-lhe os sentidos e o inimigo segredou-lhe ao ouvido: “Aqui sobre o Cedron, fugiu também Davi diante de Absalão; Absalão morreu pendurado numa árvore; Davi referia-se também a ti no salmo: “Retribuíram o bem com o mal, ele terá um juiz severo; Satanás estará à sua direita, todo o tribunal o condenará; os seus dias serão poucos; outro lhe receberá o episcopado; o Senhor recordar-se-á sempre da maldade dos seus pais e dos pecados de sua mãe, porque sem misericórdia perseguiu os pobres e matou os aflitos; ele amava a maldição e esta virá sobre ele; revestia-se da maldição como de uma veste, como água lhe entrou ela nos intestinos, como óleo nos ossos; como uma veste o cobre a maldição, como um cinto que o cinge eternamente”.
     Entre esses terríveis remorsos da consciência(1), chegara Judas a um lugar deserto, pantanoso, cheio de lixo e imundície, a sudeste de Jerusalém, ao pé do monte dos Escândalos, onde ninguém o podia ver. Da cidade se ouvia ainda mais forte o tumulto e o demônio disse-lhe: “Agora O conduzem à morte; vendeste-O; sabes o que está escrito na lei? “Quem vender uma alma entre seus irmãos, os filhos de Israel, morrerá. Acaba com isto, miserável, acaba com isto!”. Então tomou Judas desesperado o cinto e enforcou-se numa árvore que crescia em vários troncos, numa cavidade daquele lugar. Quando se enforcou, rebentou-se-lhe o ventre e os intestinos caíram-lhe sobre a terra.

      (1) Devemos ter em mente que na verdade Judas jamais se arrependeu de fato. Quem se arrepende, faz como Pedro que também traiu Jesus: Vai, pede perdão, e chora as suas culpas amargamente. Judas, ao contrário, desesperou-se, duvidando da misericórdia de Deus, que é sempre infinitamente maior que o nosso pecado. Este é exatamente o pecado contra o Espírito Santo, do qual Jesus falou. É uma gravíssima ofensa duvidar de Deus e da Sua misericórdia.

        Vimos assim, o quão pavorosa foi a cena de Jesus servido de joguete nas mãos daqueles dois malditos adeptos de satanás. Certamente que toda a flagelação de que foi vítima, lhe haviam roubado quase todas as forças. Mas não era o fim ainda, porque vem agora a parte de Pilatos, com a verdadeira flagelação de que falam os Evangelhos.
     Que nos compenetremos destas dores imensas, unindo-as às nossas pequeninas, para que possamos fazer parte deste Mistério Supremo: A Redenção do homem!

Até o próximo capítulo, meditemos profundamente neste!


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