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Artigo N.º 7220 - SEGUIR CRISTO NA CHINA
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Postado em: 01/02/11 às 08:52:39 por: James
Categoria: Destaque
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Entrevista com líder da organização que defende cristãos chineses

ROMA, domingo, 30 de janeiro de 2011 (ZENIT.org) - Bob Fu poderia ter sido um dos mortos no massacre da Praça Tiananmen, se não fosse pelo fato de que sua namorada (atual esposa) adoecera uns dias antes de o governo chinês enviar o exército para reprimir os protestos estudantis pela democracia.

Embora ele não tenha estado na praça naquele dia, o massacre mudou a vida de Fu - foi quando ele perdeu a fé no comunismo. Sua prisão subsequente o levou à conversão ao cristianismo e à sua fuga da China.

Fu agora lidera, nos Estados Unidos, a fundação China Aid, que busca ajuda internacional para os cristãos na China.

Bob Fu fala, nesta entrevista, sobre sua vida na China e sobre o futuro dos cristãos em sua terra natal.

Você foi um dos líderes estudantis na Praça Tian anmen. Poderia nos contar o que aconteceu?

Fu: Sim. Naquele momento, juntamente com muitas outras centenas de milhares de estudantes chineses, eu estava na Praça Tian anmen e, basicamente, protestávamos contra a corrupção generalizada no governo chinês e também buscávamos liberdade, democracia e direitos humanos. Os protestos - realizados durante várias semanas - se encontraram, na madrugada de 4 de junho de 1989, com tanques e milhares de soldados chineses do Exército de Libertação Popular. Os soldados começaram a atirar no seu próprio povo. Eu havia deixado a PraçaTian anmen três dias antes do massacre, porque a minha namorada, hoje minha esposa, estava muito doente.

O que aconteceu depois disso?

Fu: Após o massacre, eu estava basicamente sob "detenção suave", como eles a chamam. Formou-se uma equipe especial de interrogadores para investigar e interrogar-me dia e noite e eu não tinha permissão para ir às minhas aulas na faculdade. Todo dia, eu era tratado como um prisioneiro; procuravam me obrigar a assinar uma confissão. Também exigiram que eu informasse sobre todos os que estavam envolvidos no movimento estudantil.

No final, você cedeu?

Fu: No final, não foi o Partido Comunista quem realmente me convenceu, mas o Espírito Santo. Então eu tive uma mudança revolucionária na minha vida.

Você perdeu a fé no sistema?

Fu: Sim, porque eu tinha colocado a minha esperança no sistema. Eu tentei ser ativo na política e tentei mudar o Partido Comunista, unindo-me às atividades do partido.

Você acreditava nele?

Fu: Sim, eu confiava no sistema para mudar o sistema, mas, quando o exército atirou no seu próprio povo e destruiu vidas inocentes, todos os nossos sonhos acabaram e, com a desilusão e o desespero, quase me suicidei, até que eu comecei a conhecer o meu Senhor Jesus Cristo.

Como você conheceu Jesus?

Fu: Isso aconteceu num momento em que minha vida estava em crise. Eu não sabia como sobreviveria à próxima rodada de perguntas. Eu tinha tentado mudar os outros, mas muitos dos meus supostos amigos me traíram para mostrar a sua lealdade ao Partido Comunista. Então, eu estava cheio de ódio. Eu queria matá-los e depois me matar. Foi então que alguém me deu um livro - uma biografia de um pastor chinês. O livro foi conseguido por um cristão norte-americano, professor meu, que lecionava inglês em nosso departamento. Ler aquele livro transformou a minha vida.

Você só disse: "Sim, Senhor".

Fu: Sim. O livro relata como um ex-dependente químico, um intelectual muito experiente, chegou a abraçar a fé cristã e se transformou totalmente, tornando-se uma nova criatura em Cristo.

A polícia chinesa, a polícia secreta, descobriu a sua escola bíblica. O que aconteceu?

Fu: Oficialmente, eu era um professor de inglês na Escola do Partido Comunista Chinês de Pequim. Durante o dia, passava várias horas lecionando Inglês aos líderes do Partido Comunista. À tarde e no resto do meu tempo, no final de semana, eu me ocupava preparando pastores, em uma escola bíblica clandestina, até que ela foi descoberta pela polícia secreta chinesa. Em maio de 1996, minha esposa e eu fomos detidos e presos.

Preso novamente. O que aconteceu? Como foi para você?

Fu: Foi muito duro. Nos três primeiros dias e nas três primeiras noites, tentavam não me deixar dormir em nenhum momento. Era a privação do sono para acabar com a vontade da pessoa e levá-la para a sala de interrogatório; e cada interrogador ocupava seu turno para interrogar sem parar.

O que eles queriam que você revelasse? Era informação ou simplesmente queriam que você renegasse sua fé cristã?

