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Artigo N.º 6847 - Posse
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Postado em: 13/12/10 às 21:30:42 por: James
Categoria: Marisa Bueloni
Link: http://www.espacojames.com.br/?cat=123&id=6847
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(Marisa Bueloni)


O céu azul me pertence. Tenho escritura e tudo. Todas as nuances azuis de dezembro são minhas. Não roubem de mim a cálida tarde dezembrina, quando um vento súbito toca minha face primitiva.

     Lá vai bala.
 
     Não toquem em nada, por favor. Proibido tocar nas coisas proibidas. Preservem os sapos, os lagartos rajados que vagueiam pelas estradinhas de terra. Todos os bichos da criação divina, como enfeitam a paisagem! Construam uma casa para os abrigarem dos predadores de plantão. Não façam queimadas. Deus agradece.
 
     Fico só espiando. Deitada na rede, o sonho desaba sobre mim, não preciso fazer força alguma para sonhar. Lá no alto, coisas acontecem sem que eu saiba. É um entra e sai de anjos que só vendo. Tem portaria e tudo. Carimbo, não. Protocolo, recibo, nota fiscal, essas formalidades burocráticas são coisas aqui da terra besta. Perdão.
 
     Fico só olhando. Espero a beleza chegar. Que arrepio! E ela está em toda parte onde pouso meu olhar perdido. Na palma mais alta do coqueiro, na chácara vizinha. Alguém escreveu assim: “O amor canta ao nosso redor”. Na verdade, busco exatamente isso, o incêndio fatal, a iluminação do ser. Hábitat do amor.
   
     As copas altas das árvores revelam-me seus segredos. Esfregam-se suaves e etéreas, eróticas e tímidas, volúpia vegetal exalando perfume das alturas sublimes. Soluço a improvável agonia do entardecer. Meu peito está partido.
 
     É dia de sol. É dezembro. É tarde de brisa aqui no Campestre. Pelo amor de Deus, não me obrigue a contar mais do que isso. Jogo um beijo soprado daqui para as palmas altas dos coqueiros vizinhos e digo o que não se diz. Há frases que ficam perfeitas quando não ditas, não pronunciadas. Não digo o que penso. É perigoso.
 
     Chega-se a uma altura da vida em que temos de, ao menos, pensar o que dizemos. Aí faz sentido. Quero a coerência dos meus atos, nos mais íntimos pensamentos, nas mais exatas das minhas ações. Dois mais dois são quatro e quem tiver outra matemática seja anátema.
 
     Existe uma exatidão em todas as coisas. É o quadrado perfeito de Deus, a menorá de sete velas, o número sete em sua magnitude, a regra que não tem exceção, a pródiga numeralidade do eterno.
 
     Aprendi com meus pais a ser simples e a viver com pouco. “Mais que um prato de comida e um canto para morar, o que mais é preciso?” – perguntava minha mãe, cheia de sabedoria. Eu abaixava a cabeça e subia no pé de manga para pensar.
   
     Agora também estou pensando. Ó Deus, por que as folhagens estão sussurrantes nesta brisa de dezembro? A visão das copas flutuantes está me esmagando. Há coisas que os olhos não deveriam ver. Devíamos ter apenas vislumbres, turvas visões, impressões sutis, reflexos luminosos, percepções do invisível entorno. Há uma beleza proibida aos olhos humanos. E é pecado mortal olhar para ela.
 
     Quando dezembro chega, chega um amor extremado pelas pessoas e por tudo que nos cerca. Ah, se nossos amores soubessem quanto os amamos! Ah, meu Deus, o tempo passa depressa demais quando se descobre o amor. E então? O que está feito está feito. Prefiro a impermanência e o desgosto de ver acabarem-se alguns encantos, do que perder a longa espera da beleza. Não desisto, monto guarda, vigio sem cessar. E rezo.
 
     Deus Pai! Como tenho rezado neste meu canto campesino. Estou vendendo minha chácara e um dos interessados, ao adentrar a sala, dando com o jardim interno repleto de lírios brancos rodeando a imagem de Nossa Senhora, disse-me: “Há uma paz neste lugar, há paz nesta casa”.
 
     Eu sei, eu tenho certeza disso. É a paz construída com a força da fé, da humildade e da oração diária. Ave, Maria, cheia de graça, cuida de todos nós! Somos tão frágeis e pequeninos. E este mundão está nos assustando cada vez mais, ó Mãe.
 
     Desculpe, me perdi no caminho. Não lembro onde estava. Ah, sim, eu tomava posse do céu azul. Ele me pertence.  Dezembro aperta meu peito como um alicate. Dezembro canta dentro de mim esta posse da qual me julgo merecedora. “O amor canta ao nosso redor”.
 
     Tomo posse do céu azul, de dezembro, do vento e das alvíssaras. Tomo posse do que consigo. Abraço meus pertences, abraço aquilo que não posso comprar. Abraço o mar e sua profundeza abissal. A praia deserta, a viagem de navio, Veneza de Noite, a Despedida em Paris. Abraço os amigos queridos, os da internet, os muitos que conheço só de foto, os que me mandam e-mails inflamados. Os que me enviam relatos místicos. Há mais coisas entre o céu...  Abraço os bissextos e os encantadoramente diários.
 
     E se me permitir, meu anjo, abraço você. Então, com sua permissão, entendo tudo. Tudo. Tudo. Muito obrigada!
 

 

 




Marisa Bueloni mora em Piracicaba, é formada em Pedagogia e Orientação Educacional – marisabueloni@ig.com.br



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