Fu: Queriam que eu revelasse quantos cristãos havia na minha igreja. Quantos estudantes? De onde eles vinham? Quem financiou isso? Quem eram os professores? Basicamente, queriam que eu traísse meus irmãos e irmãs cristãos. Fizeram o mesmo com minha esposa. Constantemente me lembravam: "Sua mulher está em outra sala. Se você não revelar nada, ela continuará presa lá".

Você vivenciou a tortura física?

Fu: Realmente não, em comparação com muitos pastores da igreja, porque, de certa forma, eles me olhavam como um intelectual. Eu tinha inclusive um diploma de Direito e só ficava lembrando-lhes que deveriam obedecer à lei; caso contrário, eu os perseguiria até que eles me soltassem.

Como São Paulo dizendo: "Eu sou romano".

Fu: Sim, sim, é assim que eu me lembro deles. Foi difícil, mas eu não descreveria isso como tortura. Não me deixavam dormir e fui maltratado algumas vezes, mas o tratamento que recebi não passou disso.

Eu gostaria de falar um pouco sobre as comunidades cristãs e como essas comunidades estão vivendo a sua fé atualmente. Sabemos, com estimativas conservadoras, que existem cerca de 70 milhões de cristãos. É uma estimativa conservadora? De que número poderíamos estar falando realmente?

Fu: Sabemos, pelo ex-diretor nacional da Administração Estatal para Assuntos Religiosos, Ye Xiaowen, que, em 2007, o número de cristãos chineses já havia chegado a 130 milhões, incluindo os católicos. Então, sendo conservadores, pode-se falar de entre 70 e 130 milhões. Só em Pequim, eu conheci um pastor altamente respeitado pela igreja internacional e, antes que ele deixasse a China, o diretor da Secretaria de Assuntos Religiosos de lá lhe disse que só a cidade de Pequim tinha mais de 9.000 igrejas-lares. Portanto, este aumento não tem precedentes. Em 1949, quando o Partido Comunista assumiu o poder, havia menos de um milhão de cristãos, e quando nós consideramos que, mesmo sendo conservadores, há um aumento de 70 milhões, é um grande crescimento em 60 anos.

Mas algumas vezes acontece repressão violenta aos cristãos?

Fu: Sim. Se bem que, para sermos justos, nos últimos 30 anos houve mudanças positivas e avanços não só de prosperidade econômica, mas também de liberdade religiosa. Mas no geral a liberdade religiosa ainda tem problemas. Existe uma extensa perseguição em muitas partes da China.

Você fugiu da China. O que o fez abandonar a pátria?

Fu: Ficamos presos durante dois meses. Por causa da pressão internacional e porque eles não conseguiram mostrar evidências sólidas para nos processar, acabamos soltos. Descobrimos que a vida fora da cadeia era até mais dura do que lá dentro. Eles nos levavam para a delegacia de polícia o tempo todo, queriam basicamente que fôssemos informantes. Tínhamos de informar de cada ligação telefônica, cada visitante. Era muito duro.

Uma vez a polícia levou a minha esposa e eu até um parque e nos lembrou que podia nos prender a qualquer momento. Uma fonte lá de dentro nos informou que estávamos na lista para voltar a ser presos por falta de cooperação. Minha mulher estava grávida e não tinha cartão de autorização de gravidez.

Para contextualizar o assunto: o que é essa autorização de gravidez e como ela faz parte da política do filho único?

Fu: O governo chinês mantém esse controle de nascimentos, ou política do filho único, baseado na teoria de que os recursos são limitados e que a única forma de a população existente conseguir o bem-estar econômico é limitando o tamanho da população. No geral eles permitem que cada família tenha só um filho. Então, quando você quer ter o primeiro filho depois de casar, tem de pedir um cartão de autorização de gravidez, um cartão amarelo para que a sua esposa possa engravidar legalmente. Se ela não tiver o cartão, vai ser presa e obrigada a abortar. O cartão de autorização de gravidez é concedido pela unidade laboral da mulher. Como a Heidi, minha esposa, tinha sido despedida da escola de graduação da Universidade do Povo por ter sido presa, não podia conseguir a autorização de gravidez.

Eles simplesmente não davam autorização?

Fu: Não. E nós tentamos achar médicos cristãos que trabalhassem num hospital de Pequim, tentamos num hospital que tinha um médico cristão, mas o médico simplesmente não podia nos ajudar porque tinha medo de perder o trabalho se aceitasse cuidar da minha mulher.

Então vocês estavam diante de uma possibilidade de aborto?

Fu: Sim, e por isso tivemos de escapar no meio da noite pulando pela janela do banheiro do segundo andar do prédio.

 Você fugiu para Hong Kong e de lá para os Estados Unidos, não foi?

Fu: Sim. Primeiro saímos de Pequim e nos escondemos no interior, porque não tínhamos passaporte nem documentos de viagem. Nós imaginávamos que nunca iríamos poder sair da China, mas Deus nos mostrou o seu milagre, e com um monte de orações e muita ajuda, conseguimos chegar a Hong Kong e, de lá, em 1997, aos Estados  Unidos.

 Eu queria voltar ao tema da política do filho único. Qual é o impacto dela na sociedade chinesa?

Fu: Eu acho que o impacto se manifesta em vários aspectos. Primeiro: o conceito tradicional chinês da importância de ter um menino. Cada família quer um filho homem e isso causou um grande desequilíbrio entre as populações masculina e feminina. Segundo: temos uma crise enorme de pais idosos. Um casal hoje tem de sustentar duas famílias de pais, por causa dessa política do filho  único. Terceiro: existe uma prática massiva de esterilização forçada e de abortos. No ano passado veio à tona o dado de que cerca de 20 milhões de bebês tinham sido abortados e que o aborto era feito até no nono mês. Eu, pessoalmente, conversei com uma senhora cristã, esposa de um pastor, que contou que tinha estado num hospital, grávida de oito meses, e ao lado de ela havia outra mulher que estava grávida de nove meses. Naquela noite, oitenta mulheres grávidas foram obrigadas a abortar, com injeções de veneno no feto. É um assassinato em escala massiva.

O que é que tudo isso causa na psicologia da nação?

Fu: Esta é outra ramificação dessa política. Aquelas mulheres se deprimem e o índice de suicídios é muito alto. A política do filho único força os pais a estragar esse filho único, criando um filho mimado, muito egocêntrico. No ano passado, a revista Time publicou um artigo sobre a política chinesa de um filho só: A nova Geração da China. Uma geração egoísta. As ramificações desta política estão só começando a se manifestar e a criar outro enorme problema social.

O financiamento dessa política do filho único vem do exterior? De onde?

Fu: A política do filho único é, claro, uma política nacional do governo central chinês, mas, ironicamente, uma grande parte do financiamento vem de organizações internacionais como o Fundo de População das Nações Unidas, que doou centenas de milhões de dólares. Os Estados Unidos também financiam. 40 milhões de dólares vão para a China para ajudar a manter a política do filho único. Os países ocidentais são cúmplices dessa política.

Por que o governo tem tanto medo do cristianismo?

Fu: Espiritualmente falando, a escuridão diminui quando se chega perto da luz, e por isso a escuridão odeia a luz. Os cristãos mostram integridade, amor e perdão, e para a escuridão isso é um desafio e uma ameaça para a manutenção do seu poder: uma luta entre o bem e o mal. Na história chinesa, o cristianismo é visto como uma coisa estrangeira (yang jiao), e o governo chinês, especialmente o comunista chinês, adere à ideologia ateia - especialmente anticristã. Através da propaganda política eles utilizam a ideologia para oprimir os cristãos. Apresentam os cristãos como inimigos do povo, que colaboram com o Ocidente para derrocar o governo chinês.

Nem as atividades benéficas dos cristãos são reconhecidas; elas são ignoradas pelo governo. Durante o terremoto, os cristãos que ajudavam foram presos só porque estavam rezando pelas vítimas. São muitas formas de opressão e de intimidação conta as comunidades cristãs. Eu ouvi dizer que, depois do colapso da União Soviética e da Europa oriental, o governo chinês ficou muito nervoso.

Por verem nisso um exemplo do que poderia acontecer com eles?

Fu: Sim. Eles diziam que "ontem foi o irmão maior, depois será o irmão menor", ou seja, a China.

O cordeiro cristão pode domesticar o dragão chinês? Existe esperança para o cristianismo e para o seu país?

Fu: Eu tenho muita esperança. Acredito que o Evangelho de Jesus Cristo é irrefreável. Você pode atar fisicamente muitos cristãos, mandá-los para a cadeia ou para campos de trabalho, mas acontece que Deus transforma essas cadeias e esses campos de trabalho em campos de colheita. Foi assim que muitos conheceram o Senhor, nesses campos de trabalho. Por isso eu sou muito otimista, e acho que a China no século XXI não será só um país que recebe missionários, mas também, num futuro próximo, a China vai se preparar para levar o Evangelho de novo a Jerusalém, e se tornar um país de envio de missionários para o mundo todo. Sou muito otimista.

* * *

Esta entrevista foi realizada por Mark Riedemann para "Deus chora na terra", um programa rádio-televisivo semanal produzido por Catholic Radio and Television Network, (CRTN), em colaboração com a organização católica Ajuda à Igreja que Sofre.

 

Mais informação em www.aisbrasil.org.brwww.fundacao-ais.pt.


Fonte: http://www.zenit.org/article-27121?l=portuguese



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